Escreva! - desafios de escrita criativa
Super desafio: Narrativa de ficção
Descrição:
Este é o desafio para quem gosta de escrever muito e com calma. Tem 6 meses para o terminar e até 20 000 (vinte mil!) palavras para usar.
Esta é também a primeira oportunidade neste sítio para se colocar realmente à prova. Não a perca e comece já.

Modalidade:
Narrativa de ficção.

Regras:
* Entre 15 000 e 20 000 palavras (aproximadamente 56 páginas em Word).
* Construir uma narrativa sobre uma história de ficção original.

Nota:
Leia este tópico antes de votar.
Desafio patrocinado por:
Desafio criado por: Elo
3 participações
Dunyazade
ParticipaçãoEnviado: 02-08-2005 0:27     Título: A Imortalidade  
Avatar de Dunyazade
Registo: 29 Jan 2005
Mensagens: 679
Participações: 92
Local/Origem: Lisboa, subúrbios


Visitar a página na web do utilizador

-1-

Paro em frente da casa. Casa? Mansão. É estranho, vivo aqui no bairro há tantos anos e só agora reparo nesta mansarda? Conheço os caminhos como a palma da minha mão, percorri os atalhos “n” vezes para ir às compras, visitar amigos, ir ao café, ao cabeleireiro, ir para o trabalho, e só hoje reparo neste mastodonte urbanístico? Tem um ar semi-abandonado, a fachada cinzenta é como a cara fechada de uma pessoa austera, rígida e sóbria. Alguém racional, céptico, lógico a todas as ocasiões, mesmo as mais fantásticas. Em vez de ver o edifício vejo um ser. A fachada apresenta um tom murcho de cinzento, heterogéneo, e um ar desmazelado - pequeninas plantas vão nascendo aqui e ali. Estranhamente, as janelas parecem limpas. Porque o estariam se todo o resto padece de incúria? Entro? Bato à porta? Com que desculpa? Direi que me perdi. Peta, mas... a curiosidade sobrepõe-se ao medo subtil que vem crescendo, como uma dor de dentes ligeira que ainda se aguenta.
A porta está tentadoramente aberta.
- Err... - entro, pé ante pé, projecto a cabeça para o interior. Limpo a garganta. - Olá? Está alguém?
Entrei. Dois passos separam-me da rua. Isto é errado. Uma vez transpus a zona proibida de um museu arqueológico francês e o alarme soou. Retrocedi e terminei a visita calmamente. Eu sei que é errado, mas não é a decência que me fará partir - só o medo. As emoções, digamos, morais, são inferiores às físicas?, questão sobre a qual reflectir.
(Decência, ética - emoções?)
Gosto do cheiro. Entre o antigo e o arejado. É enorme. Três apartamentos cabem aqui. Mais. Cheira a antigo, não a mofo. Tem o odor de séculos. Determinou não permanecer nos tempos provectos, mas suavemente modernizar-se. Não sei explicar. E tem o odor dos livros - e o odor simultâneo das bibliotecas e livrarias. Das lojas de antiquários. E de outros elementos inidentificáveis, provavelmente porque nunca os experimentei. Olho para cima: uma galeria enorme em forma de U repleta de estantes abastecidas de volumes até ao tecto. Entre cada estante uma janela. Vejo as escadas que lhe dão acesso. Observo o salão à minha frente. Tem dois sofás longos, a encararem-se um ao outro. Ressumam ar anacrónico, mas distinto. Da porta intuo-lhes a fragrância: a distinção que repele o mofo. Não é preciso envelhecer para possuir classe.
As cores são mais apagadas. Melhor - concentradas. Cores sem necessidade de vida, apenas de concentração. Cores como o castanho, todos os tons, e o azul, são densas - sólidas quase. Cruas. A casa parece repelir o vermelho, o amarelo. Há um quadro no salão, acima da lareira fria. Terei de me aproximar para vê-lo. Só distingo uma imensa mancha azul. De momento o que me atrai são os livros. Devo chamar outra vez? E se me ouvem? Terei de me ir embora. Vou - depois de investigar os livros.
Subo devagarinho as escadas que se situam à direita, na penumbra, após encostar a porta.
A meio das escadas paro. Sinto que há algo estranho e arrepio-me. Algo que não estou a ver. De súbito entendo: a falta de pó, a limpeza invisível. É uma casa, ou pelo menos divisão, habitada. Mas por fora... grita: deserta. A ruir. Parte, viajante. Estou a cair aos bocados.
Continuo, insegura dos meus passos. Tremo. Mal alcanço as estantes em poucos segundos o medo dissipa-se e embrenho-me a ler, folhear, cheirar e sentir os tomos na ponta dos dedos. Vou percorrendo a galeria em U sem me dar conta que pelas janelas a luz diminui, que tenho de chegar o livro muito a mim para decifrar as letras. Atinjo a última estante e espanto-me por me ver iluminada pela lua e não haver ali escadas. Do cimo espreito a porta ainda encostada e escuto o barulho ténue do vento no exterior. Tenho de fazer a volta toda, mas estou com medo, que ressurgiu em força. E se me jogasse dali? Não é alto. Sou capaz. Mas se alguém na casa me ouve? A estas horas - chama a polícia. O coração está a bater-me, a sair do peito. Tenho de voltar pelo mesmo caminho, não há remédio. Passo por detrás da última estante, paro por um segundo para controlar a respiração, engolir a saliva e acalmar. Encosto-me à parede esponjosa e com um suspiro grande sinto-me a cair através dela, para trás, a cair, a cair.
Caio a dar sucessivas cambalhotas para trás. Dói. Desabo no escuro ao longo de uma rampa, de um túnel quadrado que me leva para baixo. A pouco e pouco torna-se plano, menos inclinado e maior. Temo abrir os olhos. Dói-me o corpo inteiro. Quando enfim perscruto onde vim parar vejo uma abóbada de pedra com duas saídas. Estúpida. Que me mandou meter o bedelho onde não era chamada? Não me fio e decido retroceder, gatinhar túnel acima. Sou incapaz, escorrego mal a inclinação se faz sentir. E agora? Fico ali à espera de ninguém já que ninguém adivinha o meu paradeiro ou sigo para uma das saídas? Como se eu tivesse escolha. O medo não é subtil, tolhido, tímido, como de princípio, mas presente, a comandar o coração, a obrigá-lo ao rugir de um torpedeiro, a encher-me os ouvidos do som do sangue a trovejar corpo acima. Tenho de controlar-me. Controla-te, porra. Passo a passo coloco-me a meio caminho entre as duas saídas, a tremer. Ali ainda há luz, não sei de onde vem senão levá-la-ia comigo porque os túneis são negros como breu. Sinto que o meu coração rebentará se tiver de me guiar pelas paredes, mas não há alternativas. Fecho os olhos, cerro os punhos, tento relaxar. Calma. Respira fundo. Uma vez. Duas, cinco vezes. De súbito oiço qualquer coisa do lado direito. Olho o túnel - silêncio. Talvez haja lá alguém que me possa ajudar. Ou talvez seja só a minha imaginação. Avanço devagar, mal respirando, cerrando os punhos. Maldita hora em que abandonei as aulas de ioga.
O ar do túnel parece mais quente. Vou avançando sem notar obstáculos. Estico os braços para o lado, em cruz. Não toco nas paredes, apenas se me inclinar um pouco o consigo. Quentes. Sólidas. Baixo os braços. Conto os passos. Vinte. Cem. Duzentos. Trezentos. Trezentos e setenta e um e de repente oiço os gritos histéricos de uma mulher.
- Aqui! Aquiiii! Estou aquiiiii!
Outra abóbada, desta vez com quatro túneis.
- O segundo! O segundo!
- Qual? Qual deles!
- O SEGUNDO!
O segundo túnel de que lado?!
- Em frente, em frente!
Corro. Este pequeno túnel tem o total de dez passos. Desemboco num corredor longo. À minha frente está uma divisão com barras de ferro maciço. Vejo a mulher muito jovem agarrada a elas, os olhos azuis arregalados, presos em mim, transbordantes de pânico.
O cabelo é loiro comprido e liso. Tem um vestido branco de... seda? Um tecido leve que lhe molda o corpo. Parece saída de uma passerelle de Paris, não fosse pela sujidade. Manchas castanhas povoam-no. Tão bela. Não lhe vejo os pés. Estica o braço entre as grades, a mão como uma garra tenta alcançar-me em desespero. Instintivamente recuo para trás.
- A chave! A chave!
- Onde... - murmuro.
- Ali - volta a cabeça para o seu lado direito, para o fundo do corredor iluminado.
Vou lá. Procuro nas paredes e no chão.
- Não encontro nada. A não ser uma argola.
- Levou-a. Levou-a!
Regresso e oiço-a soluçando no chão.
- Levou-a... levou-a... levou-a... levou-a...


-2-

- Como é que saímos daqui? Como é que saímos daqui!
Sem me olhar diz:
- Não saímos. Sem a chave não saímos.
- Tem de haver outra maneira! Tem de haver.
Lentamente ergue-se. Vejo-lhe os olhos vermelhos inchados, sem lágrimas e o vestido não tão chique quanto havia pensado antes. O rápido olhar que lhe deitara fora mais influenciado pelo deslumbrante quadro que ela compunha do que pelo vestido ele próprio. Noto rasgos e sujidade que a cor disfarça. Pergunto porque está ali. Não me responde. Quem a prendeu e quem levou a chave - levanta os ombros, desinteressada. Arrasta os pés até ao fim da cela e escorrega parede abaixo. Não percebo a atitude. Também eu preciso de ajuda. Revelo o meu nome e o ter caído acidentalmente por um tubo abaixo. Também foi assim com ela, pergunto.
- Não me lembro - diz em idêntico tom desapegado.
A luminosidade é escassa. Do interior da prisão distingo-lhe o perfil e nada mais.
Caminho em direcção ao fundo, no sentido contrário ao sítio onde a chave era suposto estar. Há luz ao longo do corredor, até certo ponto. Este termina num buraco negro, uma boca lúgubre que me pode engolir. No ar sente-se o cheiro a diluído mofo e a ar fresco, o que me intriga. Se há ar fresco deve existir uma saída. Nem que seja uma conduta, mesmo estreita. Antes de entrar na cratera sombria (para onde fui a lentos passos felinos), apercebo-me que não há ruídos, excepto por uma espécie de fundo branco, cenário onde actua a minha respiração entrecortada.
E a dela?
O som da jovem a lançar-se contra as barras faz disparar-me o coração.
- ESPERA.
Silêncio. Não saio do lugar. Viro o tronco para trás. Não consigo mexer-me.
- Espera! Não vás! Não me deixes! Não me deixes!
- Na...na... não...
Quero dizer “não deixo, descansa”, mas as palavras morrem na garganta.
- Vou só ali. Venho já.
- NÃAO. NÃAOO!
Desta vez paraliso com o choque eléctrico que aquela voz me dá ao corpo, um relâmpago que me percorre da ponta dos cabelos à sola dos pés. Tenho todos os pêlos do corpo eriçados.
- Se fores não voltas, se fores não voltas! Deixas-me aqui! Não me deixes! Não Me Deixes!
- Não te vou deixar. Não vou. Vou procurar a chave - digo enquanto me aproximo, combatendo um pânico medonho.
- Não vale a pena, ele levou-a! Não me deixes!
- Tenho de arranjar maneira de tirar-te daqui. E procurar ajuda.
- NÃO. Não... - e escorrega barras abaixo, as mãos fixas acima da cabeça. - E se te perdes? E se não me encontras!
Não percebo tamanha insistência para que fique. Não entenderá que assim nos condena a ambas à morte?
- Não me perco. Prometo que volto. Prometo - digo, suavemente.
- E se ele te apanha? Mata-te.
Foi como se esmurrasse no peito com uma mão invisível. Engulo em seco. Tremo. Ela olha-me.
- Fica comigo. Esconde-te! Espera que ele volte.
- Põe-me aí contigo se me encontrar! Ficamos as duas prisioneiras, não percebes?! - começo a perder a paciência.
- Por favor, não vás!
- Não tenho armas, nada! Como me defendo?! Eu volto, juro. Eu volto!
E corro para o centro da negra boca, que me engole, fugindo de um som gutural, um NÃO assustador, demoníaco, um som que quase me devora. Corro às cegas no túnel negro, o medo a impelir-me. Tropeço. Caio, torço o tornozelo. Não consigo correr, apenas caminhar. Apoio-me à parede e arrasto-me para longe. Aquele “NÃO” de há pouco durou segundos, o túnel silenciou-o.
Luz. Finalmente. O pé direito dói-me. Mordo o lábio inferior. Cerro a testa. Prossigo.
Entro no salão. O mesmo que eu tinha visto quando entrara na casa. Não pode ser. Não senti inclinação no túnel. Será o mesmo lugar? Parece. É noite cerrada. Procuro um interruptor. Não encontro nenhum. Estou perto do quadro, acima da lareira, mas não consigo ver a figura. Do outro lado da lareira há uma porta. Por cima encontra-se o pavimento de madeira a amparar a biblioteca que me pôs em apuros. Hesito. O meu corpo deseja a fuga. O mais sensato é sair e tentar encontrar auxílio, acordar o bairro, pedir que telefonem para o 112, rápido, há uma mulher em perigo. Mas a porta... e se por detrás dela houver um telefone? Ou mesmo uma cópia da chave. Abro-a e empurro-a devagar.
A parca claridade luar fica para trás e o negrume novamente me acolhe. Tenho os braços lançados para a frente, as mãos abertas aos apalpões no ar vazio, e adivinho o meu rosto deformado pelo receio. Roço com a ponta do dedo um móvel. E súbito o meu pé sente um tecido, a seguir pedra e eu tropeço. Parte de mim cai no chão e outra em cima de uma massa marmórea. Magoo o braço e as costelas. Nada de grave. Às apalpadelas sinto uma estátua... vestida? Arte moderna, quiçá. Não percebo nada destas coisas. A arte para mim vem enlatada - e posso desligar o controlo remoto a qualquer instante; ou embrulhada - e tenho a opção de cerrar o livro. Fora isso - desconheço o que se entende por arte.
A queda, inexplicavelmente, dissipou-me o medo. Atravesso o salão, mas antes de sair uma dúvida detém-me. Levo a mão ao bolso. As chaves - presas a uma mini lanterna azul comprada anos atrás na Suiça. Volto atrás, coxeando, a dor que antes era um formigueiro difuso transfigura-se em picadas gélidas.
Ilumino uma estátua de aparência humana. Se não tivesse tocado nela julgá-la-ia um homem e não pedra. É tão real. O momento antes da morte tão vívido. Passo a lanterna pelo quarto quase deserto, tem apenas uma cadeira, e na parede descubro uma chave grande. Brilhante, nova dir-se-ia.
Arrependo-me de ter voltado. Devia ter fugido, chamado a polícia, acordado o Bairro aos gritos. Agora não tenho escolha - tenho de regressar à cela.


-3-

Mal saio do túnel tenho-a à minha espera.
- A chave! Trouxeste-a! - exclama, num misto de incrédula alegria.
- É mesmo esta?
- É! Dá-ma! - e projecta os braços por entre as barras, ávida. - Dá-ma!
Um desconforto interior suspende-me. Algo indefinido. Súbito recordo.
- Tu mentiste-me. Porquê?
Ela olha-me em desconcerto.
- Dá-ma! DÁ-MA! - puxa a barra com a mão direita enquanto projecta a esquerda na minha direcção, o rosto enraivecido. A fragilidade desapareceu. Eu recuo.
- Há uma saída. Ali, pelo túnel.
Não me responde. Ao invés recolhe lentamente o braço e dissimula a face nos cabelos, onde descubro, alarmada, um olho azul claríssimo e maldoso.
- Porque é que mentiste?
Eu já sei o motivo, mas escondo-o de mim própria. Ela sabia que eu estava a dois minutos da liberdade. Dois minutos, nada mais. A desculpa do terror não me convence. O medo, por mais ilógico, de ser abandonada e esquecida também não. Há qualquer coisa que ela oculta. Mentiu deliberadamente. Porquê?
- Não voltavas.
Mentira.
- Voltei. Aqui me tens.
- Eu tive medo que não voltasses.
E como a poderia tirar dali sem a chave, caso ficasse?
No meu íntimo nasce vigorosa a certeza de que ela mentira e não o tinha feito por pavor ou medo de abandono e desprezo. Há uma camada subterrânea, uma câmara oculta dos seus motivos.
Capto-lhe o olhar. Reparo que esteve preso na chave o tempo inteiro. O peito sobe e desce em soluços ténues. Apanha-me a estudá-la e serena a respiração, desembaraça o cabelo do rosto e sorri como uma deusa do Olimpo.
- Agora estamos livres. Livres, ambas. - desencaracola, sedutora, o braço níveo na minha direcção. - Vamos. Rápido. Vamos daqui. Por favor... - tem um riso nervoso, sacolejante e miudinho.
Dentro de mim acende-se uma luz. Retrocedo. Ela prende o fôlego. Recuo de novo. A bela figura converte-se numa megera de olhos injectados de sangue e raiva.
- Não... não... - repito, devagar. - Não...
Há ali qualquer coisa sinistra.
- Tola! IMBECIL! Estúpida criança. Matas-nos às duas!
Examina-me cheia de ódio, a comprimir os lábios e respirando enfurecida.
O que é que eu estou a fazer? Santo Deus, mas que asneira cometo? Os livros afectaram-me o juízo! Posso libertar esta pobre mulher e por intuições semi-idiotas não o faço. Acabou. Leituras a horas nocturnas, visionamentos de películas fantásticas, a minha imaginação delirante e sem freio - partilham a culpa do meu comportamento irracional e sim, até imoral. Por um pressentimento obtuso, fruto de delírios oníricos, concorro para a fácil morte de um ser.
Abano a cabeça, pisco os olhos amiúde, inspiro várias vezes e avanço para as barras da célula.
A mão franzina atravessa as barras de ferro e agarra-me a manga do casaco. Espanto-me. Tento recuar, mas ela puxa-me com uma força tremenda, os dedos enclavinhando-se no tecido. Fico com pele de galinha. Dá-me sacões ao braço, quer arrastar-me para si. Resisto. Parecia fácil, de início, resistir a uma jovem saída da adolescência, com um rosto de anjo - mas é como rebater um vendaval.
Largo a chave e chuto-a para dentro do túnel.
- Argh! Larga-me! Larga-me!
Puxa-me o braço, empurra-me depressa e violentamente contra as barras metálicas. Vezes a fio. O meu nariz sangra, sinto-o quente, um rio morno a escorrer na pele. Tem-me presa junto das barras. Aproxima o rosto do meu. É ignóbil, exala um odor pútrido, infecto. Observa-me refreando a cólera. O odor intensifica, espalha-se ao redor. Quase sufoco. É aflitivo respirar. Sinto-me amolecer. Se tornar a inspirar este ar fétido desmaio. Reúno forças nem sei de que manancial escondido e, encostando o pé contra as barras, dou impulso suficiente para me desprender num único e esforçado puxão.
Caio no solo e rastejo para longe. Daquela demente. Que se dane. Desta vez chamo a polícia e os bombeiros. Deve ser esquizofrénica. Só isso explica a força extraordinária. Algum familiar a prendeu à falta de melhor remédio.
Respiro com força. Antes de sair observo-a uma última vez. Tenho pena dela. Quero dizer algo que a acalme, a tranquilize. As palavras falham-me. A jovem mulher solta da garganta um rumor em crescendo. E súbito a cara transforma-se numa carranca gótica, um monstro fantástico que se vê em igrejas medievais ou nas telas do cinema. A gárgula alarga-lhe o molde da face. Os dentes são caninos proeminentes, os olhos escancarados e amarelos. E aquele maldito cheiro de novo. Tenho de fugir senão perco os sentidos.
Corro, aos tropeções, a dor do pé direito é dilacerante. Ardo em agonia, mas só vou parar de correr muito depois de sair da casa e de a perder no horizonte.
E não vou olhar para trás para me certificar que a perdi de vista.
Não vou olhar para trás.
Não quero recordar o caminho.


-4-

Paro ao pé de uma oliveira, desmorono e fecho os olhos. Quando acordo é dia e estou no Bairro. Dormi a noite inteira sob a árvore, sono de cadáver. A roupa acumulou a humidade da noite e com a molha o frio arrepanha-me os ossos. Espirro. Estremeço. Olho em redor. Nem sinal ao longe, no horizonte, da casa misteriosa. É cedo. Pelo menos seis e meia da manhã. A Peixaria acabou de abrir portas. A vizinha Aldina passa com o cesto de compras. Ao peixe tem de se ir cedo senão fica muito escolhido. Acocorada debaixo da oliveira, a abraçar-me, a D. Aldina não me vê. Passa adiante a passo estugado e enérgico, apesar da hora. Sou noctívaga. Acordar às oito é um castigo, uma tortura inquisitória.
Caminho até a casa (que fica perto), coxeando, a dor diminuíra desde ontem. Atravesso um parco nevoeiro, inexistente nas ruas anteriores. Abro a porta e só então penso no meu marido. Estive fora a noite toda, saí ontem para fazer compras e volto agora. Já deve ter chamado a polícia. Fecho a porta estranhando não o ver correr para mim, com desespero e alívio. Continuo enregelada. Quero tomar um banho longo e quente, amolecer a pele e esquecer-me de tudo. Quero fechar os olhos e enterrar-me na cama e dormir doze horas. Graças a Deus é Sábado. Não aguentaria o dia de expediente. Na cozinha bebo um copo de água e, subitâneo, o meu marido dá-me um beijo enquanto estou de costas. Está de partida para o turno de vigilância, diz-se atrasado e pede desculpas por não ter dormido comigo, mas viera demasiado tarde ontem. “Não quis acordar-te, dormi no outro quarto. Venho às cinco. Até logo.”
- Até logo...
Não viu o meu rosto ensanguentado. Economizei as explicações. Senti-me roubada de um momento íntimo que podia ter partilhado com ele. Sofro sozinha. Não há ninguém com quem possa dividir o que vivi. Quem acreditará? Será que eu própria o creio? Não terão sido delírios da minha imaginação abundante? Primeiro vou tomar conta de mim, depois pensarei.
Na casa-de-banho ponho a água a correr, despejo sais com aroma a pêssego na banheira, e enfim observo-me ao espelho. Olheiras cavadas, o nariz inchado, um bulbo sanguíneo, parte da cara tingida em vermelho, imitação de rosácea. Passo água fria no rosto e o nariz arde-me. Encolho-me com a dor. Limpo as mazelas à toalha e conjecturo se devo cortar o cabelo. Ou pintá-lo. De negro.
Dispo as roupas e enfio-me na banheira. A água quente arrepia-me a pele. Quase sem me aperceber adormeço.


Desperto com água no nariz e na boca. Dormi profundamente durante dois minutos. Santo Deus, nunca me senti tão cansada. Nem mesmo depois do aborto espontâneo. Afasto essa angústia da memória. Já passou, continuar em frente, não olhar para trás - nunca. Duas horas depois seco-me e visto roupa limpa. O tornozelo incomoda-me menos, a dor passou quase por completo no banho de imersão. Engulo uma sandes de fiambre com queijo camembert e manteiga e um café com leite. Ainda sinto fome e faço outra. Não sei se hei-de descansar ou começar as tarefas domésticas. Há roupa para lavar e passar, o jantar para fazer. Montanhas de coisas. Que odeio. É sempre nos ombros femininos que isto recai. O meu marido vem com a desculpa do cansaço, do trabalho. Quando faz algo é contrariado e mal - de propósito, desconfio. Acabo por fazer tudo. Se me saísse o totoloto nunca mais levantava um dedo.
A montanha de tarefas assusta-me, mas não posso adiá-las. Preciso de movimento para esquecer o incidente. Ao longo do dia, enquanto ponho a máquina a lavar, passo a ferro, aspiro, limpo o pó e as janelas, a mente trabalha e eu não a impeço. Faria melhor se tivesse passado o resto do dia a ler ou a ver televisão ou a conversar com uma amiga ao telefone ou a jogar xadrez no computador. A minha imaginação, terreno fértil pronto a florescer. Imaginei a casa, a biblioteca, o túnel. Ela. O racional grita-me que não posso negar pedra, os meus cinco sentidos confirmam idêntico episódio. Simplesmente não me deitei a dormir sob a oliveira e acordei ensopada na manhã seguinte, tomando por real o que não passara de sonho. A molha podia ter-me posto febril, a febre fazer-me divagar. Não. Admito: vivi aquilo, mas não da forma como a mente manipulada pela fome o recorda. Um dia inteiro sem comer prega partidas aos espíritos mais fortes. Isso a juntar à parca iluminação cria efeitos dignos de Hollywood, tão credíveis quanto os vistos em filmes de terror. Horas a reflectir levaram-me à conclusão que imaginara a horrível carranca da mulher o que, por seu turno, me levou a outra inferência: eu deixara uma mulher presa, entregue ao seu destino. Ela podia morrer por minha culpa. Eu tinha a chave da sua liberdade e retive-a, por medo. Senti que o medo era mais condenável que o egoísmo.
No frigorífico não há mantimentos para confeccionar o jantar. Recordo que ia a caminho da mercearia quando encontrei a casa.
Decido voltar. Libertá-la-ei. No bolso conservo ainda a chave.


-5-


Não consigo encontrar a casa. Percorri o atalho de fio a pavio várias vezes e nada. Começo seriamente a duvidar da minha saúde mental e num flash repentino vejo a minha tia-avó esquizofrénica que passou a maior parte dos seus dias no Júlio de Matos, passeando nos jardins, falando sozinha, sem conhecer outro mundo que não aquele.
Considero mesmo a remota hipótese de se tratar de um trauma neurológico. Bati com a testa em algum lugar? Caí da cama? Sou incapaz de recordá-lo.
De repente penso no ridículo dos meus pensamentos e ponho cobro àquilo. Já perdi demasiado tempo com este assunto. Decido ir enfim à mercearia fazer as compras em falta desde ontem. A sensação de alívio que me banha o interior das veias espanta-me.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Tem solha?
- Não, neste momento não temos. Temos é ali um bacalhauzinho muito bom.
- Hum, pode ser. Eu levo.
Enquanto o pesa e corta vou pondo no balcão os mantimentos de que necessito: natas, azeite, cebolas, alho, batatas, arroz, pescada e hambúrgueres congelados, ovos, bolachas, uvas, laranjas. Não levo mais nada porque não posso com o peso. Imaginar o bacalhau com natas, pronto a sair do forno, faz-me aguar a boca de antecipado prazer.
Pago e saio.
Distraio-me com imagens deliciosas da preparação do prato, considerações acerca dos gostos culinários do meu marido (talvez lhe faça o tiramisú que tanto aprecia) quando os sacos de compras quase escorregam das minhas mãos e fico de boca aberta, estupefacta, a olhar o edifício perdido, ou quiçá invisível, de há pouco.
Subitamente estou de novo à porta da casa mistério, como se engolida por um universo paralelo ou vítima de um passo mal dado que me plantou nas divagações oníricas de outro humano.
Um ligeiro estremecer no estômago, acompanhado por uma não tão ligeira raiva, fazem-me entrar de rompante na casa. A porta estava totalmente aberta.
Avanço, os sacos a baterem-me nas pernas velozes, ignorando os livros, o meu primeiro prazer (o segundo é a comida) e dirijo-me com ganas para o túnel quando reparo no quadro.
À luz do dia as nítidas figuras antigas retêm o meu fôlego com a força de um lenço a esmagar-me a traqueia. Aproximo-me.
A mancha azul vinha do longo vestido de noite que a jovem mulher loira envergava. O seu olhar azul continha traços de uma ingenuidade treinada e de uma inquestionável crueza. O rapaz ao seu lado, de pé, devia ter cerca de nove anos, e usava um fato de marinheiro. Na mão direita segurava um comboio de brinquedo. O olhar apático traía a sonolência, prova de ter sido obrigado a posar para o retrato. À época a fotografia era comum. Mas ele provinha de famílias ricas que sempre se retrataram do mesmo modo, adivinho. O choque foi ver na rapariga representada o rosto da jovem prisioneira que eu vim libertar. O mesmo rosto.
Os mesmos traços.
Os mesmos olhos.
A mesma pessoa?! Impossível!
E a mancha no pescoço do rapaz. Já a tinha visto antes.
Procurei por instantes, confusa, na mente a chave do reconhecimento, a decifração do enigma do local ou, se possível, da pessoa, até que num relâmpago repentino a memória dissipou a sombra que a velava e vi claramente o rosto do homem a quem, agora, a mancha pertence.
Corri para a porta ao lado do quadro. Precisei novamente da pequena lanterna do chaveiro. A estátua permanecia na mesma posição e eu estaquei: um pavor subterrâneo subia-me das raízes para o rosto.
Apontei o foco de luz à face marmorizada e desviei as roupas para o lado, pondo totalmente a descoberto o pescoço.
Abafei um frémito perturbado. Depois comecei a respirar em pequenos e rápidos assopros.
A pequena mancha, mal discernível por entre a roupa, revelou ser idêntica à do quadro. Duvidei tratar-se de um sinal partilhado pela família.
Mas já não duvidava do que vivi. Já não duvidava da minha sanidade nem do facto concreto de ter visto a bela face da jovem desconhecida transformar-se numa carranca monstruosa.
Sigo, disparada, pelo túnel, mas desacelero para um passo mínimo, silencioso, antes de enfrentar a luz e aquilo que se esconde nela.
Ela, porém, ouve-me.
- Voltaste... - oiço-a, com esperança. - Voltaste... - mas o tom de voz mudou para o lúgubre e quase temível, como se o instinto lhe segredasse o que me ia na mente em turbilhão.
- Quem és tu? - pergunto, o coração na boca, saindo para fora do túnel.
Os cabelos escondem os olhos que, não obstante, lançam farpas contra mim, como centelhas incendiadas de lava e enxofre.
O silêncio prolonga-se. Numa voz meio sufocada a que tento desesperadamente dar a impressão de força, lanço:
- Vi o quadro.
E a seguir, pois permanece muda:
- Vi-te.


- Vi-te - repito.
Emprego um grande esforço para impedir que o meu corpo trema, denunciando o terror que sente. Fecho as mãos em punho, tento controlar (mal) o fluxo da respiração, não deixando que a hiperventilação se sobreponha ao ritmo que tento, em desespero, fazer parecer calmo e sereno.
Um animal veria logo o medo e ia tirar partido dele.
Ela não era diferente de um animal, só que muito mais selvagem, nunca domesticado.
- Liberta-me daqui e eu mostro-te quem sou - sibilou com imenso cinismo.
- Quem é aquele homem? E porque está feito em pedra?
- Provou da fonte de Medusa.
Não compreendo. Obrigo o olhar arregalado saltitante a fixar-se num ponto, não nos olhos dela, mas em algo nela: a roupa, o cabelo. Cada vez que a olho de frente o coração, alvoroçado, quer romper-me o peito e fugir.
Fugir.


-6-

Sou pela intuição, acredito nas tramas invisíveis, insensíveis aos factos materiais, que nos avisam, nos aconselham sobre o caminho a seguir. Muito mal teria sofrido se tivesse entregue o juízo unicamente aos factos, quantas patadas da vida não teria apanhado.
Decido confiar no meu coração e volto-me para nunca mais retornar. Não me importa que esteja ali, presa. É um monstro e apenas a esse facto darei atenção.
Oiço-a lançar-se contra as barras, agarrá-las e depois, quase a gritar, dizer-me:
- Vais para casa! Fazer a comida ao maridinho! Escrava! ESCRAVA!
Estaco. Encaro o túnel de costas voltadas para ela.
- Limpar as ceroulas, varrer o chão, lavar as janelas! Acender a lareira. Oh, o fogão. E fazer-lhe bacalhau com batatas. Até morreres. Escrava!
- A mim quem me parece privada da liberdade és tu - replico, virando-me, lenta e surpreendentemente sem medo.
- Acreditas? Sou livre.
Revivo a última lida da casa, o cheiro do pó a picar-me o nariz, os vapores da roupa que passei a ferro a subirem-me para a cara, o odor e a textura húmida da roupa acabada de sair da máquina de lavar e o peso que carrego nos braços para a pôr no estendal; as pequenas partículas do Pronto a elanguescerem no ar quando pressiono a lata ao pé dos móveis. Tudo isso se abate sobre mim numa mistura de cheiros quotidianos, rotineiros. Cheiros que poucas vezes o meu marido sentiu, a não ser como espectador ou como aquele que usufrui do trabalho alheio. Ele pouco faz lá por casa, a não ser lavar a loiça em raras ocasiões, sobretudo quando há visitas. A desculpa do trabalho por turnos, que tem de ir dormir, está sempre presente. E eu, com o benefício de trabalhar perto de casa, indo a pé para o emprego, nem sei o cansaço que os transportes provocam. Sim, sou escrava de facto. Mas a culpa é minha. Podia obrigá-lo, fazer greve de tarefas domésticas e ele que se arranjasse. Mas abomino conflitos, prefiro perder as vantagens da assertividade e da autoridade aos benefícios de me fingir de forma constante um ser de temperamento forte. Por isso deixo que ele reine e ganhe a maioria das discussões.
Amo o meu marido, mas ele nunca me compreendeu totalmente.
Há uma parte de mim secreta, obscura, que guardo dos seus olhos analíticos, a parte que sente atracção pelo abismo, que pensa como seria abrir-me às trevas. Abrir-me à noite e à escuridão. Não posso ter este género de conversas com ele. Não as percebe. É demasiado céptico, superando-me. Morrerá uma criatura perfeitamente racional. Sim, sou escrava. Não dele, mas dos meus medos: o medo de sucumbir ao lado escuro de mim e o medo da mudança.
Apercebo-me que ela me olha interrogativa e ansiosa.
Bacalhau...? Com um baque compreendo que o seu olfacto foi capaz de sentir as compras que fiz. E como sabe que sou casada? Será que me lê a mente? Não acredito, talvez queira que eu pense que sim, viu a aliança e fez assumpções.
- Se me libertares dou-te uma liberdade, um poder inimagináveis.
- Said the spider to the fly...
Ri-se. Tem a figura de um anjo, mas nas mãos as unhas são garras amarelas retorcidas. Ao ver-me observá-las esconde-as atrás das costas.
- Evangeline.
- ...
- O meu nome. Evangeline Swain.
- Vais fugir - pergunta ao notar que faço tenção de partir. - Fugir para a tua gaiola. Nem dourada... oh, as fêmeas desta era, o vosso destino não é melhor do que o nosso. Sois escravas por vontade própria. Maldita a liberdade desperdiçada em quem tão pouco uso lhe dá. Se uma coleira vos rodeasse a gorja guinchariam, aprovando o tratamento.
No fim de um momento de silêncio proclamou-se livre do cajado contemporâneo, das tormentas com que a sociedade sobrecarrega a mulher.
- Pois. E acabaste aí. Belo trabalho. Grande liberdade - retruco.
Arregala os olhos. Vejo as veias de sangue inchadas.
Evangeline Swain era uma mulher com o dom da imortalidade.










Não nascera assim.
Tinha nascido em 1700, enfezada, após nove meses de gestação, uma bonequinha desengonçada, feia - e humana.
Sobrevivera à infância, ao contrário de grande parte dos irmãos. Na adolescência o corpo desenvolveu as formas próprias da idade, mas não era de modo nenhum uma beleza. Continuava magra, desconjuntada e, sim, feia. Mas um homem burguês rico gostou dela. Lembrava-lhe a mulher defunta no começo do seu longo noivado. A esposa acabou por se tornar uma bela mulher e o burguês, comerciante de diamantes vindos do Brasil que exportava para Londres, descobriu nela a semente da formosura póstuma. E em concomitância alterou-lhe o nome para Evangeline.
- Foi ele que... - engulo em seco - te... transformou?
Ignora a pergunta e prossegue.
Habituou-a ao belo, ao exótico, ao luxo. Em poucos meses acostumou-se a uma vida de opulência. Durante dez anos viveu com ele, a cada dia tornando-se mais bonita, tanto por mérito próprio como pelo talento dos vestidos e das jóias que envergava, dos perfumes que punha e da maquilhagem perfeita que exibia. Não era egoísta. Ajudava a mãe e os poucos irmãos que lhe restavam. Tinha abortado algumas vezes, não sabia porquê, e os médicos afirmavam ter sido ventura porque o parto levá-la-ia ao túmulo.
“Ao ouvir tais palavras dos físicos ficou pálido, o lábio grosso inferior tremeu e os olhos distenderam-se. Sei que pensou na esposa morta. Sei que o coração dele quase parou com o pensamento de me perder. Tive três abortos. Desde o último passou a evitar-me, a dormir numa câmara separada e a consultar outras mulheres. Meretrizes que lhe apagavam o fogo. Aceitei sem um reparo. Naquele tempo não tinha senão que aceitar, mas no íntimo a minha dívida de gratidão prosperou porque não sabia que Dom Raimundo nutria tal afecto por mim.”
- Nunca chegaste a ter filhos?
- Nunca.
- Tens pena?
Observa-me e devolve-me a pergunta.
Eu respondo que não, não tenho pena de não os ter e, de qualquer modo, não podemos durante uns anos. Falta de dinheiro, o pagamento da casa, as dívidas, os encargos. Já fizemos os cálculos dezenas de vezes. A conclusão é sempre igual: temos de poupar primeiro e só depois de amealharmos um pé-de-meia substancial eu posso engravidar.
A sua voz suave seduz-me, a longa narrativa parece ser contada em breves minutos, a minha ânsia em ouvi-la recrudesce e rapidamente ponho de parte a ideia de partir.
Fico.
E continuo a ouvi-la.
“Uma noite um visitante inesperado chegou, ensopado da cabeça aos pés. Era um antigo parceiro de negócios do meu amante. Abriu-lhe a porta de casa, ofereceu-lhe abrigo pelo tempo que necessitasse e em privado comentou comigo o seu aspecto extraordinariamente jovem, apesar de se terem passado já doze anos desde a última vez que o vira. Observei-o atentamente à mesa. O amigo mal comeu. De facto preferia o vinho, muito vinho, copo atrás de copo, mas não se embriagava nem sequer ficava levemente tocado. Tinha o cabelo fino pelos ombros, negro, e a pele alva. Alto, esguio. O que me assustava nele eram os olhos cinzentos penetrantes, encimados por fartas sobrancelhas negras. Olhava para nós como uma flecha em chamas que nos fosse abrir o peito. Pensámos que dormiria a noite inteira, sem sobressalto. Bebeu mais de cinco jarras de vinho. Dom Raimundo passou a noite nos seus aposentos e não me procurou.”
Para de falar.
- E depois? - questiono quando o silêncio se prolonga.
- Dá-me a chave e confidencio-te o resto.
Levanto-me sem uma palavra.
Surpreendentemente ela mantém a calma. Diz apenas:
- Até amanhã.
Sabe que eu voltarei.
E voltarei, de facto.





- Foi a primeira vez que tive prazer enquanto mulher - conta Evangeline na manhã seguinte. Eu telefonara para o trabalho e fingira uma gripe. - Um delicioso gozo a subir-me da ponta dos dedos ao rosto. O visitante veio ter comigo, meio despido, e se ao princípio aquele corpo muito níveo e musculado, apesar de fino, e os olhos de águia me deram medo, em segundos o pavor foi substituído pelo arrebatamento. E depois, antes do fim, ele prometeu-me mais, prazeres maiores.
Inclina a cabeça. Por instantes julguei que engolia em seco.
- Aceitei.
Sussurrando com o olhar perdido, ainda azul e malvado, mas com algo mais a habitar nele, talvez a murcha semente da humanidade:
- Eu aceitei...
Cala-se. o ruído branco a envolver-nos, além do da minha respiração. Tem a postura de uma estátua, o vestido não ondula, nada em si mexe, nem o estômago porque, obviamente, ela não respira.
Pergunto:
- E depois?
Sem erguer o rosto diz com singular força na voz tétrica:
- Mordeu-me. Deu-me a provar o meu sangue misturado no dele. Foi a última vez que o vi. Abandonou-me depois de tornar-me imortal. Era louco. Era um louco.


-7-


- A Imortalidade dá a volta à cabeça a qualquer um. Os humanos não foram desenhados para ela. Mas se o preço é alto é certo que vale a pena. Todos os prazeres que se obtêm, os próprios sentidos se afinam, e diante de nós estendem-se as Eras para experimentar o mundo e seus deleites. O mundo é dos imortais - conta.
- Não me parece que tenhas ficado muito contente de início.
- Isso mudou.
Evangeline está sentada no chão, as costas rectas apoiadas à parede. Não me atrevo a aproximar-me. Sei que me agarrará e, para me causar o desmaio, usará o cheiro maldito. Percebo finalmente. É assim que faz as vítimas aquietarem-se. Não estou longe do túnel. Pronta para a fuga ágil.
- Em 1729 assisti ao matrimónio do príncipe D. José com D. Mariana de Bourbon. O fausto, a majestade do evento. Foi muito bonito. Sumptuoso. Continuava bela e jovem. A cada dia a minha beleza engrandecia. Convidavam-me para tudo. Tive amantes. E como não podia ter filhos diverti-me.
- Informaste D. Raimundo do facto?
Por um segundo olha-me de soslaio com má cara, mas desvia a vista e responde:
- Não quis preocupá-lo ainda mais. Não lhe podia dizer o que eu era. Um... outro ser. Nesses tempos uma palavra, por mais casta, dita no sítio desacertado, atraía os grifos da Inquisição. Se lho confidenciasse estava não só a colocar a minha vida em risco, mas também a dele. E a da minha pobre família.
Não contesto. Isso surpreende-a. Esperava que eu argumentasse. Prossegue o relato da sua existência nos três séculos. Conhecera festas e luxos intimamente; encetara viagens à volta do globo; vislumbrara coisas hoje incógnitas ou desaparecidas.
As suas palavras seduzem-me, atiçam-me o imaginário, despertando a adormecida vontade de viajar e conhecer o mundo. Tanto de mim foi abafado depois de me casar, por razões económicas como práticas como... por outras que nada têm a ver com o meu marido. Se não temos dinheiro nem vida para passar meses em viagem também é verdade que a ele o atrai a segurança quieta dos lugares que sempre conheceu. Não é homem de viagens e eu não posso peregrinar sozinha, fazer as minhas férias separadas, não porque mo proíba, não é ciumento, mas tão-só porque não temos possibilidades. E, de súbito, num jacto repentino, essa reprimida vontade de passear ressurge, atiçada nas palavras da vampira cativa. Pergunto-me porque me terei casado com ele. Somos distintos em aspectos fundamentais. Não consigo contar-lhe tudo e amordaço muito de mim para a relação não sofrer. Eu abdiquei mais do que ele, mas nunca o censuro por isso. A escolha foi e é minha. Mas porque o escolhi? Pela segurança que agora me oprime. Ele é a rocha que me impede de afundar. Providencia a sensação de solidez que me impede de lançar-me às águas escuras do abismo do meu lado negro. Não quero ser “boazinha”, mas das convidativas forças ocultas sei que não há retorno. Em ocasiões interrogo-me se me sabotei ao casar-me. Se esse abismo não será o meu destino derradeiro, apesar do que quer que eu empreenda para me afastar e levar uma vida normal.
Evangeline descreve paisagens de África em tempos coloniais; os nativos da Austrália e Nova Zelândia; os estranhos rituais da Índia. Não quero saber das horas. Não me importa. Quero ficar ali e sonhar, sonhar que sou eu a viajante incansável. Viajante verdadeira e não de livros pois somente através deles extingo um pouco a sede de partir sem rumo, sem bússola, sem propósito.
Não me incomoda o avançado da noite; se o meu marido chegou ou não a casa e encontra para jantar restos do almoço de ontem; se já é dia e me esperam no trabalho, para enviar facturas e se é o último dia para pagarmos a letra ao banco. Não quero saber. Fico. A escutá-la.
Subitamente Evangeline suspende o relato e observa-me fascinada pelo meu semblante atento, como uma criança no primeiro dia de escola.
- Continua.
- Não. Volta amanhã.
- Diz-me...
- Amanhã.
E depois disso recusa-se a falar, recolhendo para o fundo da sua prisão, cola-se à parede e eu deixo de a ver.
Ao meu marido, entrando em casa, não dou explicação nenhuma. Estou de muito mau humor. Receio dizer tudo sem conseguir parar. Ele não insiste porque me conhece a disposição.
No dia seguinte telefono para o emprego. Sim, continuo doente e não, não posso ir, estou indisponível durante uns dias.
Sinto que vale a pena perder o emprego por uma boa história - já que não a podemos viver.



- A luz do dia mata-te?
- Sim.
- Então como conseguiste viver ainda tanto tempo com D. Raimundo sem ele estranhar não saíres à luz do dia?
Esperava a pergunta.
- A minha passada fragilidade providenciou-me a desculpa necessária. Eu passava a maior parte do dia no leito e levantava-me com o sol-posto.
Evangeline alonga-se na narrativa; consegue descrever cada minúsculo detalhe, cada pormenor, põe os sabores das especiarias na minha boca e o ribombar dos sinos e rufar dos tambores nos meus ouvidos, e eu sinto-me lá, com ela, a sua sombra invisível.
Sou ingénua, admito. Basta pouco para me ganhar. Um elogio feito na hora certa. Se não fosse pela atenta vigilância dos meus pais, em criança teria seguido qualquer um, bastando que me oferecessem um sorriso terno, um doce gesto. O meu primo Dominique, mais velho dois anos, dedilhava, competente, essa corda em mim, contando-me histórias inacreditáveis. Convencia-me de tudo. Sim, à noite as máscaras de Carnaval ganham vida e mordem os pés dos dorminhocos (fê-lo várias vezes. Eu, aterrada, escondia-me debaixo dos lençóis). Na lua vivem gnomos verdes que nos roubam os presentes de Natal a não ser que os subornemos com doces e bolos. Adivinhem o intermediário destas trocas. Para não falar da altura em que fui caçar gambozinos com ele, munida de uma saca de serapilheira com o cheiro das batatas ainda fresco. Mas as suas histórias cativavam-me, prendiam-me. Vem dele o meu amor aos contos, às narrativas intrincadas e impossíveis. Fantásticas. Fora deste mundo. O meu primo Dominique, que eu adorava e adoro ainda, apesar de ter morrido num acidente de automóvel aos dezoito anos. Não morreu, não morrerá nunca, não enquanto eu oiça a sua fina voz de criança narrar-me contos singulares.
Mas se sou ingénua o facto é que Deus ou o destino ou a Natureza me dotaram de instrumentos para mitigar a candura. Quando algo não está bem, uma situação ou pessoa, sinto no estômago uma urgência, o corpo inteiro ecoa numa vibração desagradável. O espírito, ou o subconsciente, fala-me através da carne, da pele. Urge-me a que me distancie da situação, do indivíduo. A intuição jamais me falhou. Porém meto-me em problemas porque por vezes decido calá-la e escutar a voz da ingenuidade, da inocência. Quero acreditar que há mais inocentes neste mundo. Que o planeta é composto de inocentes. Que a pessoa à minha frente não representa um problema. É mentira, claro. Um auto-engano que me custa, no futuro.
Agora acode-me de novo a mesma intuição, a mesma premência do corpo, avisando-me do perigo. Sei que Evangeline me está a seduzir com a história e, se o permitir, provavelmente perderei a vida. Ela é como um mar calmo em que avanço, pouco a pouco, sem saber nadar, mas confiante, e de repente as águas agitam-se e eu estou demasiado longe da praia. A sua sedução é exemplar. Soube identificar em mim o ponto certo. Apercebo-me que foi essa a capacidade que a permitiu sobreviver durante séculos.
Levanto-me e parto sem dizer nada.
A sua cara demonstra pânico, os olhos muito abertos presos a mim, as mãos enganchadas nas barras.
- Não vás! Eu dou-te o que quiseres! Tudo, TUDO!
Já estou no túnel. Não me viro.
- A imortalidade! A IMORTALIDADE!
E então eu estaco. Uma onda de arrepio eléctrico, meio quente, meio fria, viaja dos meus pés à cabeça. O seu desespero deve ser colossal, penso. E novamente seduzida (não pela oferta, mas pela curiosidade que o seu terror me causou. Nas palavras gritadas eu senti uma verdade sua e pareceu-me, do início, que Evangeline poupava na verdade), retorno.
- Que farei eu com isso? Para que me serve isso?
Fica uns segundos atabalhoada, sem saber responder.
- É uma dádiva... um dom se...
- Dom? Como o teu? Para acabar os meus dias como tu, sem sequer poder morrer? É esse o dom? Ou louca, como aquele que te fez assim?
- Não imaginas o que eu vivi, não podes imaginar. Cheguei ao futuro. O meu corpo é a máquina do tempo. Quero continuar a viajar no futuro. Também o podes fazer. Seremos companheiras.
- Não acredito. Tiro-te daí e a primeira coisa que fazes é matar-me. Não.
Engole em seco. Baixa os olhos. Não sabe como persuadir-me. Os olhos azuis perdem o brilho, esmaecem.
- Penso que é altura de começares a contar a verdade.
Ela fita-me num mudo espanto.
Sento-me, de pernas cruzadas, frente à cela.
- Diz-me a verdade. Depois julgarei se te liberto ou não.
Faço um jogo perigoso, mas o desejo de saber sobrepõe-se à precaução.
- Seja - e os lábios tornam-se duros, o olhar de mármore. Evangeline recupera a postura que denoto arrogante, além de esplêndida.
- A verdade.
- Comecemos pelo homem de pedra.


-8-



Aníbal. Estava a morrer. Lentamente. A cada nascer do sol as células cancerosas tomavam novas posições, venciam sucessivas batalhas contra as debilitadas defesas de um corpo de oitenta anos. A riqueza era incapaz de aliciar a morte, obrigá-la a parar no caminho e a voltar para trás. Muitas vezes vira-a de negro, contou a Evangeline, mas era um homem. Alto, esguio, pálido e de ar contrito, porém com a serena aura do profissionalismo. Aníbal estranhou que a Morte não gostasse do seu ofício, sentisse pena de quem levasse, mas o fizesse com rigor. “Sim, vi-o em ocasiões várias, normalmente as de maior angústia, as negras horas, negras mesmo quando o sol ia alto. Eu oiço o riso das crianças, o chilrear das aves e o manto obscuro da desesperança abate-se com a violência de uma tonelada sobre os meus ombros nus e é nesse instante que o vejo. Lembra-me um agente funerário competente, que partilha o sofrimento dos clientes - de modo profissional. O profissional da dor, Eva.”
Consultou médicos, nacionais, estrangeiros. Viajou dez vezes a Cuba. Experimentou tratamentos alternativos, remédios não convencionais. Ayurveda. O ioga. Reiki. Cristais. Pagou a curandeiros, a pastores da Igreja Universal do Reino de Deus. Tentou médiuns, o espiritismo. Mudou a alimentação. Intentou o jejum. As termas. Mas o tempo transcorria e ele, exaurido, já mal podia comer, mal possuía forças para se obrigar a uma só colher de sopa.
Aníbal era um crente. Acreditava no que lhe conviesse. Sabia o que Evangelina era.
- E deixaste-lo vivo? - estranho.
Ela fita-me, chocada:
- Não liquido todos quantos cruzam o caminho comigo! - reparo na dolorida nota em resposta. - Quem sabe o meu segredo teve de merecê-lo - acrescenta a meia-voz, os olhos vazios vagueando num ponto incerto. Recupera de imediato.
Aníbal comoveu-a. Contudo conhecia-lhe a natureza venenosa, de réptil. Ele navegou pela vida ao sabor dos ventos favoráveis, usando de quem tinha necessidade e descartando-se dele logo após ter servido o seu desígnio. Aníbal foi um homem mau. Caminhou na vida abrindo profundas e incicatrizáveis crateras nos corações das pessoas, estranhos, familiares, amigos, tanto fazia. Recebia tudo dos outros sem sentir necessidade de ser generoso, dar algo em troca, porque nascera rico e o dinheiro supria-lhe todas as premências.
O dinheiro era o seu mundo inteiro. Teve a sorte de nascer abastado. Mas o tempo esgotava-se. A vida de Aníbal escorria-lhe do corpo como as gotas da água escorrem por nós abaixo ao apanharmos chuva. A imagem que lhe vinha à mente era a de um copo de água: a morte pegava nele e sorvia-o até ao último pingo. O horror inundava-o, sobretudo quando tropeçava na imagem, à noite, em pesadelos. Nas noites em que conseguia dormir. E as dores. Santo Jesus, o ferrão da dor acompanhava-o como a muleta acompanha os coxos. Um rio de dor fluía a seu lado, a cada passo, a cada suspiro ou bater de pálpebras. Os remédios diminuíam o rumor por pouco tempo.
O retrato traçado a Evangeline emocionou-a.
Apesar do passado, da traição sórdida, do antigo amor apunhalado, do abandono - Evangeline quis consolar. Tocá-lo, abraçá-lo, esse homem de oitenta anos que ela amara na juventude. E há tantas décadas não tocava num homem! Ele tinha arruinado a sua confiança.
Evangeline julgou que, à vista do carrossel da morte, se arrependera, quisera o seu perdão - e a procurara.
- Que idiota. Séculos neste mundo sem aprender a lição.
- Qual lição?
- Os homens não mudam.
Franzo a testa.
- Não concordo. Os homens, e mulheres, por vezes mudam.
- Não existem conversões sinceras da malvadez para a bondade.
Quis envolvê-lo nos braços, aspirar o antigo aroma, mas este vinha misturado em odor de medicamentos, suor, malquerida velhice e morte próxima. E porém permanecia ainda na pele, um molusco preso à rocha. As saudades que sentira daquele cheiro marítimo.
Aníbal, no entanto, não era homem de contentar-se com carinhos e brandos consolos. Ele queria a definitiva cura do mal.
No avançar da idade tornara-se supersticioso, temente não a Deus, mas a castigos vindouros.
- O asno acredita no Inferno - e Evangelina solta o gargalhar puro das taças de champanhe durante o brinde, sacudindo a cabeça para trás.
- Eu dei-lhe o inferno... - acrescenta num sussurro perverso.
- Ele tinha medo de ir para o Inferno...?
- Sim.
Calo-me e assimilo a informação.
Como pode alguém temer o inferno? O inferno está dentro de nós, só o levamos para lá se o transportarmos connosco. Percebo que Aníbal carregou sempre o inferno dentro de si, enquanto vivo.
Mostrou-lhe a casa. Evangeline conservava a memória nítida do lugar onde vivera e amara. Nada tinha mudado, excepto o subsolo onde acrescentara e alterara as caves, já sem vinhos.
- Apoiou-se ao meu braço ao caminhar. Mostrou-me a cela, de fora. Não me explicou a função. Inebriada com o seu encontro, as emoções, as memórias, não me ocorreu perguntar. Abriu-a. Quis entrar sozinho. Deu quatro a cinco passos débeis. E a seguir caiu, inerte.
Evangeline acorreu para auxiliá-lo. Pegou nele, levantou-o. Ele quis caminhar à frente.
“Sou capaz, ainda sou capaz. Por favor, deixa-me tentar.”
Ela desprendeu-lhe o braço, ele caminhava dois a três passos à sua frente. E, de súbito, com uma rapidez instantânea, saiu para o exterior estando ela a meio metro da porta, e fechou-a.
Para nunca mais a abrir.
- Como pudeste amar esse homem vil?
- Não tive escolha. O coração escolheu por mim - disse com uma ligeiríssima nota de tristeza.
Abalada, intuiu num relâmpago que a rachou ao meio, o que ele queria desde o começo: o seu sangue, a sua vida imortal, o seu dom. Nem foi preciso dizê-lo: a silenciosa troca de olhares comunicou-o.

-9-

Tenho pena desta mulher. Pela primeira vez vejo-a como humana e não somente ser imortal, talvez superior aos mortais por ter vivido tanto. Uma deusa menor - era como a via. Entendo que as suas limitações são as limitações humanas. Entendo que ainda é humana. Nas palavras doridas intuo o rubro da alma. É forçoso que tenha alma, mas aprisionada naquele delgado corpo e carne pálida e bela, enredando-se nos cabelos áureos, e impossibilitada de escapar.
Os meus sentimentos de terror e desconfiança abrandam, juntamente com o bater do coração. Há quantas horas aqui permaneço? Não sei. Ela tem-me presa sem me prender. Poucos, até hoje, tiveram esse poder sobre mim.
Aníbal tentou efemeramente persuadi-la a dar-lhe a imortalidade. Era o único meio de enganar a morte. Franzo a testa. Que homem idiota. Prefere perder a alma a ganhar a verdadeira liberdade, pois que a morte traz a alforria, o cortar das fúteis limitações terrenas. A morte despe e deixa à vista o espírito nu.
Tentou convencê-la por meio de palavras doces, vitimizadas súplicas, ameaças - sem êxito. Evangeline devolvia-lhe um olhar duro, imóvel, de ódio puro que substituíra o antigo amor, nada mais que a ilusão a que se prendera para poder lidar com a vida. Algures existia um homem que a amara e esse amor passado sustentara-lhe os dias.
A cruel realidade impunha-se, extirpando ficções com a dor da faca a esfolar pele viva. E agora era o asco que a alimentava e lhe escorava as horas.
Aníbal tem de a manter em boas condições físicas caso contrário a seiva de Evangeline não terá força suficiente para torná-lo num vampiro poderoso. O sangue fraco faria dele imortal, mas sofrendo à mesma de maleitas humanas, sem protegê-lo da intensa dor.
Por isso trazia-lhe comida. Rapazinhos e rapariguinhas para saciar a sua sede.
- O melhor sangue é o dos jovens - revela num malévolo tom espraiado dos olhos azuis em setas luzentes. - O vigor da juventude inunda-me e chego a sentir a capa da inocência que veste as crianças. É superior a todos.
Um arrepio palmilha-me de cima a baixo; os pêlos do corpo alvoram.
- Deus... - sussurro.
- Não! - exclama, surpreendendo-me a expressão temente ao meu juízo. - Raro, quase nunca!, bebi do sangue dos inocentes. Apenas quando não havia alternativa! E ele, conhecendo a força que o sangue das crianças me infunde, trazia-as para mim!
- Podias não beber.
A fisionomia torna-se sarcástica.
- Isso é o mesmo que pedir-te para não respirar.
Fico em silêncio. Baixo os olhos para as mãos entrelaçadas em cima das coxas.
- Como conseguia trazê-los para cá?
Conta-me que a perfídia de Aníbal o ajudava a dissimular os reais intuitos. Era um fingidor nato, prestidigitador de sentimentos: parecem genuínos, mas não são; semelham magia autêntica, mas não é. O amor é um abrir de comportas internas e quando o ser humano se abre ao encantamento, o inteiro universo acompanha-o, abre-se com ele. O indivíduo cresce, torna-se completo, maior. Um gigante. A mágica fornece ao espectador, por momentos efémeros, a ilusão de que as águas líquidas e misteriosas do universo estão ali, presentes, à sua frente, e talvez ele possa mergulhar nelas e sair homem renascido.
Aníbal ia a parques. Caminhava, lento, com a bengala, por vezes duas, dando miudinhos passos. Simulava fragilidade. Por vezes escolhia dias de chuva, fingia desorientação e algum miúdo empreendedor que gostasse de ajudar via o seu estado (Aníbal era mestre no despertar da compaixão alheia) e voluntariava-se para o levar de regresso a casa.
Nunca mais o viam.
Na semana seguinte escolhia um parque diferente, talvez no sítio oposto do país, escolhia a vítima (compreendo agora que a essência predatória de Evangeline e Aníbal é idêntica) e deitava o isco. Preferia miúdos tímidos, os que não se impunham e se sentiam validados e em paz consigo ao auxiliar alguém mais frágil do que eles. Eram crianças que em casa sentiam não ter grande importância ou uma importância menor em relação aos adultos. Ver permitida a sua ajuda, além de elogiada, serem tratados ao nível dos crescidos, cegava-os quanto à natureza do perigo.


Ao fundo da cela existe uma porta que dá para o quarto contíguo onde Aníbal punha os garotos, após drogar o batido ou o sumo oferecido no café para onde os levava primeiro (depois, já meio azoados, conduzia-os ao carro. Dormiam a viagem inteira). Saía e abria então essa porta para que Evangelina tivesse acesso.
- Pensou em tudo. Deve ter planeado durante meses - comento sem obter réplica.
Imagino os miúdos, a mente nublada ao acordarem, assustam-se notando o chão duro onde despertam, as paredes frias e nuas que os rodeiam - a cela que os prende. E de repente vêem as duas portas, uma fechada, mas a outra está aberta. Imagino as desditosas crianças iludidas a irem para ela em passos desconexos, talvez caindo, o coração a saltar em pânico, apreendendo o extremo perigo, temendo todo o género de coisas que se vêem na televisão à hora do jantar, quiçá a intuírem já a morte - e descobrirem o definitivo quebrar da ténue esperança, escondida atrás dos medos. É apenas outra célula. Duvido que Evangeline se revelasse logo. Ela é o predador a esconder-se na sombra, a saborear o momento ou a avaliar se aceitará ou não o que lhe é dado. Quanto tempo irá suportar até à morte final? Será capaz de esperar cinco dias, quatro, até o miúdo começar a ter fome e a sua força vital começar a definhar? Obrigaria Aníbal a reabrir a passagem, a alimentá-lo.
Ela tenta resistir - mas não consegue. Espera que o miúdo assustado tropece nela, observando-o da sombra do recanto. Depois talvez lhe diga para não ter medo. Ela está ali, com ele, está tudo bem, vai tudo correr bem. Não chores. Talvez tenha pena dos miúdos e os abrace e, a seguir, por compaixão, liberte o cheiro pestífero que os adormece. E então alimenta-se quando o corpo pequeno fica mole.
Mas não sei se prefere caçá-lo. Não sei se a caça lhe dá prazer. Sei que é malévola. Não a questiono sobre o processo, não quero saber nem ouvir mentiras que me ceguem.
A cada dois, três dias, no espaço de meses, Evangeline tinha à sua espera na cela contígua um rapazinho ou rapariguinha. No fim, Aníbal cerrava a porta, já com Evangeline na sua cela, entrava e limpava o sangue o melhor que podia, reunia as partes do corpo que tinham sobrado para dentro de um carrinho de mão - e saía.
Não é só sangue, percebo com nojo e revolta. Não se alimenta apenas de sangue. Deus, quantos mais como ela existirão por esse mundo além?
Mas certo dia trouxe-lhe Hugo, de oito anos e grandes olhos de um verde límpido, enquadrados em finíssimas e longas pestanas.
Poupou-o por três dias.
- Porquê?
Hesita.
- Lembrou-me... um moço que eu amei, já era quem sou hoje.
- Quando?
Ela, virada de costas para mim, tem a cabeça descaída e murmura em voz frágil:
- No princípio.
Da sua outra vida.
Porém a fome impôs-se e, chorando, diz-me, fê-lo desmaiar e bebeu do sangue.
- Só?
De punhos cerrados fita-me com incontida raiva e não replica.



- Como conseguiste matá-lo?
- Fingi aceitar: a imortalidade em troca da minha libertação.
- Acreditaste nele?
- Não. Eu tinha um plano.
- Falhou. Presumo.
Cala-se. Mantém-se em silêncio durante amplos instantes.
Súbito lembro o quadro.
- O retrato, contigo. O miúdo, é Aníbal?
Por um segundo parece apanhada de surpresa.
- Sim, é.
- É estranho.
- Porquê - inquere com ar de mentirosa inocência.
- É esquisito. Um miúdo ao lado de uma bela mulher envergando um comprido vestido de noite. É dissonante, destoa do contexto.
- Foi ele que o mandou pintar assim.
- Porquê?
Não obtenho resposta.
Talvez me deva erguer e ameaçar partir.
- Acordámos verdade. Não é a verdade que eu recebo.
- Se tivesses vivido tanto quanto eu saberias que a verdade é elusiva e não existe.
Vê-me levantar e estremece.
- Espera! Espera...
O pescoço cede ao peso da cabeça e pelos loiros cabelos escorridos distingo os lábios.
Aproxima-se das barras e confessa:
- Ele não está morto.
Enrugo, confusa, a testa.
- Não percebo.
- Ele não morreu. Eu não o matei.
E depois, com um sorriso de superioridade nos olhos, mas invisível nos lábios, diz:
- Ele vive. Ele viverá sempre. Sempre.


-10-

O homem de pedra. Já que o foi na vida, assim permanecerá até ao final dos tempos.
Estou cansada. Nestas alturas é habitual a minha imaginação divagar. Saio do corpo, quase. O espírito solta-se e desliza, viaja para o mar onde escuto o eclodir oceânico das ondas, uma após outra, e me vejo sentada na areia, olhando a água e a espuma. Sozinha, sem ninguém ao redor. Posso ali ficar horas. Na praia, no interior da mente.
Aníbal cortou o pulso esquerdo com a faca, deixou escorrer o sangue para o copo e passou-o pelas barras. Evangeline aceitou-o fitando-o com um olhar sério e, em seguida, mordeu a mão, o monte de Vénus, fechou o punho, virou-o para o copo e os dois sangues misturaram-se.
Devolveu-o a Aníbal que bebeu avidamente.
Ela deixou-o beber em êxtase arrebatado. Viu-o lamber o copo. Retirar com o dedo o mínimo vestígio de sangue. Observou-o, ávida, e na fisionomia o discreto sorriso da vingança animou-se, qual raiar de sol na paisagem invernosa. Aníbal sentiu-se subitamente indisposto, pensou que era de esperar, porém a náusea veloz cobriu-lhe a extensão da carne em segundos. Não compreendia. Evangeline nunca lhe descrevera isto. E num relampejar de consciência percebeu o que ela lhe fizera. Fitou-a de olhos arregalados, enclavinhando a mão enrugada no estômago. Percebeu que ela não lhe deu a vida, mas a morte. Vai morrer à mesma. Zonzo, cambaleou. “Porquê?”, exclamou, débil. Não atingiu haver pessoas que preferem a morte a cederem. Mas Evangeline não estava derrotada ainda. Quando ele se virou para o túnel ela projectou as mãos por entre a cela, agarrou o casaco e tentou prendê-lo, mas Aníbal escapou-se. Fugiu, aos arrastos, pelo chão frio do túnel.
E agora tem até ao fim deste ciclo temporal para se perguntar: porquê?, porquê? Porque o fez?


Sangue. Coral vermelho. O coral vive e cresce, não obstante a semelhança com a rocha firme e imóvel, também viva, mas de outro modo. Um modo quietamente animado. Sem veias. O coral é um ser vivo. Duro. Aníbal desconhecia que a imortalidade não podia ser roubada, mas antes dada de livre vontade. Quem a exturque, seja por força ou manha, transforma-se em pedra, torna-se um ser estatuário. Mas vivo e preso para sempre nesse horror vivente. É o destino dos materialistas, penso, lutando para manter os olhos abertos.
E então retorno ao mar, aquele mar de tudo, onde vejo representadas o remexido das emoções reprimidas, como navios de peste mantidos ao largo da costa, em quarentena, para não contaminar os vivos, neste caso, para não contaminar a aparência da normalidade e dos meus bons sentimentos. Por vezes sinto vontade de rebentar, de expulsar através dos poros petróleo negro peganhento, tal é a força do que eu reprimo em mim. As coisas acontecem por uma razão: não nos podemos esconder eternamente da nossa real natureza, não podemos fazer de conta que a nossa essência não está lá ou exibe outras cores, garridas, ao invés de lúgubres.
O mar imaginado é calmo de início. Em cima as nuvens cinzentas escondem o céu; a luz rarefacta atinge a areia com a debilidade do Outono a aproximar-se do Inverno. Amo esta paisagem. Gostava de a ter só para mim, no plano concreto. Um dia isso aconteceu: com o meu marido, éramos namorados. Abraçávamo-nos, de pé, tendo em frente o mar e a praia deserta. Nem uma gaivota à vista. Nenhum barco, nenhuma pessoa. As pegadas dos pés nus desaparecendo na areia molhada e o rebentamento das ondas miúdas fazendo morrer a espuma branca antes de nos tocar. Foi o dia perfeito. O abraço perfeito. O cenário perfeito. Então porque retiro dele o meu marido cada vez que anseio fugir à realidade? Não sei. Quiçá por este mar me reflectir intimamente e não desejo nem em fantasias que ele testemunhe as minhas verdades ocultas. Não quero que observe o céu enegrecido e o oceano bravio. E eu: calmamente sentada na areia, os joelhos juntos ao peito, a ver, a controlar tudo. Por baixo, na fundura oceânica, os corais e os peixes agitam-se, as rochas deslocam-se, por vezes vulcões irrompem, soltando bolhinhas tímidas e logo de seguida jactos de vapor efervescente que escaldam as águas. Se me concentrar consigo fazer surgir a lava cor-de-laranja, espessa e viva, nascendo da rocha submersa, das profundezas marítimas, do líquido, o fogo que emana da água e forma a terra. A cópula dos elementos. Se me aplicar obrigo a lava a romper o mar áspero, jorrar ao alto, e cair em cascata sobre as ondas.
Se me centrar consigo rachar a superfície do oceano ao meio, dividir a terra em duas metades heterogéneas, uma engole a lua e a outra vagueará perpetuamente no imenso vazio espacial.
Não albergo fantasias bonitas, coloridas. São escuras. Funéreas. Líquidas e esponjosas como se emanassem, frescas, do meu espírito esquivo e pegadiço.
Gosto de contemplar o caos cinzento, negro e branco murcho.
E, no jacto do lume que ilumina a paisagem escurecida e insurrecta, nessa fecundação do caos - eu harmonizo. Acalmo vendo, em serenidade, retratos de destruição. Acontece-me o mesmo assistindo no televisor a imagens de guerra, acções terroristas, doença e morte. Fortaleço no caos. Renasço no caos. Eu resolvo-me no caos. No seu interior fundamenta-se a minha estrutura.
Que eu contemplo. Basta-me contemplar em fantasias o lado negro para me saciar.
Nesse meio êxtase, em que fico hipnotizada sem dar conta, baixo a guarda e Evangeline aproveita a oportunidade.



Ergo-me lentamente, descruzo as pernas e giro metade do corpo para a saída. Estou ensonada, quero dormir. Não dou conta que ela está próxima, demasiado próxima de mim. E só quando sinto as unhas engancharem-me o braço e puxarem-me ao seu encontro me apercebo, num horror mudo e incapaz de expressar em grito, que estou perdida. O seu belo rosto juvenil transfigurou-se na carranca terrífica, as feições antes plácidas e equilibradas, são disformes, feias, o rosto é demasiado grande para o corpo delicado. Com o braço preso tento desesperadamente libertar-me, mas é impossível. Em uma das mãos sinto a sua prodigiosa força quando, enquanto me segura, leva o meu braço à boca e me morde. Sinto uma dor aguda, como se um horrível som me rachasse os dentes da boca e me estilhaçasse a ossatura do corpo. O meu ser vibra com a intensidade prévia do copo de cristal que é partido em pedaços, vítima do som perfurante. A outra mão agarra-se às costas. Então, de imprevisto, ela solta-me e eu arrasto-me para longe, a lacrimejar, o braço mordido suspenso no vazio.
Meu Deus, penso, também serei de pedra! Também serei de pedra! E corro através do túnel. Corro para a porta da casa, mas antes de conseguir sair uma moleza abate-se sobre mim e eu tombo frente a ela, com o terror de identificar em mim os sinais indicadores da petrificação. Fez-me o mesmo. A culpa é minha, penso antes de desfalecer por completo. Conhecia a malvadez indómita e mesmo assim estendi a mão ingénua para que o escorpião me atingisse com o veneno mortal. Foi como se o tivesse feito. A culpa é minha... e perco a consciência.


-11-

Abro os olhos. Não vejo nada. Está escuro. Sou de pedra! Por Deus, sou de pedra. Oiço um riso débil, ao fundo. Depois, por cima do meu rosto aparece o de Evangeline, sorridente. Consigo distingui-la a ela, aos olhos azuis, aos dentes pontiagudos e perfeitos, mas como se envolta numa faixa de gaze. O seu cabelo roça-me a pele, mas não o sinto. Eu não sinto nada, nada!
Evangeline debruça-se sobre o meu corpo, pega com cuidado em mim e leva-me para o sofá. Estou desconjuntada, como uma velha boneca de trapos, tal qual os cadáveres que, antes de enrijarem, ficam moles, flácidos. Não sinto o seu toque na pele, não sinto a pressão dos braços na carne. Súbito apercebo-me que não discirno já o cheiro da sala, que a minha boca não tem sabor e que o silêncio me chega entrecortado, desconectado, por entre os ligeiros ruídos feitos pelos movimentos de Evangeline. É isto a morte. É este o verdadeiro inferno. A curiosidade perdeu-me. Nunca serei absolvida por este pecado.
Evangeline segura um objecto frente aos meus olhos.
A chave.
Continua exibindo o discreto sorriso de triunfo.
Ela subtraiu-ma. Surripiou-a quando me agarrou e prendeu. Por isso é que me largou de imediato. Já tinha o desejado. Compreendo que o sono e cansaço juntos fizeram com que não prestasse atenção. Se estivesse atenta notaria que fizera o mesmo a Aníbal: o agarrara, depois de beber o sangue, por motivo idêntico, tirar-lhe a chave. Revistá-lo. Mas ele escapou-se. Era essa a sua estratégia. Aproveitar o instante de indisposição e furtar-lha. Não resultou. Comigo sim. Porque sou idiota e dada a tentações. Enfim o abismo derradeiro está comigo, aqui, e habitar-me-á até ao final dos tempos. Fui tão burra que me esqueci estar ainda em posse da chave. Guarda-a num colar que põe em redor do pescoço. Diviso-a com maior nitidez. Descaio, no sofá, ficando numa posição patética, mas ela não se ri. De ar compenetrado acomoda as almofadas à volta do meu corpo para que fique direita, fitando-a.
E começa.
A contar-me a verdade.
“Mortal idiota”, diz. “Imbecil. Julgas que após três séculos a sobreviver eu morreria ali, naquele antro? Julgas que não escaparia? Em trezentos anos escapei a situações piores do que esta. Quase fui queimada, enforcada, decapitada, mas consegui sempre esconder a condição imortal de humanos menos infortunados de inteligência do que tu. Apodreci neste cativeiro aviltante por sete longos anos. Aníbal é de pedra há seis anos e meio. E tu... O teu destino não será menos terrível.
Vês o quadro?
O vestido. Ele mandou-o pintar, dez anos após termos sido retratados. Originalmente visto a farda de ama. Sim, eu era a ama de Aníbal. Desde os seus seis anos. Ali tinha dez anos.”
Estou desprovida de sensações. Nem o meu corpo pode expressar o terror que sofro na alma. Não sinto o coração galopar nem arrepios a percorrerem a espinha nem os pêlos da carne a alvorarem de medo. Nem sequer o som da respiração. Eu já não respiro. Eu já não respiro.
A primeira coisa que fez, quando foi transformada em vampira, foi dirigir-se à casa materna e comer a mãe, os irmãos e irmãs, tal era a força selvagem da sua fome.
Mas fora movida também pelo ódio e fundo ressentimento. Ela tinha-me mentido o tempo todo. Porque não dei eu ouvidos ao instinto? A sua família de sangue desprezava-a. Porque se amancebara. Porque, conforme as normas morais da época, era uma pobre alma perdida, merecedora de compaixão na teoria, mas recebendo na prática apenas mirares e epítetos acusadores. Evangeline não tivera escolha. Ou se amancebava ou morria à fome. Escolheu viver. Essa é a sua força: ela escolhe sempre a vida, seja qual a forma. A mãe cuspiu-lhe na cara o asco azedo do seu ódio. A mãe não amava os filhos, tinha-os, mas não os amava. E a pobreza crónica agudizava o desafecto. Dos irmãos e irmãs, de quem esperava a mínima compreensão, colheu pauladas, nomes vis, pontapés, estaladas, murros e a expulsão de casa, de onde saiu correndo, tapando os seios por lhe terem rasgado o vestido.
Voltou uma vez para reatar relações, meses após se ter mudado para a residência de D. Raimundo. Tencionava amaciar-lhes a disposição com o dinheiro do amante. Trouxe uma bolsa com moedas de prata. Recebeu tratamento idêntico e ainda lhe roubaram a bolsa sem se dignarem a um simples obrigado. Quando o dinheiro acabou dois irmãos visitaram-na exigindo mais, como reparação das ofensas insanáveis causadas por ela ao nome honesto da família. D. Raimundo entrou a meio da discussão, atraído pelo berreiro. Ao conhecer o sucedido mandou os criados expulsar os intrusos e pôs Evangeline de cama durante uma semana, depois de a ter gravemente sovado, por ter tido a audácia de se apropriar do seu dinheiro.
Evangeline era uma alma infeliz. D. Raimundo mantinha-a quase tão pobre como antes, mas ao menos possuía o conforto que jamais julgara ter ou merecer: um telhado sobre a cabeça, os seus próprios aposentos, e comida farta sobre a mesa. Não passar fome era o superior dos luxos. Mesmo as vestes baratas que lhe comprava eram mais sumptuosas do que os trapos de antigamente. Não lhe dava dinheiro, porém. Tratava as moedas de ouro e prata como filhos dilectos, acariciando-as, prodigalizando festas ao metal luzente e roçando os lábios nas bolsas cheias. Ter Evangeline subtraído uma das bolsas menos gordas das centenas que D. Raimundo possuía, foi como uma ataque à sua essência, um golpe profundo no coração. Evangeline aprendeu com a experiência e nunca mais se aproximou, nem sonhos, do dinheiro.
Odiava o velho igualmente por outras razões. O seu toque nojento, asqueroso, fedido, que tinha de suportar na pele, noite após noite, causava-lhe uma intensa náusea e crescente desprezo e animosidade. Ele servia-se dela sem considerações pelo seu pudor nem respeito pelo corpo. Usava-a como um alforge é usado para ter coisas, objectos. Engravidava-a vezes seguidas, pouco se incomodando com as recomendações dos físicos que lhe diziam ser a morte de Evangeline segura se tornasse a emprenhar. Não obstante persistia a forçar-se a ela, noites seguidas. Que lhe importavam os abortos sucessivos? Ao menos não lhe nasciam bastardos. Que lhe importava que morresse? Bastava arranjar outra jovem esfomeada que consentisse os maltratos em troca de comida. Arranjaria outra encardida, outra pequena rameira que iria educar primorosamente. Esta tinha-lhe dado certos trabalhos. Podia morrer à vontade. A próxima seria mais submissa.
Mais submissa que Evangeline, à época, era impossível encontrar. Ela fazia os possíveis para não ser vista nem notada. Não abria a boca e concordava com o que quer que D. Raimundo proferisse, se acaso lhe dirigisse a palavra, o que raramente acontecia. Até os criados a menosprezavam, considerando a sua condição inferior à deles por ser barregã.
O toque e cheiros emanados de D. Raimundo: isso era o pior de tudo, mas cerrava os olhos e esperava que retirasse o seu corpo pesado e fedorento de cima de si, tentando adormecer rapidamente.
Foi, já saciada de uma maneira que nunca a comida o fizera, ao encontro de D. Raimundo. Mas descobriu que havia lugar para muito mais do que consumira. Se não da carne, pelo menos do sangue.
Encontrou-o a contar as suas amadas sacas de dinheiro. Sem se dignar a olhá-la ordenou com rispidez que se fosse, mas, compreendendo que Evangeline permanecia quieta, ergueu-se na intenção de a disciplinar com as costas da mão fechada quando, para seu indizível horror, viu que estava coberta do cabelo aos pés de sangue molhado, seco e em vias de coagulação. Tentou gritar, debalde porque emudecera de golpe. Evangeline avançou para a mesa e ele recuou, encolhendo-se debaixo dela, espalhou o pecúlio de uma saca pela divisão num movimento de braço seco e brutal. A seguir baixou-se, puxou-o para fora do refúgio e antes de o matar torturou-o lentamente, arrancando pedaços largos de carne: parte do rosto, das coxas nutridas, da barriga das pernas, do estômago amplo e dos braços, deliciando-se no sangue que acabou por cuspir por não querer mais nenhum dos seus fluidos repulsivos a circularem-lhe no corpo.
Evangeline ficou com o tecido das vestes de D. Raimundo preso nos dentes. Retirou-o e decidiu ser aconselhável guardar o ouro, levá-lo consigo. Por esta altura a sua força já era espantosa e tinha também esquematizado o plano que lhe permitiria escapar e começar vida nova, incógnita, longe daquele pardieiro e dos que a haviam injuriado. Partiria. Iria viajar. Conhecer novas terras.
Matou os criados, um a um, e saiu, depois, em busca de uma jovem mulher burguesa da sua estatura e do seu tipo físico. Não importavam semelhanças de rosto. Ela resolveria isso.
Se eu pudesse sentir, estremeceria, mas os sentidos continuam num embotamento obstinado.
Encontrou-a facilmente.
Na noite escura e sem lua Evangeline via claramente como se fosse dia e possuísse olhos felinos.
Quebrou-lhe o pescoço e pô-la em cima do ombro como uma saca de batatas quase vazia. Em casa vestiu-a com as suas roupas, que depois rasgou em parte, e em seguida mordeu-lhe a carne ainda morna. Por fim com os dentes e as garras afiadas arrancou-lhe o rosto.
Deu um último olhar avaliador à casa onde viveu dez anos, agora mergulhada no caos e coberta de sangue pelo chão, móveis e paredes, antes de amarrar o saco à cintura contendo as moedas de ouro e prata e partir envolta numa capa castanha escura que a cobria de cima a baixo. Tomara banho e vestira as vestes da jovem burguesa.
Soube, anos mais tarde, que a manha resultara: julgaram-na morta e condenaram dois pobres desgraçados que nada tinham a ver com o massacre. Evangelina não mostrou arrependimento com a sua morte indevida.
- Ah - inclina-se para a frente, os nossos olhos estão ao mesmo nível, - a luz do dia não nos mata - confessa, risonha.
Outra mentira. Apenas outra das dezenas com que me alimentou.
Permanece a observar-me, sem se recolher para trás, expectante de algo, talvez da luz do reconhecimento no meu espírito
- Percebeste? - pergunta, enfim.
- Pisca os olhos se percebeste.
Não faço nada. De facto não entendo o que me tenta dizer.
- A luz do dia...
Detém-se.
- ... não nos mata.
E de imprevisto faz-se luz. É claro, claríssimo como água. Súbito as anteriores palavras descortinam o verdadeiro significado: o teu destino não será menos terrível.
Ela transformou-me num destes horríveis seres! Ela converteu-me num ser vampírico! Condenada à imortalidade!
Serei como ela. Deus Nosso Senhor! Como ela...


-12-

“Passei a vida a fugir, a correr de um lado para o outro para evitar ser descoberta, capturada e destruída. Tudo o que eu sempre quis foi permanecer num sítio e ter um lar e uma família para amar que me amasse e aceitasse tal como sou. Mas fui obrigada a fugir, a fugir sempre. O dinheiro soluciona certas dificuldades, mas não as piores, há casos de que nem toda a prata do mundo te salva. Conheci outros como eu, sem engenho, mortos em poucas horas, poucos dias ou semanas. Os mais argutos sobreviveram um a dois anos.”
Silencia-se e analisa-me a fisionomia, tendo a satisfação discreta de presenciar a crescente evidência do medo no meu rosto entorpecido.
Prossegue.
Noto que não tem pressa em partir. Depois de sete anos fechada não correu para o exterior. Após tanto tempo, compreendo, precisa de alguém a quem contar a verdade. E eu não posso fugir. Desta vez sou eu que estou presa. A psicóloga de serviço.
“Passei a vida a correr, a esgueirar-me, a abandonar tudo. A escapar-me às crescentes interrogações dos outros, ao seu olhar inquiridor, às questões às quais não dava resposta ou resposta vaga e insuficiente. Estou farta, farta de não poder ser eu própria. Nos momentos de desespero indescritível contemplei com seriedade a hipótese de terminar a vida.”
Mas mudava de ideias na manhã seguinte.
O desejo de viver era forte demais.
O dinheiro permitiu uma liberdade inicial, porém cedo realizou que a verdadeira segurança estava noutro sítio: fazendo parte de famílias mortais, como criada ou governanta ou ama ou enfermeira. Vivendo como eles. Ingerindo da sua comida e bebida e mais tarde vomitando-as por não poder suportá-las. Mas, pela segurança de estar num meio familiar, e também pelo desejo de ser integrada numa verdadeira família, ela fazia os sacrifícios necessários.
Teve vidas piores e melhores.
É o que lhes chama: vidas.
Podia permanecer junto de uma por dez, doze anos, no máximo. Nessa altura começavam a surgir questões desagradáveis e então ou dava uma desculpa e partia ou limitava-se a sair a meio da noite sem informar ninguém dos seus motivos, a não ser, em alguns casos, por carta (mentido, obviamente). Noutros sentia a segurança comprometida, de maneira que nada dizia.
Fugir, fugir sempre - a única preocupação. Não ser descoberta, não ser morta. Até que um dia contrataram-na para ser ama de um menino de seis anos por quem se apaixonou de imediato. Esse afecto transformou-se em verdadeira paixão mais tarde quando Aníbal tinha já dezassete anos. Julgara que tinha encontrado enfim o descanso merecido, a paz. Pôde ficar nesta casa durante quinze anos. Muito tempo. Aníbal protegia-a de questões embaraçosas. Herdara a fortuna familiar e mudava de serviçais a cada dois anos. Foram uma família. A primeira que teve de coração: ele e ela. Mas ele traiu-a, abandonou-a, exigiu que saísse de casa, outra tomaria o seu lugar. Sem sentimentos de comiseração, sem arrependimento nem culpa, obrigou-a a partir. E ela que lhe dissera quem era na verdade, que lhe contara tantos segredos seus! Aníbal, com o tempo, tal como os vinhos maus se fazem azedos, ficou pior, desenvolveu um carácter venenoso. Foi obrigada a regressar à vida de fuga constante.
No passado encontrou também aquele que a tinha transformado. A luz racional dos olhos extinguira-se em definitivo. Vivia como um troglodita na floresta negra, alimentando-se de viajantes, peregrinos e animais, cujo sangue também serve de alimento, mas é fraco, incapaz de suster a força vampírica e a fome senão por horas breves.
“Tive uma horrível existência”, diz. ”E agora a ela retorno. Castigo-te dando-te aquilo que eu tive. Deixando-te viver. Viver como eu vivi, sofrer como eu sofro. Vais passar pelo mesmo horror.” Depois beija-me delicadamente os lábios adormecidos e parte. O último olhar que obtenho é o de motejo e vingança triunfadora, antes de se levantar e sair do meu campo de visão. Oiço alguns ruídos, menos abafados do que no início, mas bastante difusos ainda. São os seus passos e o abrir da porta.
A seguir não escuto mais nada.
Estou sozinha.



-13-

Observo a mudança do dia para a noite através da alteração da luz que ilumina a sala. Pouco a pouco os meus sentidos vão despertando, saindo do embrulho de gaze que os envolve. No segundo dia após Evangeline ter partido há uma explosão súbita dos meus sentidos, que se intensifica ao raiar do terceiro dia.
A plenitude aromática assalta-me as narinas como um exército combatente. Sinto a pele formigar no embater das moléculas. Todo o meu ser arde absurdamente, por dentro e por fora, num género de fogo místico e real, um fogo que me consome se não o apagar, um lume que devo suprimir cumprindo qualquer coisa, mas o quê não me é claro. Aspiro o cheiro da última página do quinto livro a contar da esquerda, na segunda fila de cima, sito na sétima estante - sei o lugar exacto de onde emana cada imperceptível odor. Conheço a localização dos insectos pelo seu cheiro e também pelo som que as patinhas produzem percorrendo os minúsculos e obscuros buracos abaixo do solo. Eu até oiço o mastigar desdentado das minhocas, lesmas e caracóis. Ao princípio abateram-se os aromas sobre mim numa homogénea multiplicidade, indiscernível, mas em breve fui capaz de os distinguir, incluindo o de Evangeline, ainda presente no sofá. Tinha a forma que o seu corpo ocupara. Depois, olhando para trás, aspirei o percurso que ela fizera desde a cela. Eu consigo cheirar os seus passos, o ondular do cabelo e vestido, o movimento pendular dos braços.
Os sons derramam-se sobre os meus ouvidos num conjunto escaldante, enlouquecedor. O som da erva oscilante, lá fora, o das moscas, mosquitos e cigarras, o som do suave crepitar dos livros e da madeira, o som da casa a envelhecer lentamente, o som do ar que me circunda.
A visão magoa-se com a luz solar. Não a suporto. Choro se mantenho os olhos fixos para a janela clara por mais de dois segundos. Recuo para as trevas e sinto-me subitamente bem, como se no ventre materno, no ninho. Do escuro vejo os móveis, as paredes, a divisão claramente na sua crueza, percebo maiores detalhes e com melhor percepção do que se estivesse lá fora, sujeita ao sol do meio-dia, e ainda mortal.
Mortal. Já não o sou.
Apreendo-o, de improviso, e não apenas por causa da brusca explosão dos sentidos (o simples roçar arrepia-me as estranhas como se eu fosse um violino com as cordas no interior, o toque intensifica o fogo inicial, para o qual não achava explicação e não sabia como extinguir), mas devido também à aterradora resposta para a solução final do lume a consumir-me de dentro para fora com crescente intensidade.
O lume é o apetite. E só o apagarei ao saciar-me, cedendo ao trovão ribombando nos ouvidos. Bebendo sangue.
Nunca tive tanta fome na minha vida. Comeria qualquer maltrapilho leproso e pestilento que me apresentassem. Comeria um cadáver se a carne ainda permanecesse morna ao tacto. Sorveria os fluidos putrefactos de um defunto posto na terra há anos. Qualquer coisa. Eu tenho de comer. É demasiado forte. Um imperativo físico igual ao acto de respirar para os humanos.
Os ouvidos detectam movimento abaixo dos pés. Com uma força que nem sonhava possuir esmago o chão com os punhos, esgaravato entre o cimento e a terra, que pus à vista fazendo uso das unhas a caminho de se tornarem garras, mas ainda sensíveis. Arranco algumas. E, com cuidado, pego na centopeia e amasso o seu corpo, deixando as pequenas gotas escorrerem na língua. Não chega. Açula-me o fogo.
E, num flash, vejo quem me poderá matar a fome.
O meu marido.
O horror daquilo que pensei abalroa-me. Mas a fome é tamanha. Recuo para o nicho mais escuro, debaixo da biblioteca. E choro. Grito, berro. Não reconheço os urros. São sub-humanos. Tenho as pernas dobradas, encostadas à barriga, seguras nos meus braços. Olho o tempo todo para a porta. A porta tentadora. Eu consigo, eu sou capaz. De resistir a isto. Sou capaz. Vou ser capaz. Sou. Sim, que me queime o lume por dentro. Não vou abandonar a pouca humanidade que me sobra. Não cederei à terrível tentação. Ela sabia. Cabra. Sabia que eu pensaria nele. Calculou que fosse a correr para casa e o matasse como um animal. Cabra, cabra!
Não. A culpa é minha. Não imaginei que o génio mau da lâmpada se libertasse sozinho.
Tento adormecer, contudo os sentidos em alerta impedem-me. Banho. Água. Preciso de um banho quente. Preciso de investigar o resto da casa, encontrar o quarto-de-banho, mas receio passar perto da saída e ceder à fome. Fico quieta, os olhos arregalados para a saída, as unhas a rasgarem as calças e a enfiarem-se na carne.
Resisto. Consigo resistir.
Consigo resistir.

A luz já não me magoa a vista. É uma fonte de prazer que me aquece o sangue e desperta o apetite. Mantenho-me o mais longe dela. E recolho-me à praia, ao anterior caos apaziguador. Já não resulta. Eu hoje sou aquela paisagem destruída. Tento fazer sentido disto tudo, do porquê.
Chego à conclusão que Evangeline era a minha sombra, o meu negativo, e que fui ao seu encontro com o fim inconsciente de me tornar um ser completo. Era o destino. Foi ele que me colocou no seu caminho, me indicou a direcção. Tem de haver uma razão para isto. Um propósito final, transcendente. Passei a existência a evitar o lado sombrio, a recusar o abismo. Agora não tenho escolha. Tenho-o em mim. Eu sou o abismo. Pondero se devo abraçá-lo ou não, se o devo manifestar. Estou viva, mas será necessário que mate para permanecer viva? Evangeline não comeu durante seis anos e meio e reteve ainda muita força. Não acho que seja necessário beber dos outros. Rejeito a tentação, mas não o abismo pois ele já me preenche. Eu caí e não há volta. E, pela primeira vez, sinto-me, por entre a dor física e psicológica, completa. Inteira. Eu própria. Sem máscaras. Sem cedências nem submissões. Vivo a minha verdade. Que é uma verdade terrível, o que não me consola em nada. Esta verdade íntima aterroriza-me, mas é quem eu sou. Já não posso fugir da sombra. Ela apanhou-me.

Leio livros. À noite. Evito o dia. A fome não amainou, mas descobri que, juntamente com a extraordinária força física, possuo grandes reservas de força mental e sou capaz de exercer autocontrolo.
Comecei numa ponta. Acabei de ler os livros situados na primeira metade da formação em U da biblioteca. Demoro tempo a saborear as palavras, os cheiros dos tomos, a imaginar a acção. Desconheço há quanto tempo aqui estou. Não o conto. Durante o dia interno-me no nicho mais obscuro que encontro, dentro da casa cujas restantes divisões investiguei, e leio o Tao Te King de Lao Tse cem vezes. Mil vezes. Até a luz solar partir. Então retorno à biblioteca. E prossigo. Sem nunca deixar de sentir as picadas depauperantes da fome. Por vezes vou ter com Aníbal e leio algumas passagens das obras. Não devia, mas tenho pena dele. Não tem sequer o escape da morte. Para mim a morte é possível ainda. Pesquiso sobre o assunto, na ciência, na ficção. Como poderá um vampiro morrer de facto? Não confio nos mitos. Um dia quando for assolapada pelo desejo da morte, desconfio que rapidamente descobrirei um método, ou melhor, que outros o descobrirão por mim, basta dar-lhes a oportunidade.


O espelho reflecte a imagem de um corpo anoréctico. Evangeline não estava assim. Pondero que em trezentos anos acumulou força e poder. Era preciso muito para a quebrar. Eu nunca bebi sangue, nunca me alimentei. Talvez esta seja a via para a morte inevitável. As picadas da fome por vezes desvanecem e a cabeça fica-me leve. Retornam menos fortes. Mas a presença da fome é suprema. Diminui de força em apenas um a dois por cento. Quantos anos levarei até que desapareça? Até me tornar um esqueleto vivo?


Escuto passos e a seguir o abrir da porta da entrada. Assusto-me como um animal acossado, um coelho perseguido por cães de caça. Escondo-me atrás da estante. Domino-me e avanço para ver dois miúdos com cerca de dezasseis anos.
- Vamos embora - diz o rapaz, alarmado.
- Não, vamos ver o resto - contrapõe a rapariga, imprudente e vítima da mesma curiosidade que eu.
Mas ele não a ouve. Agarra-a pelo pulso e leva-a daqui para fora. Nunca mais voltaram. Não consigo reprimir o pensamento de que tinham os dois um ar apetitoso. E as roupas. Eram... diferentes. Há quantos anos estou cá?
Nessa noite arrisco ir à rua. Avanço cinco tímidos passos após transpor a porta. Rapidamente volto atrás, com o terror do que poderia encontrar lá fora. Que horrores me esperam ali? Prefiro ficar. Aqui estou segura. É ainda cedo para morrer. Não acabei de ler os livros.


Li a biblioteca inteira mais do que uma vez. Há várias semanas que não consigo ignorar a fome, como dantes conseguia. Mergulho a atenção no Livro da Via e da Virtude de Lao Tse.
Lê-lo é como fazer auto-hipnose. Este livro é a minha salvação.
Então, de repente, a meio da leitura, sinto uma presença atrás de mim.
Volto-me e vejo Evangeline. Ela regressou.
Quer levar-me com ela.
Quer que eu seja a sua companheira, a sua irmã. De infortúnio. Os vampiros, na terra, duram muito pouco e ela está sozinha. Só, como eu.
Traz-me sangue dentro de uma geladeira de aspecto futurista. Não reconheço o design demasiado avançado. Está repleta. Não esperava encontrar-me viva. Veio, mesmo assim.
E eu... bebo. Esgoto o sangue em minutos. Bebo cada gota. Como se bebesse, sedenta, de uma nascente de pura água fresca. E de súbito sinto brotar em mim uma misteriosa força anteriormente adormecida.


Escrevo no presente porque é nele que vivo há décadas - um presente infernal.
Aceito a fome. Aceito que a devo saciar. Aceito-me.
Vou com Evangeline. A porta da casa cerra-se, por fim.


A quem ler isto: fecha tu também a porta pelo lado de fora. Eu posso voltar. Eu posso já estar aí no interior. A observar-te. Das trevas.
E com fome.


Muita fome.





FIM





27 de Julho de 2005



A Imortalidade: Copyright © 2005 Dunyazade

(15323 palavras) De momento, não é possível votar neste desafio; é necessário fazer o registo para poder votar quando for possível.
Estatísticas de votação para A Imortalidade Votos: 3   Classificação média: 5.33
Silvino Bastos
ParticipaçãoEnviado: 13-05-2005 2:58     Título: Dominando o Raio  
Avatar de Silvino Bastos
Registo: 27 Apr 2005
Mensagens: 22
Participações: 6
Local/Origem: Salvador - Bahia - Brasil


Enviar email
Capítulo 1 - Acidente

Desde que perdera sua mãe há quase cinco anos, Luiz passou a estudar em um colégio interno. Flávio, seu pai, por ser um homem de negócios muito ocupado, costumava visitar Luiz nos finais de semana, quando o levava para passear. As pescarias eram os programas preferidos de Luiz. Aquele final de semana era especial, pois haveria um feriado na Segunda-feira.

Os dois passaram um final de semana maravilhoso na fazenda de um amigo de Flávio, onde pescaram muitos peixes e tiveram a oportunidade de conversar muito durante as noites. Já era madrugada de Segunda-feira, quando os dois foram dormir. Mas eles teriam ainda mais um dia inteiro de diversão pela frente.

A Segunda-feira amanheceu sombria, frustrando os planos de Luiz e seu pai. O tempo estava tão fechado que os dois resolveram partir mais cedo.

Repentinamente, começou a cair uma forte chuva, acompanhada de raios que iluminavam aquele céu cinza chumbo. O céu muito escuro e a pesada chuva proporcionavam pouca visibilidade, dificultando bastante a condução do veículo naquela estrada lamacenta. De tempos em tempos, o céu era iluminado pelos relâmpagos que o riscavam de um lado a outro.

O veículo de Flávio tinha todos os recursos disponíveis no mercado, mas pouco ajudou na travessia daquele caminho castigado pela grande quantidade de água que caía do céu. O veículo estava totalmente encalhado naquele mar de lama. Seria necessário sair do carro mais uma vez, pensou Flávio, que já se encontrava sujo de lama e bastante molhado pela forte chuva que ainda assolava o local.

Prevendo que aquela situação pudesse durar todo o dia, Flávio decidiu acionar o último recurso de que dispunha: o Rastreador por Satélite, que permitia a rápida localização do veículo e o imediato envio de uma equipe especializada para prestar socorro. Dentro de algumas horas eles estariam livres daquele pesadelo, imaginou ele.

Uma hora depois a chuva parou, como que por milagre. Flávio, que estava cochilando todo encolhido junto à porta do carro, foi acordado por Luiz:

- Papai, a chuva parou! Vamos ver o que poderemos fazer para sairmos daqui.
- Fique aqui dentro! - disse Flávio - Já estou bastante molhado e basta um só!
- Mas, papai ...
- Meu filho, acho que você será muito mais útil aqui, pois assim que eu encontrar algo onde possa amarrar o cabo de aço, precisarei que você acione o guincho e tome conta do volante, para ajudar a desencalhar o carro.

Flávio saiu à procura de algo onde pudesse amarrar o cabo de aço do guincho. Ao encontrar uma fenda entre duas grandes pedras, teve a idéia de passar o cabo por ela e prendê-lo em algo, tal como uma chave de roda ou qualquer outra ferramenta que pudesse manter o cabo preso. Retornou ao carro para procurar alguma ferramenta que se adequasse à sua necessidade.

Após remexer sua caixa de ferramentas, encontrou uma barra de ferro, usada para o acionamento do macaco hidráulico do carro. Ao se afastar do carro com a barra de ferro na mão, aconteceu o inesperado. Um forte raio atingiu Flávio, fulminando-o instantaneamente. O clarão iluminou a região como um gigantesco flash fotográfico, contribuindo mais ainda para fixar aquela cena terrível nas retinas de Luiz, que assistira impassível a tudo. O estrondo foi ensurdecedor. Era como se o céu tivesse desmoronado. O deslocamento do ar foi tal que sacudiu violentamente o carro em que Luiz estava, como se alguém tivesse batido nele. Mas Luiz continuou olhando fixadamente para o local onde instantes atrás estava o seu pai. Agora ali jaziam os restos de um corpo carbonizado, totalmente desfigurado.

O pobre menino só conseguia olhar fixadamente para o local do acidente e, de vez em quando, balbuciar palavras quase inaudíveis:

- Papai, papai...

Alheio a tudo o que se passava a sua volta, Luiz permaneceu com seu olhar fixo no local do acidente durante todo aquele dia. As horas se passaram, a noite chegou e Luiz continuava imóvel, na mesma posição e com o mesmo olhar fixo, sem a mínima consciência de que não havia mais nada para ser visto.


Capítulo 2 - Trauma e recuperação

Eram pouco mais de cinco horas da manhã do dia seguinte quando Luiz foi encontrado pela equipe de resgate.

Uma hora mais tarde, Luiz, ainda em estado de choque, já estava internado na mesma clínica que o tratara cinco anos antes, após o trauma sofrido com a morte violenta de Alice, a sua mãe.

Um grande desafio enfrentado pelos psicólogos que cuidavam de Luiz seria o comportamento do menino durante as tempestades dali para frente. Mais tarde, o tratamento mostrou o seu valor e Luiz já conseguia assistir tranqüilamente a uma série de relâmpagos e trovoadas, sem apresentar nenhuma reação adversa.

Somente após muitas tentativas foi possível contactar Fábio, o único irmão de Flávio. Luiz o chamava de "tio cientista louco", devido às suas idéias nada ortodoxas a respeito das coisas. Esse apelido era a realização de Fábio, pois ele se considerava uma pessoa atípica e essa definição lhe caía como uma luva, embora não se considerasse "louco". Fábio acreditava que ao ficar mais próximo da natureza conseguiria melhor entendê-la, para pesquisar meios de obtenção de energia menos agressivos aos seres humanos e à própria natureza.

Seguindo estritamente as orientações dadas pelos psicólogos, Fábio teve uma participação tão importante na recuperação de Luiz que a alta fora autorizada alguns dias depois de sua chegada. Para Luiz tudo começava a voltar à normalidade ou, pelo menos, a uma situação mais suportável.


Capítulo 3 - Volta à rotina

Algumas semanas mais tarde, Luiz e Fábio já tinham uma rotina de vida muito parecida com aquela que existia no tempo de Flávio. Fábio resolveu se mudar para um local próximo à escola de Luiz.

Fábio encontrara uma casa cujo terreno era tão grande que mais se parecia com uma pequena fazenda e que permitiu dar continuidade às suas pesquisas. Com o passar do tempo, Luiz foi conhecendo melhor o seu tio e o trabalho dele. Mas sempre ficou intrigado com os objetivos deste trabalho, que para ele não passava de brincadeira ou "coisa de cientista louco".

Em uma tarde de sábado, ao chegar em casa, Luiz encontrou Fábio sobre uma árvore, entretido com a instalação de uma geringonça muito estranha:

- Tio, o que você está fazendo aí em cima? - perguntou Luiz.
- Estou testando o meu mais novo invento: Um coletor de energia gravitacional. - respondeu Fábio.
- Para que isso serve?
- A minha intenção é aproveitar a energia gravitacional para gerar energia elétrica. Cada vez que um fruto dessa árvore cair no chão, uma certa quantidade de energia potencial será transformada em energia cinética. Esse aparelho deverá captar essa energia e transformá-la em eletricidade.
- Tio, não entendi nada! Você pode me explicar melhor?
- Sim, mas não agora! Se eu me distrair, em vez dos frutos quem vai acabar caindo serei eu. Assim que acabar de instalá-lo eu descerei e lhe explicarei tudo. Está bem?

Meia hora depois, Fábio desceu e, valendo-se da curiosidade de seu sobrinho, preparou um belo discurso na tentativa de conseguir um ajudante para suas experiências:

- Para que você realmente compreenda o que eu estou fazendo, será necessário lhe explicar que a energia utilizada pela nossa sociedade provém basicamente de combustível fóssil: petróleo, gás natural ou carvão mineral. Essas fontes de energia, além de poluentes, são esgotáveis e estão com seus dias contados.
- Por esse motivo, eu tenho tentado nos últimos anos encontrar uma fonte alternativa que permita a geração de energia elétrica de modo limpo, seguro e barato, sem comprometer o ambiente.
- Este meu invento é constituído por um transmissor localizado na copa da árvore que envia um sinal de rádio para um outro equipamento, localizado no solo, ao redor da árvore. Quando um fruto cai, o dispositivo do solo se liga e capta o impacto da queda do fruto e o converte em energia elétrica.

Depois daquela conversa, Luiz começou a pensar de forma diferente e passou a participar mais intensamente dos trabalhos do tio. Finalmente, Fábio conseguira um assistente dedicado para auxiliá-lo em seus inventos.


Capítulo 4 - Idéia

Numa tarde, Luiz estava ajudando Fábio com um experimento quando uma forte tempestade tropical se aproximou. Subitamente um raio caiu a uns quinze metros de onde ele se encontrava, destruindo completamente uma árvore. Luiz ficou paralisado sendo tirado de sua inércia por seu tio, que o puxou pelo braço e o levou às pressas para casa.

Alguns minutos depois, os dois chegaram na varanda da casa, totalmente ensopados. Luiz permanecia paralisado, olhando para os relâmpagos. Fábio, preocupado com a reação de seu sobrinho, pegou nos braços de Luiz e o sacudiu fortemente. Os olhos de Luiz brilhavam e ele com um enorme sorriso nos lábios exclamou:

- Acabo de encontrar a resposta que você tanto procura!
- Eu me encontro em um tremendo estado de nervos e você me diz só isso? - desabafou Fábio.

Fábio achava que aquela situação havia tirado de vez a sanidade de Luiz e estava fazendo tudo para não ter que enfrentar tal fato. Aquela situação jamais tinha sido imaginada por Fábio. Neste momento, Luiz falou de forma autoritária e decisiva:

- Pelo que entendi da sua pesquisa, - começou Luiz - você vem procurando, há anos, uma forma limpa, prática, barata e fácil de obtenção de energia que possa ser aproveitada por todo mundo, sem prejudicar o meio ambiente. Acho que você se esqueceu de uma fonte muito poderosa, que está presente em qualquer lugar da Terra: O RAIO!
- Minha nossa! - exclamou Fábio - Agora você endoidou de vez!
- Por que você diz isso, tio?
- Porque considerar o aproveitamento da energia de um raio só pode ser indício de loucura. - respondeu Fábio - Ou você não tem a mínima idéia com que níveis de energia estará lidando.
- Antes que você fale algo, - continuou Luiz, ignorando seu tio - eu acho que temos muito a estudar, a menos que você tenha alguma idéia melhor.

A convicção de Luiz acabou por também convencer Fábio de que a idéia era boa e tinha chance de sucesso.

Daquele dia em diante, os dois passaram a se dedicar à idéia de Luiz e lançaram mão de todos os recursos disponíveis. Inicialmente procuraram livros nas bibliotecas mais próximas, depois fizeram consultas às Universidades e, mais tarde, por influência de Luiz, passaram a fazer uso da Internet.

Capítulo 5 - Raio

Depois de um bom período de pesquisa, Luiz combinou com Fábio a realização de uma apresentação sobre o raio no teatro de seu colégio. Luiz convidou vários colegas, além de alguns de seus professores. Chegado o dia, Fábio comandou a sua apresentação:

- Boa noite, meus jovens! - iniciou Fábio, com ares de professor.
- Vou-lhes apresentar uma das forças mais poderosas da Natureza: o raio.
- O raio é uma descarga elétrica que pode ter quilômetros de comprimento. Ele faz a ligação elétrica entre uma nuvem e o solo, ou então entre duas nuvens ou, ainda, entre duas partes de uma mesma nuvem.
- Para que haja circulação de corrente elétrica de um ponto a outro, é necessário que exista uma diferença de potencial elétrico, ou seja, os dois pontos devem estar em diferentes níveis de energia. A corrente elétrica partirá do ponto negativo em direção ao ponto positivo. - continuou Fábio exibindo um desenho explicativo.
- O ar atmosférico é normalmente um meio isolante. Contudo, quando a diferença de potencial elétrico existente entre uma nuvem e o solo ou, então, entre duas nuvens, atinge um nível muito elevado, as partículas do ar ficam polarizadas, ou ionizadas, e passam a conduzir eletricidade. Nesse caso o ar vira um meio condutor de eletricidade. Isso acontece sempre que ocorre um raio.
- Um raio tem em média uns 10 milhões de Volts e uns 30 mil Ampéres. O produto dessas duas grandezas nos indica um nível de potência de 300 bilhões de Watts ou 300 GigaWatts. Com uma duração média de aproximadamente um décimo de segundo, um único raio tem cerca de 8,3 MegaWatt/h. Essa energia é suficiente para suprir as necessidades de energia elétrica de umas 110 pessoas durante um mês inteiro.
- Uma tempestade de meia hora é suficiente para alimentar uma cidade com mais de 100 mil habitantes por um mês.

Após quase duas horas, Fábio encerrou sua preleção de forma bombástica:

- Meus jovens! Eu e meu sobrinho estamos determinados a explorar essa energia e se formos bem sucedidos, estaremos abrindo as portas para uma energia limpa, barata e acessível a todos. Tenho certeza de que precisaremos de mais pessoas para nos ajudar. - Fábio não se continha mais de entusiasmo.

A apresentação rendeu a Fábio e Luiz vários ajudantes que, infelizmente, foram desistindo, um a um, à medida que o tempo passava. Em torno de quatro meses, com a chegada das férias escolares, tio e sobrinho estavam sozinhos novamente.

Capítulo 6 - Estudos

Luiz concluiu seus estudos de 2º Grau e escolheu um curso universitário de Física. O seu mestrado foi também realizado com muito empenho e a conclusão de sua tese estava em vias de se tornar realidade. A defesa da tese seria acompanhada da apresentação de um experimento prático.

Fábio participou de uma infinidade de cursos, palestras e simpósios com a finalidade de aprender mais sobre a coleta de raios. Por ser um assunto atípico, ele buscou uma grande variedade de temas que tivessem alguma relação com seu objetivo, tais como proteção contra raios, previsão de tempestades, projetos de para-ráios, medição e avaliação de raios e outros assuntos deste tipo.

Na defesa da tese, Fábio foi passar uns dias com Luiz para matar saudades e lhe prestar todo o apoio necessário. Luiz gastou quase um ano na elaboração de seu trabalho de tese e era chegada a hora de apresentá-lo. Ele quase não conseguia manter a calma que a ocasião exigia. Seu estado de nervos era tal que suas mãos trêmulas eram claramente notadas pelos ocupantes das primeiras fileiras do auditório.

Precisamente na hora marcada, os professores da banca adentraram o recinto, ocuparam suas posições em uma mesa improvisada no meio do palco, cumprimentaram todos os presentes e deram início à apresentação:

- Sr. Luiz, - disse o presidente da banca examinadora - sua apresentação deve ser clara, objetiva e não poderá durar mais que quarenta e cinco minutos. Faça-a da melhor forma possível e boa sorte!
- Mu-muito bo-boa tarde, senhoras e se-senhores! - iniciou Luiz, esforçando-se para controlar o seu visível nervosismo. - O meu trabalho aborda uma nova forma de armazenar grandes quantidades de energia elétrica em períodos de tempo infinitamente pequenos.

A exposição do trabalho ocorreu tranqüila. A apresentação de seu experimento causou surpresa a todos os professores da banca, que foram unânimes em lhe atribuir o grau máximo. Ao final da exposição, diversas pessoas o procuraram para esclarecer dúvidas e parabenizá-lo pelo sucesso da apresentação. Três pessoas mantiveram-se à distância e somente se aproximaram de Luiz após boa parte das pessoas ter deixado o auditório. Os três indivíduos, muito bem vestidos, identificaram-se e entregaram a Luiz três envelopes, cada um contendo uma proposta diferente. A primeira era de um professor de uma importante universidade americana que lhe propunha uma bolsa de doutorado para dar continuidade aos seus estudos. As outras duas eram propostas de duas grandes companhias petrolíferas para patrocinar a montagem de uma planta piloto de coleta e armazenamento de energia baseada na sua tese. Luiz acertou com os três que responderia dentro de uma semana. O resto do dia foi tomado por comemorações entre Fábio, Luiz e seus colegas de estudo.

Passadas as comemorações, Luiz e Fábio discutiram as propostas recebidas. A continuidade dos estudos foi descartada sem maiores problemas. Depois de analisar as duas propostas restantes eles optaram pela segunda proposta, que apresentava um item extra: a empresa já havia adquirido uma área bastante extensa em uma região do país, conhecida como “Corredor de Raios”. Aquele era o local ideal para a realização dos experimentos.


Capítulo 7 - Planejamento

Luiz e Fábio compareceram à sede da empresa para tratar dos detalhes da implantação da Unidade Piloto de Coleta e Armazenamento de Energia, batizada de Tupã I(Trovão, na língua dos índios Tupi).

Tupã I deveria estar concluída dentro de dez meses. Toda a unidade piloto deveria estar pronta em quinze meses. Durante a fase de projeto seria elaborado um plano para a definição do melhor método de coleta de raios. Uma equipe seria escolhida de comum acordo entre os contratantes. Metade desta equipe deveria ser composta por funcionários da empresa.

Tio e sobrinho concluíram que uma equipe composta de doze pessoas seria suficiente para levar o empreendimento adiante. A busca de pessoal foi muito tranqüila e logo, a metade da equipe já estava definida: Luiz, Fábio e os mais novos membros - Alberto, Fernanda, Henrique e Carla. Alberto era engenheiro eletricista com muita experiência na área de proteção e de distribuição de energia. Fernanda era meteorologista, tendo trabalhado por muito tempo na previsão de tempestades para o Ministério da Agricultura. Henrique era engenheiro mecatrônico com experiência nas áreas de robótica e automação. Carla era engenheira de telecomunicações e havia concluído seu doutorado na área de transmissão de grandes quantidades de energia por feixes de microondas.

Ao final de um dia de intensos debates com a empresa foram escolhidos os seis membros restantes: Amanda, Cláudio, Sávio, Antonio, Geraldo e Hélio. Amanda era especialista em criogenia. Cláudio era PhD em sistemas elétricos de alta potência. Sávio era engenheiro químico e tinha doutorado na área de supercondutores. Antonio era engenheiro civil e tinha vasta experiência no projeto e construção de estruturas de alta resistência e de usinas de eletricidade. Geraldo e Hélio eram físicos e trabalhavam na pesquisa de fontes alternativas de energia.

Nas semanas seguintes, enquanto Luiz, Antonio, Geraldo e Hélio trabalhavam no planejamento das atividades de projeto e construção de Tupã I, Fábio administrava o treinamento dos demais membros da equipe, para que todos estivessem totalmente a par das atividades que seriam desenvolvidas, dos procedimentos de segurança e das funções que caberiam a cada um.

Durante a fase de projeto, foi analisada uma estratégia para definir o melhor método de coleta dos raios:

- Precisamos definir como deverá ser feita a coleta dos raios. - disse Fábio.
- Eu imagino que, embora não seja tão simples, poderíamos colocar alguns pára-raios e ligá-los à estação coletora. - falou Fernanda.
- Para que tenhamos alguma chance de sucesso - continuou Fábio - será necessário o uso de pára-raios em uma extensa área do terreno. Segundo os cálculos probabilísticos, em que eu tenho trabalhado nos últimos dias, teremos uns 90% de chance de coletar um raio se cobrirmos uma área 5 x 10 km, equivalente a 50 milhões de metros quadrados. Serão necessárias 5.000 torres. Isso seria impossível de se conseguir no prazo estipulado, mas eu tenho outras três alternativas a propor e espero que vocês escolham a melhor delas.
- O uso de um balão conectado por cabo até a estação de coleta, o emprego de pequenos foguetes a serem disparados contra as nuvens carregadas e, por último, o emprego de um receptor móvel que se deslocasse em direção ao local mais provável da queda do raio.
- As duas primeiras alternativas apresentam as menores chances de sucesso, pois requerem cabos de grande diâmetro que seriam muito pesados para serem levados por um balão ou por um pequeno foguete.
- Assim, - arrematou Fábio - a única alternativa sensata é o emprego de um veículo que, ligado a Tupã I por meio de um feixe de microondas, possa se deslocar livremente pelo terreno em direção ao local da queda do raio.
- Essa alternativa é uma solução bem mais econômica, mas envolve enormes riscos, principalmente para o piloto do veículo.
- Eu também tomei a liberdade de consultar alguns fabricantes de veículos. - complementou Fábio, distribuindo a todos uma cópia dos orçamentos obtidos.

Após algumas discussões, Luiz decidiu que ele mesmo se encarregaria de pilotar o veículo. Seus olhos brilhavam quando ele anunciou essa decisão. Decidiu-se pela aquisição de três unidades idênticas do veículo.


Capítulo 8 - Preparativos

As obras foram iniciadas imediatamente após a conclusão da fase de projeto. Toda a equipe se mudou para uma fazenda localizada a uns 100 km do local de construção de Tupã I. Luiz, Fábio e Antonio - o engenheiro civil - visitavam a obra a cada quinze dias.

Faltando poucos mais de um mês para o final do prazo, tudo estava indo bem. Mas havia aspectos preocupantes. Luiz convocou uma reunião com Fábio e Antonio:

- Senhores, gostaria de saber quais são exatamente os pontos que estão em discordância com o cronograma inicial.
- Nós estimamos que, se tudo ocorrer dentro do planejado, a obra sofrerá um atraso de, no máximo, uma semana. - respondeu Antonio.
- Uma semana de atraso ainda é muito! Não podemos correr o risco de enfrentarmos a temporada de raios com as obras ainda inacabadas. Seria muito perigoso! - disse Luiz. Vamos fazer o possível para cumprir o prazo!
- Acho importantíssimo também que, próximo da data de conclusão das obras, seja feita uma apresentação onde todo o contexto do experimento possa ser explicado para toda a equipe e para alguns representantes da empresa. - Dando-se por satisfeito, Luiz dirigiu-se ao seu escritório.

No nono mês de obra, chegaram os veículos, batizados por Fábio de Corisco I, II e III. Eram utilitários muito bonitos que pareciam ter saído de um filme de ficção científica. O teste dos mesmos causou a maior sensação em todos. O grave ronco dos seus potentes motores Diesel Turbo podia ser ouvido mesmo de longe.

No décimo mês de obra, o cronograma estava fielmente dentro da última previsão. Faltavam apenas sete dias para o encerramento das obras. Estava na hora de apresentar o experimento a todos os membros do projeto.


Capítulo 9 - Tupã I

Assim que a iluminação foi apagada, iniciou-se a projeção de uma síntese da apresentação que Fábio havia feito, há alguns anos atrás, no colégio de Luiz. Aquela era o tipo ideal de apresentação para o nivelamento de conhecimentos necessário para que todos compreendessem o projeto. Encerrado o vídeo, as luzes se acenderam e Luiz continuou:

- Pretendemos explorar comercialmente esse grande manancial de energia que é despejado sobre a Terra em todas as tempestades elétricas. Nossa intenção é aproveitar a próxima temporada de tempestades elétricas, que deverá começar dentro de um mês, para executarmos a nossa experiência.
- Podemos separar a nossa experiência em duas partes: a coleta do raio e o armazenamento de sua energia.
- Por motivos econômicos, a coleta dos raios será feita de uma forma diferente daquela que seria usada na exploração comercial. Nós usaremos veículos especiais. Cada um deles é dotado de duas antenas parabólicas, destinadas à coleta e ao envio de energia. As antenas, também especialmente desenhadas para essa aplicação, funcionarão como uma espécie de espelho que deverá refletir o raio para Tupã I.

A um sinal de Luiz, a iluminação foi reduzida e, enquanto ele descrevia o funcionamento, um filme explicativo era projetado.

- Ao ser identificada a área de maior probabilidade de queda de um raio, a informação será enviada ao veículo, que deverá chegar ao local indicado em até 45 segundos.
- Ao chegar no local, o veículo enviará um feixe de microondas em direção à nuvem, definindo um caminho de menor resistência elétrica para o raio e atraindo-o para o próprio veículo. Durante a queda do raio em direção ao veículo, um sistema de controle computadorizado, acionará um segundo feixe de microondas, criando um outro caminho de baixa resistência entre o veículo e Tupã I. Todo o processo de coleta do raio e transmissão de energia até Tupã I deverá ocorrer em alguns milissegundos.
- Ao receber a energia, Tupã I a distribuirá para os acumuladores lá existentes. Temos condição de armazenar cerca de 30 GigaWatts/hora de uma só vez, o suficiente para abastecer um cidade de 400 mil habitantes durante um mês.

Ao final, diversos repórteres levantaram as mãos e crivaram Luiz de perguntas. Pacientemente, ele e sua equipe responderam uma a uma, detalhando o que fosse necessário para se assegurar de que a experiência tinha sido integralmente entendida por todos. Fazia parte da estratégia de marketing da empresa que aquele projeto fosse muito bem compreendido por todos.

Ao final, Luiz dispensou sua equipe e lhes instruiu para retornarem na tarde da Segunda-feira. Assim, ele e Fábio tiveram um bom tempo para rever as atividades previstas para aquela semana.

Ainda restavam muitos testes de aceitação das instalações e o cumprimento do cronograma levou a todos avançar noite adentro. Assim foi toda a semana. Na Quinta-feira à noite, foi concluído o último teste previsto. Na Sexta-feira, o Diretor-Presidente da empresa compareceria para descerrar a placa comemorativa e cortar a fita de inauguração.

Tudo ocorreu conforme fora previsto. Depois de um discurso emocionado, o Diretor-Presidente da empresa agradeceu e parabenizou os membros da equipe. Foi um dia de festa que ficou marcado na memória de todos. Um grande coquetel acompanhado de uma orquestra deu um toque especial ao evento.

Na manhã de Domingo foi realizada uma reunião geral. Luiz chamou todos para informar como pretendia utilizar as três semanas que antecederiam o início dos experimentos. Afinal, tratava-se de um trabalho de altíssimo risco, onde a rapidez de reação poderia evitar o pior. Na manhã da Segunda-feira seriam iniciados os exercícios simulados.


Capítulo 10 - Antecipação

Às 6h18min da Segunda-feira, o alarme simulado ecoou por toda Tupã I:

- ATENÇÃO! ISTO É UM EXERCÍCIO! TEMPESTADE NÍVEL 3 SE APROXIMANDO PELO SUL!

Fábio assumiu a posição de coordenador e guarneceu um console que lhe permitia monitorar todos equipamentos e todas as fases do experimento. Cada um dos demais membros da equipe monitorava uma parte do experimento. Assim que recebiam alguma informação importante, eles se comunicavam com Fábio, que tinha uma visão completa do andamento de todo o experimento.

Luiz, a bordo do Corisco I, dirigiu-se para o ponto de espera, localizado no centro da área de coleta. O veículo deveria ficar naquele ponto até receber as coordenadas do local da queda de um raio. Minutos depois, recebeu a seguinte comunicação:

- RAIO A 3 km EM 0-4-5! - Fernanda informou a posição prevista para queda do raio em um local a 3 km do ponto de espera, numa direção a 45º do Norte geográfico.

Luiz acelerou ao máximo o veículo, rumando para Nordeste. Ao chegar no ponto informado em 42 segundos, ele deu início ao processo simulado de coleta. Um programa de computador simulava todo o processo de coleta e de transmissão para Tupã I.

Toda a manhã daquele dia foi utilizada para exercícios e alinhamento. Devido às distâncias entre o veículo e Tupã I, um desvio de poucos décimos de grau enviaria toda aquela enorme quantidade de energia para um ponto fora da antena receptora e poderia até destruir a estação. Era importante que esse alinhamento fosse verificado entre cada um dos veículos e a estação. Uma vez alinhados, o computador de bordo, juntamente com o computador central da estação, manteriam os ajustes dentro do nível exigido de precisão. Na noite da Terça-feira, Fernanda procurou Luiz:

- Estamos a cerca de três semanas do início da temporada de raios. Contudo, não existe uma data pré-definida para ela começar. Só temos de concreto um conjunto de estatísticas que nos diz que, nos últimos 25 anos, ela se iniciou na primeira semana do verão, com uma variação de 3 a 4 dias ao longo de todos esses anos.
- Segundo nosso cronograma de atividades, nós precisaremos de apenas doze dias para nos prepararmos para a experiência.
- Esta é a minha preocupação! Desde que o nosso radar meteorológico ficou pronto, eu tenho comparado as suas indicações com as informações do satélite e o mais curioso é que elas não coincidem.
- Como assim?
- O satélite informa que a estatística está se cumprindo e o nosso radar indica que a temporada de raios começará bem antes. Após o início da temporada de raios, nós ficaremos praticamente ilhados nessa área, inclusive no que diz respeito às comunicações, pois ficaremos impedidos de enviar quaisquer sinais de rádio, podendo apenas recebê-los. Assim, só teremos a informação do satélite meteorológico, que nos dá uma visão macro de toda essa parte do país, e do nosso próprio radar, que fornece um posição mais detalhada de nossa região.
- Você já verificou o funcionamento do nosso radar, minha querida?
- Várias vezes e ele está funcionando corretamente! - foi a resposta seca de Fernanda que, embora intimamente tenha gostado da expressão usada por Luiz, não admitia ter suas convicções profissionais questionadas daquela forma.
- Então o que você me diz? - perguntou Luiz, desconcertado com a expressão facial de Fernanda.
- Eu devo confiar nas informações que eu tenho. O radar está funcionando perfeitamente bem, pois eu o testei. Quanto ao satélite, eu não tenho certeza.
- Você está colocando em dúvida o funcionamento do satélite meteorológico?
- Sim e estou sendo imparcial neste julgamento. Nosso equipamento, cujo funcionamento foi verificado e comprovado, informa que dentro de, no máximo, uma semana teremos fortes tempestades que marcarão o início da temporada de raios.
- Você só pode estar brincando! – desabafou Luiz.
- Não! Estou lhe informando o fato para que aproveitemos essa semana para nos prepararmos, pois ficaremos isolados da civilização por cerca de dois meses.
- Hummm,....

Luiz pareceu ter entrado momentaneamente em órbita, como que se tentasse digerir aquela informação inesperada. Mas, rapidamente se recompôs dizendo:

- Se eu bem entendi, isso pode ser apenas uma intuição.
- Sim! Mas, depois de trabalhar por mais de cinco anos fazendo previsões meteorológicas sem jamais ter errado uma delas, acho que minha intuição já se desenvolveu o bastante para eu lhe afirmar que dentro de uma semana nós estaremos diante de uma das maiores concentrações de raios dos últimos 25 anos.
- Bom, como não há nada que possamos fazer agora, acho que poderemos continuar nossa conversa amanhã de manhã. Gostaria de lhe convidar para tomar café comigo e com o Professor Fábio, o que você me diz? - finalizou Luiz, simulando um sono excessivo para encerrar a conversa. Ele precisava de tempo para pensar.
- Tudo bem, boa noite! - Fernanda se despediu e saiu frustrada com a reação de Luiz.

Luiz não conseguiu dormir. Por toda a noite ele contrastou a hipótese do período de raios começar na época prevista com a de Fernanda estar certa. Ao olhar pela janela, Luiz viu uma manhã com céu claro e límpido e se perguntou se não teria sido melhor contar com uma equipe de meteorologistas em vez de apenas uma especialista.

Luiz telefonou para Fábio, pedindo-lhe que fosse até o seu quarto o mais rápido possível. Faltavam cerca de quarenta minutos para a hora do café. Após contar todo o caso para Fábio, pediu-lhe um conselho. Fábio esbravejou:

- Você me fez vir até aqui todo descabelado, de pijama e com barba por fazer, somente para me falar isso? Eu ainda devo estar sonhando!
- Isso é sério! A nossa única meteorologista coloca em dúvida as informações do satélite meteorológico e as estatísticas dos últimos 25 anos, nos diz que a temporada de raios começará dentro de uma semana e você acha que eu estou brincando?
- Você não me compreendeu, Luiz! - disse Fábio bastante sério - Você está atribuindo pesos errados às informações recebidas.
- Como assim?
- Você tem dados estatísticos e mapas meteorológicos recebidos de um satélite, ambos são informações gerais que poderiam ser analisadas por qualquer um que tenha aprendido por correspondência os princípios básicos da meteorologia. Por outro lado, você tem uma informação específica fornecida por uma das mais respeitadas meteorologistas do país, cujo currículo profissional está acima de qualquer suspeita. Qual é a sua dúvida, meu sobrinho?
- Você quer dizer que eu devo dar ouvidos à Fernanda?
- Luiz, você deveria confiar mais na capacitação profissional da Dra. Fernanda, se não for assim acho melhor dispensá-la.

Aquela era a resposta que Luiz precisava ouvir. Após sugerir a Fábio que se preparasse, trocou de roupa e rumou para o restaurante. Lá chegando, encontrou Fernanda já sentada à mesa:

- Bom dia, Fernanda! Desculpe-me o atraso! Pensei muito no que você me disse ontem à noite e acho que teremos muito o que conversar, para podermos alterar os nossos planos. Afinal, conforme você me disse, temos apenas uma semana.
- Ufa! Ontem à noite eu só conseguia imaginar duas alternativas: lhe convencer dessa nova situação ou pedir demissão, pois eu não pretendia ficar ilhada por dois meses em um local onde faltaria tudo, por não ter sido prevista a antecipação da temporada de raios.
- Você abandonaria o projeto apenas por eu não considerar sua opinião?
- Seria uma pessoa a menos para dividir a pouca comida existente em estoque. Mas isso agora não importa! Para poder lhe convencer sobre minhas suspeitas, eu solicitei aos meus amigos do Ministério da Agricultura que me enviassem alguns boletins meteorológicos recentes, relativos a essa região e eles chegaram há pouco.
- E então? - perguntou Luiz.
- Bom, segundo estes boletins teremos uma tempestade muito forte dentro de seis dias. - disse Fernanda, mostrando os documentos para Luiz - Ela marcará o início da temporada de raios.
- Então é preciso agir imediatamente! - disse Luiz, levantando-se da mesa.

Mais tranqüila, Fernanda acabou de tomar o seu café quando chegou Fábio. Com um sorriso, ela o cumprimentou e informou-lhe que Luiz saíra para tratar de algumas providências urgentes. Depois do café, os dois foram até o escritório de Luiz para ver como ele estava se saindo.

Ao ver Fábio e Fernanda adentrarem seu escritório, esboçou um sorriso e lhes disse:

- Até que enfim me aparece alguém! Fernanda, ligue por favor para o nosso fornecedor de gêneros, o telefone está na agenda. Peça-lhe para antecipar a nossa encomenda. Diga-lhe que precisaremos de tudo dentro de, no máximo, quatro dias. Use o seu charme e consiga que ele nos entregue tudo a tempo! – disse Luiz.
- Tio, reúna todos os membros da equipe e lhes informe da mudança de planos. Faça uma seleção dos procedimentos mais importantes e deixe os complementares somente para o caso de dar tempo. Solicite um voluntário para guiar o veículo em meu lugar durante os testes e peça para um dos físicos ocupar interinamente o lugar de Fernanda. - Luiz estava a mil e praticamente falava sem parar para respirar.

Enquanto Fábio reunia a equipe, Luiz e Fernanda telefonavam para todos os fornecedores para lhes solicitar a antecipação das encomendas já feitas. Depois de horas ao telefone, ambos necessitavam de um pouco de descanso. Boa parte do problema estava equacionada, permitindo-lhes diminuir o ritmo frenético em que estavam. Depois de acertarem a antecipação de todos os fornecimentos, os dois dirigiram sua conversa para as providências necessárias ao experimento:

- Você afirmou que deveremos ter uma tempestade muito forte. - perguntou Luiz.
- Sim, pode ser que essa tempestade seja a maior do século ou algo pior!
- Você não acha que está exagerando um pouco?
- De uma escala de 0 a 10, eu classificaria essa tempestade com grau entre 9 e 9,3. Posso lhe afirmar que nós teremos realmente um batismo de fogo!
- Estaremos testando o equipamento em condições extremas. - disse Luiz, tentando se animar e aparentar alguma segurança - Você sugere alguma mudança de procedimento em função deste fato novo?
- Não! Eu apenas acho que toda a equipe deverá estar avisada disto e estar bem preparada para os procedimentos de emergência.
- Tudo bem! Vou comunicar a todos.

Logo após o almoço, Luiz reuniu todos no restaurante e lhes deu a notícia. A princípio, houve uma certa apreensão. Mas, graças à intervenção de Fábio, todos relaxaram e se mostraram prontos para a novidade.

Quatro dias depois, conforme combinado, todo o material e gêneros esperados já tinham sido entregues e estavam sendo devidamente estocados. Houve tempo para que Luiz participasse de alguns testes como piloto do veículo.

No dia anterior ao previsto para a chegada da tempestade, o céu amanhecera muito fechado. O vento forte, ainda morno, era o prenúncio de uma frente fria que chegaria em breve. Fernanda acompanhava todas as informações meteorológicas de que dispunha. Ao ser surpreendida com a visita de Luiz, ela lhe disse:

- Pelas informações que venho colhendo nas últimas horas, a tempestade se iniciará amanhã por volta das 7 horas da manhã. Deveremos ter rajadas de vento de até 80 km/h, o que não impedirá a realização dos experimentos.
- Bom, acho que pelo menos temos alguma boa notícia. Eu temia não poder iniciar os experimentos amanhã devido a um tempo muito ruim.


Capítulo 11 - A experiência

Após um rápido café da manhã, Luiz se trocar e Fábio se dirigiu para o seu posto na torre de comando, um dos pontos mais altos de Tupã I. Lá chegando, Fábio iniciou a verificação de todos os equipamentos e do sistema de comunicação. Tudo funcionava às mil maravilhas.

O traje especial, todo metálico, deixou Luiz com aspecto de um astronauta saído de um filme antigo de ficção científica. Caso a blindagem do veículo fosse rompida por um raio, o piloto poderia ainda contar com a vestimenta especial, como uma última proteção.

Luiz estranhou a presença de tantas pessoas na garagem e o alvoroço que ali estava ocorrendo. Ao ver Henrique, o engenheiro mecatrônico, perguntou-lhe:

- O que está acontecendo para termos tantas pessoas aqui?
- Quando cheguei na entrada da garagem - explicou Henrique - estranhei que os faróis de todos os três veículos estavam ligados. Por questões de segurança, chamei duas pessoas para me acompanharem em uma inspeção. Ao ouvir o que se passava, outras pessoas vieram também.
- Preciso de um veículo dentro de dez minutos!
- Já troquei a bateria de Corisco I pela única reserva que estava carregada. Ela já foi instalada e o computador de bordo está concluindo o programa de auto-diagnose. Até o momento está tudo indo bem!

Mal o computador de bordo de Corisco I sinalizou a conclusão dos testes, Luiz entrou no veículo e ligou o seu motor. Um grave e forte ronco inundou a garagem. Após colocar o capacete, checar o sistema de comunicações e apertar o cinto, Luiz saiu da garagem. Dentro do veículo, com os vidros fechados, o silêncio era tanto que ele conseguia ouvir o seu próprio coração bater acelerado. Eram 6h45min de uma manhã chuvosa e sombria.

Ao sair de Tupã I, em meio à forte chuva que caía, Luiz deparou-se com um céu muito escuro. A voz firme de Fernanda trouxe-o de volta à realidade:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 9 SE APROXIMANDO POR SUDESTE!

O sinal de alerta para todos os membros da equipe fez Luiz acelerar o veículo para se posicionar o mais rápido possível. Enquanto aguardava a comunicação decisiva, aproveitou para se comunicar rapidamente com Fábio:

- Tio, aqui está tudo em ordem! Parece que boa parte do céu vai desabar a qualquer momento. - disse ele, em tom de brincadeira.
- Tudo bem, Luiz! Eu estou lhe acompanhando daqui de cima, mantenha as luzes externas e os seus faróis ligados para que eu possa localizá-lo mais facilmente.
- Que tal? - disse Luiz, ao acender todas as luzes.
- Agora está ótimo! - disse Fábio - Segundo Fernanda, as nuvens mais carregadas estão bem próximas. Vou deixar o canal livre. Boa sorte!

Cada minuto que passava aumentava a ansiedade de Luiz, já cansado de percorrer com os olhos os indicadores do computador de Corisco I. Mais uma vez a voz de Fernanda interrompeu seus pensamentos:

- RAIO A 3 km EM 3-1-5!

- A caminho! - foi a sua resposta imediata.

Acelerou o carro ao máximo, levantando dois jatos d'água atrás das rodas traseiras. Chegando no local em 28 segundos, deu início à seqüência de coleta. Assim que apertou o botão de disparo, sentiu uma forte onda de choque que lhe deu a impressão de que algo muito pesado havia caído sobre o veículo. Ao mesmo tempo, observou um clarão fortíssimo acompanhado de um estrondo ensurdecedor. Meio atordoado com o impacto, tentou organizar os seus pensamentos e comunicou-se com Fábio:

- Tio, conseguimos?

O silêncio fez com que Luiz insistisse.

- Tio, está tudo bem? Responda!

Como não recebeu nenhuma resposta, ele pensou em retornar para Tupã I, quando finalmente escutou:

- Luiz, responda! Informe se está tudo bem!
- Sim, tio! E então conseguimos?
- Podemos dizer que parcialmente. Pelo que pude acompanhar daqui de cima, o raio ricocheteou em você e acabou por descarregar-se na própria nuvem.
- Não é possível! - respondeu Luiz, desapontado.
- É melhor você retornar para Tupã I para que possamos fazer uma inspeção no veículo e principalmente na sua antena. – disse Fábio.

Em poucos minutos, Luiz estava entrando na garagem de Tupã I. Henrique, juntamente com uma equipe de mecânicos e técnicos, estava à sua espera. Ele disse a Luiz que toda a inspeção levaria cerca de uma hora e meia. Luiz dirigiu-se para a torre de comando para conversar com seu tio:

- Deve ter sido uma experiência e tanto receber um raio na cabeça. - disse Fábio, brincando com Luiz.
- Foi um susto muito grande, pois eu não imaginava que mesmo uma quantidade tão grande de energia pudesse causar impacto, como se tivesse massa.
- O deslocamento do ar violentamente aquecido pelo raio pode ter provocado esse impacto sobre o veículo.
- Ah! Por falar em veículo, uma coisa muito estranha aconteceu essa manhã. - disse Luiz, relatando a Fábio o caso dos faróis ligados. No fim do dia, Henrique virá procurá-lo para dar uma olhada na gravação das câmeras de vídeo da garagem e dos acessos. Que tal tomarmos um café?
- Boa idéia!

No restaurante os dois conversaram sobre os resultados observados durante o experimento. Passada uma hora, os dois foram até a garagem para saber como estava a inspeção de Corisco I. As informações não eram muito promissoras:

- Constatamos um leve afundamento do teto, em torno da base da antena, o que deverá ter provocado o seu desalinhamento. - disse Henrique.
- Se a base da antena foi afetada, certamente não poderemos usar esse veículo. - afirmou Fábio.
- Depois de consultar a minha equipe, cheguei à conclusão que precisaremos reforçar o teto do veículo, para que isso não aconteça de novo. - informou Henrique - Já mandei que buscassem no estoque todo o material necessário.
- E quanto aos outros dois veículos? - Perguntou Luiz
- Eu mesmo inspecionei Corisco II e III e não encontrei nada de errado neles. As baterias já foram carregadas, os respectivos computadores de bordo já foram acionados e também não encontraram nenhum problema. Eu diria que ambos estão liberados para uso.
- E quanto à necessidade de reforço do teto? - questionou Fábio.
- Segundo Henrique, serão necessárias umas três horas para que o veículo esteja pronto para retornar aos experimentos.
- Acho que não temos saída. Vamos dispensar o pessoal para o almoço.

Após o almoço, todos os membros da equipe, com exceção de Henrique, se reuniram em torno da mesa de Luiz e Fábio. Carla deu início à conversa:

- Estou muito preocupada com o alinhamento das antenas. Conforme pude verificar nos registros, o impacto foi forte o suficiente para afundar o teto do veículo.
- Calma! O afundamento é imperceptível a olho nú! - respondeu Luiz, na tentativa de evitar que aquela notícia pudesse assustar os demais membros da equipe.
- É verdade, mas foi o suficiente para desalinhar a antena em quase meio grau. - respondeu Carla.
- Isso não é motivo para se preocupar, pois os experimentos foram interrompidos justamente para que Henrique e sua turma pudessem reforçar o teto dos veículos. Ele já deve estar acabando. - disse Luiz - Faremos um alinhamento óptico, cuja precisão atende às nossas necessidades.
- Vamos retornar aos experimentos e que Deus nos ajude! – encerrou Luiz.

Luiz embarcou em Corisco I e voltou à área de coleta. Lá ficou aguardando pelas instruções de Fernanda. Alguns minutos mais tarde foi dado o alarme:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 8 SOBRE A ÁREA DE COLETA!
- RAIO A 4 km EM 1-3-5!

Luiz dirigiu-se ao local determinado e acionou a seqüência de coleta. Novamente, sentiu um forte impacto sobre o veículo acompanhado do clarão e do estrondo. Dessa vez Luiz se manteve atento e acompanhou as indicações no painel do veículo, que informavam que a seqüência de envio de energia tinha sido cumprida integralmente.

- Até que enfim! - pensou Luiz - Vamos ver como o pessoal em Tupã I se saiu.
- Tio, gostou do presentinho? - perguntou Luiz.

Alguns segundos depois, ele recebeu a resposta:

- Dessa vez foi no alvo! Mas o sistema de segurança drenou toda a energia para fora da estação, dissipando-a no lago. Você precisava ver a quantidade de vapor d'água que saiu do lago, parecia um gigantesco gêiser. - foi a resposta excitada de Fábio.
- Então nada feito ainda? - perguntou Luiz.
- Temos em nossas mãos um sistema complexo que ainda precisa de ajustes.
- Será que não poderíamos tentar mais uma vez?
- Acho que precisaremos dar uma parada técnica pois essa foi a primeira vez que um raio atingiu Tupã I. Precisamos saber como a estrutura se comportou e o que foi que aconteceu.
- Estou voltando!

O resto daquela tarde fora usado para avaliações do experimento. Era necessário que as causas do mau funcionamento fossem identificadas para que pudessem ser corrigidas. Antonio entregou a Luiz um relatório sobre o comportamento da estrutura de Tupã I:

- Luiz, agora que você melhorou a sua pontaria, finalmente eu consegui fazer o meu trabalho.
- E o que você conseguiu?
- As notícias não poderiam ser melhores! Tudo está em ordem. A estrutura comportou-se muito bem. Toda a cabeação elétrica, incluindo os dutos de captação de energia, funcionaram conforme previsto.
- Esta é uma excelente notícia! - respondeu Luiz - Pena que nem tudo ocorreu desta maneira.

Luiz informou a todos que os testes estavam suspensos até segunda ordem. Enquanto isso, a turma da manutenção entrou em cena para fazer o seu serviço. Naquela noite, Henrique procurou Luiz:

- Verifiquei a gravação das câmeras de segurança e não encontrei nada. - disse Henrique aborrecido.
- Então podemos concluir que se trata de um maldito bug no programa do computador de bordo?
- Não temos outra escolha!

À noite, Luiz foi conversar com Fábio:

- Tio, tem algo que está me intrigando.
- O que é?
- Desde que começamos os testes, uma série de fatos estranhos vêm acontecendo de um modo, digamos, bastante misterioso.
- Como assim?
- Os problemas que vêm ocorrendo não me parecem ser obra do acaso, mas algo forçado por alguém.
- Você não acha que está fantasiando para não ter que encarar uma realidade difícil, meu sobrinho?
- Se juntarmos alguns fatos ocorridos na última semana, poderíamos identificar uma série de acontecimentos sem uma explicação aceitável.
- Quais são estes fatos?
- Poderíamos começar pelo satélite meteorológico que esteve transmitindo informações desatualizadas durante um bom tempo. Depois, os veículos apareceram com todos os faróis ligados, o que causou a descarga de suas baterias, justamente na hora em que eles seriam utilizados. Depois, um raio ricocheteia no teto do veículo e, por último, o sistema de segurança, inexplicavelmente, joga fora toda a energia que conseguimos coletar. Algo me diz que há pessoas que não querem que cheguemos a um resultado positivo.
- Acho que você está se deixando abater por uma série de resultados negativos e querendo se justificar com essa possibilidade absurda de "pessoas mal intencionadas".
- Não posso deixar de considerar essa possibilidade!
- Tudo bem! Acho que devemos apurar com rigor todos esses fatos estranhos, mas sem neurose, concorda?
- Tudo bem! Concordo.
- Então conte comigo para lhe ajudar nessa apuração. – disse Fábio.

Luiz retirou-se para tomar um banho e cair na cama. Ele estava tão abatido com os fracos resultados obtidos, que havia até dispensado o jantar.

Para a alegria de Luiz, logo no início da manhã ele fora procurado por Hélio, um dos físicos, que lhe trazia uma boa notícia:

- Desculpe-me por vir importuná-lo aqui em seu alojamento nesta hora da manhã, mas eu achei que você gostaria de saber que encontramos e já corrigimos o defeito no programa do sistema de segurança.
- O que era?
- Bom, o programa usava um valor de referência incorreto. O sistema de segurança estava funcionando ao contrário e só reteria uma quantidade de energia muito superior à nossa capacidade.
- Mas isso é muito grave! - afirmou Luiz bastante surpreso.
- Sim, parecia ser um erro muito sutil que deve ter passado desapercebido pelos supervisores. Mesmo assim, teríamos um segundo sistema de segurança, independente do primeiro, que entraria em ação se aquele falhasse. Assim, estaríamos seguros! - informou o físico, entregando alguns papéis e um envelope a Luiz - Eu fiz um pequeno relatório sobre esse problema para que você possa ler mais tarde. Ah! Será que você poderia me fazer um favor?
- Claro! Qual é o favor?
- Você poderia encaminhar esse envelope para a empresa? É um relatório que eu esqueci de entregar da última vez que estive com eles. - esclareceu Hélio.
- Sim!

Luiz despediu-se de Hélio e foi para o restaurante. Afinal, ele estava faminto. Lá chegando, ele encontrou Fernanda, que também tinha boas notícias:

- Temos uma enorme tempestade chegando! Em algumas horas ela estará sobre nós!
- Excelente! Então poderemos entrar em ação novamente!
- Sim! Deveremos receber as primeiras descargas elétricas em duas ou três horas.
- Ótimo! Teremos algum tempo para nos preparar.

Na hora determinada, Luiz estava a bordo de Corisco II, no ponto de espera. Enquanto aguardava o sinal, Luiz observava a forte chuva que caía sobre o veículo, dificultando bastante a visibilidade do exterior. Após mais de meia hora de espera, chegou o alarme:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 8 SE APROXIMANDO PELO SUL!
- RAIO A 4 km EM 2-2-5!

Ao chegar no ponto, Luiz executou toda a rotina de coleta. Depois dos já esperados efeitos decorrentes da queda do raio, conferiu as indicações do painel do veículo. Elas informavam que todo o processo de coleta e envio tinha sido realizado corretamente. Esperou um tempo e entrou em contato com Fábio:

- E então, tio? Como foi dessa vez?

Sem receber nenhuma resposta, resolveu esperar mais algum tempo para tentar novamente. Ainda sem nenhuma resposta, achou melhor retornar a Tupã I.

Chovia muito e a visibilidade era baixíssima, obrigando Luiz a percorrer mais lentamente o trecho entre a área de coleta e Tupã I. Ao se aproximar, ele pode divisar que boa parte da fachada estava destruída, exatamente na região onde ficava a torre de comando. À medida que ia se aproximando, avistou alguns clarões que indicavam a ocorrência de incêndio. Muito nervoso, Luiz acelerou o veículo e, ao chegar na garagem, encontrou um verdadeiro caos. O alarme geral estava acionado e havia uma grande correria de pessoas, subindo e descendo as escadas. Uma situação real de emergência estava ocorrendo.


Capítulo 12 - Emergência

Sem saber ao certo o que estava se passando, Luiz correu para a parte superior de Tupã I, em direção à torre de comando. Próximo ao acesso da torre de comando havia uma grande quantidade de pessoas que estavam retirando os escombros e obstáculos que impediam a entrada naquela parte da unidade. Este era o primeiro passo para que pudessem chegar ao foco do incêndio. Havia duas pessoas naquele setor: Hélio e Fábio.

Luiz não se deixou abater pelo nervosismo e assumiu o controle da operação, determinando que o pessoal do combate ao incêndio ficasse a postos. O pessoal da saúde deveria estar pronto para fazer a sua parte. Uma enfermaria de emergência deveria ser montada no andar de baixo. Todas as medidas que pudessem ser antecipadas deveriam ser providenciadas o mais rápido possível.

Aproveitando que a vestimenta especial também lhe conferia proteção contra o fogo, Luiz juntou-se à turma de resgate e foi o primeiro a entrar. Sua preocupação com Fábio aumentava a cada segundo que passava. Boa parte do mobiliário e dos equipamentos havia sido destruída pelo fogo. A fumaça e a fraca iluminação das lanternas portáteis dificultava a localização das vítimas. Luiz dirigiu-se para a poltrona de comando, localizada bem em frente ao console de controle e à grande janela panorâmica que estava totalmente destruída. Ao se aproximar, ele constatou que sobre a poltrona de comando havia uma pessoa muito ferida, com queimaduras em todo o corpo. Mas a pessoa ainda respirava. - Calma, tio! Já vamos tirá-lo daqui. - Luiz falou com a voz trêmula. - MMMMMMM.... - foi o único som possível de ser emitido, devido às queimaduras que também atingiram boa parte do rosto. - Fique calmo, tio! Não precisa dizer nada. Nós vamos tirá-lo daqui e levá-lo a um lugar onde vão deixá-lo novo em folha. - disse Luiz para acalmá-lo. Muito aflito, Luiz solicitou que mais três pessoas lhe ajudassem na remoção da vítima. Todo o resto da operação de combate ao incêndio parecia muito distante para Luiz. Ele pode perceber que haviam localizado a outra vítima, caída sob uma estante. Naquele instante, passou-lhe pela cabeça que aquela vítima tivera mais sorte que seu pobre tio. Fora do local do acidente, uma maca já esperava pela vítima. O médico, ao ver a grande extensão dos ferimentos, disse algo que Luiz já temia: - Ele possui queimaduras de 2º e de 3º grau por todo o corpo. - falou o médico - Não temos as mínimas condições de tratar um paciente nesse estado. Vou lhe ministrar uma medicação para que ele possa ser transportado.O hospital mais próximo fica a uns 200 km daqui. O paciente precisará ficar sedado para resistir às dores e ser mantido hidratado para compensar a grande perda de líquidos. Após a aplicação de um sedativo e da colocação do soro para reidratar o paciente, sua maca foi levada para o veículo. Henrique havia preparado Corisco I e Corisco III para que cada um pudesse transportar uma maca com segurança. Corisco II fora deixado de lado para a realização da perícia que seria necessária à identificação das possíveis causas daquele terrível acidente. Assim que a maca foi colocada em Corisco I, Luiz, Carla e um enfermeiro rumaram para o hospital. Luiz sabia que a vida de seu tio estava em suas mãos e precisava usar toda sua perícia para chegar ao hospital no menor tempo possível. Ao sair da garagem, uma forte chuva os esperava. O tortuoso caminho de saída da área de Tupã I até chegar a uma estrada asfaltada seria um grande obstáculo a ser vencido. Os 40 km de estrada de terra, bastante alagada, consumiram mais de meia hora para serem percorridos.

O enfermeiro fazia o acompanhamento do paciente. Carla auxiliava o enfermeiro no que era necessário e, também, prestava apoio a Luiz tanto para ajudá-lo a se localizar na estrada como para consolá-lo. Em meio a lágrimas contidas, Luiz tentava aumentar a velocidade, levando o veículo a algumas derrapagens, de vez em quando.

Ao se afastarem da região de queda de raios e da influência do seu forte campo magnético, puderam usar um telefone celular para entrar em contato com o hospital. Corisco I estava a quarenta minutos do hospital e esse tempo seria muito importante para que todos estivessem preparados para receber um queimado em estado grave.

Ao chegarem no hospital, havia uma equipe pronta para prestar os primeiros socorros. Enquanto Luiz acompanhava a vítima, Carla se prontificou para cumprir os requisitos burocráticos impostos pelo estabelecimento para a internação.

Após um longo tempo de espera, um dos membros da equipe médica informou a Luiz que o paciente ficaria internado na Unidade de Tratamento Intensivo, nas próximas 24 horas, tempo decisivo para avaliar as suas chances de sobrevivência.

Enquanto o tempo passava lentamente para Luiz, prostrado do lado de fora da UTI do hospital. O pessoal em Tupã I finalmente havia conseguido retirar a outra vítima debaixo da pesada estante que caíra sobre ela. Seu estado era bem menos grave do que do seu parceiro.

A segunda vítima foi levada para Corisco III. Henrique, Fernanda e um outro enfermeiro levaram o acidentado para o hospital. O médico e mais um enfermeiro ficaram em Tupã I para atender aos demais feridos, cujos estados de saúde permitiam que fossem tratados na enfermaria da unidade.

Henrique tinha pouquíssima experiência em dirigir o veículo, principalmente em um terreno acidentado sob uma chuva daquelas. Ele foi informado pelo enfermeiro que o estado do paciente não era tão grave quanto ao da primeira vítima. A estrada estava muito escorregadia e em um dado trecho da estrada, o veículo atolou, obrigando Henrique a sair para desatolá-lo. Fernanda assumiu o controle.

Enquanto isso, Luiz sentia um aperto no peito todas as vezes que alguém saía da UTI. As poucas notícias que chegaram apenas informaram que o paciente estava mantendo o seu quadro, que continuava muito grave.

Após um bom tempo de tentativas e depois de ficar enlameado até a alma, Henrique finalmente conseguiu desatolar Corisco III. Fernanda continuou ao volante e sugeriu que Henrique descansasse um pouco. Com bastante cautela, Fernanda conseguiu chegar até a estrada, quando pode desenvolver uma velocidade mais compatível com a situação.

Todos os pensamentos de Luiz eram sobre Fábio. Entre esses pensamentos, Luiz era acometido de forte arrependimento pelas vezes em que se desentendera com Fábio, ou apenas quando fora mais ríspido com seu tio. Teria ele chance de pedir desculpas a seu tio por esses momentos? O que seria dele se o seu tio morresse?

- Vou procurar uma cantina e ver o que eles têm de comida. Você gostaria que lhe trouxesse alguma coisa? - perguntou Carla, sem esperar uma resposta lógica.
- Não! Eu estou sem fome. - respondeu ele.

Fernanda estava acelerando tudo que podia e começava a ficar preocupada:

- Eu tenho certeza de ter ouvido o médico dizer que o hospital mais próximo ficava a uns 200 km. - disse Fernanda.
- Era exatamente essa distância. Mas porquê você está dizendo isso? - falou Henrique, despertando de um cochilo involuntário.
- Porque nós já percorremos quase 300 km e só agora eu estou encontrando alguma indicação sobre o hospital.
- Não é possível! Já deveríamos ter chegado. Estamos a quase três horas dentro desse veículo. - disse o enfermeiro, preocupado com o soro que já se esgotava.
- Faltam apenas uns 10 km para chegarmos. - disse Fernanda.

Luiz continuava mergulhado em seus pensamentos quando Carla chegou trazendo-lhe um café e um sanduíche. Durante todo aquele tempo, o pessoal da equipe médica só havia informado duas vezes que o paciente continuava em estado muito grave, mas o seu quadro era estável.

Finalmente, Corisco III chegou ao hospital. Henrique saiu em busca de socorro médico e em poucos minutos, a vítima foi removida. Com o rosto bastante inchado e boa parte do corpo coberta por hematomas e queimaduras, o paciente foi encaminhado à Unidade de Traumatologia, onde receberia os cuidados adequados. Enquanto Fernanda acompanhava de perto o atendimento à vítima, Henrique chegou com a estranha novidade:

- Finalmente eu descobri porque demoramos tanto para chegar até aqui. Ao chegarmos na estrada, nós viramos para o outro lado e acabamos nos dirigindo para um outro hospital, bem mais distante que o primeiro.
- Mas eu tenho certeza de que virei para a direita quando entrei na estrada.
- Exatamente! Para chegar ao hospital mais perto você deveria ter virado para a esquerda. Mas não se culpe por isso. Somente eu tinha essa informação e, como você deve ter notado, eu acabei cochilando e falhei em lhe avisar na hora certa.
- Vou ver se acho algum telefone para tentar informar a Luiz sobre nós e o nosso paciente. - disse Fernanda, saindo em busca do seu objetivo.

O tempo passava lentamente enquanto Luiz, com os olhos fixos na porta da UTI, estava alheio a tudo ao seu redor. Carla estava cochilando, sentada ao lado de Luiz, quando o seu telefone tocou.

- Alô! Aqui é Fernanda!
- Aqui é Carla! Onde vocês estão?
- A ligação está muito ruim! Eu mal posso ouví-la. Nós estamos em outro hospital... - a ligação fora interrompida, obrigando Carla a procurar um lugar com melhor recepção.

Carla foi até Corisco I e improvisou uma antena para o seu telefone celular. Instantes mais tarde, recebeu nova chamada:

- Alô, Carla! Você está me ouvindo?
- Sim, perfeitamente! Onde você está?
- Nós estamos em um hospital localizado no outro extremo da estrada. É uma Casa de Saúde bem modesta, mas que atende às necessidades do nosso paciente. Eu estou ligando do único telefone disponível. Agora o mais importante é que o nosso paciente está sendo bem cuidado e sua situação não é grave. Como está o paciente de vocês?
- O estado dele não é nada bom! Os médicos necessitarão de umas 24 horas para poder avaliar a real situação do seu caso, que agora é muito grave e implica em sérios riscos de morte. - respondeu Carla.
- Minha nossa!
- Luiz está inconsolado na porta da UTI. Ele jamais se perdoará se houver alguma morte.
- Vou ter que desligar agora, pois estão precisando usar o telefone. Cuide bem do Luiz. - Fernanda desligou bastante chateada com a notícia.

Carla retornou para perto de Luiz. Lá chegando, ela o encontrou conversando com um dos médicos que acabara de sair da UTI.

- O caso do paciente se agravou muito nos últimos instantes. - disse o médico.
- Ele corre risco de morte? - perguntou Carla.
- O paciente perdeu muito líquido e mais de 70% do seu corpo apresenta queimaduras de 2º e 3º Grau. O risco de morte é grande.
- Doutor! Seria possível conversarmos em particular? - disse Fernanda, puxando o médico pelo braço, enquanto Luiz olhava perdido para a porta de entrada da UTI.
- Eu gostaria de lhe pedir para consentir a entrada do sobrinho da vítima por alguns instantes. Mesmo que seja por um minuto apenas. - disse Carla, demonstrando uma preocupação sem precedentes com Luiz - A vítima é a única pessoa que aquele pobre homem tem na vida.
- Como a UTI só tem um paciente, vou lhes autorizar a entrar. Mas será necessário que vocês passem por uma assepsia rígida e coloquem roupas especiais.

A visão que Carla e Luiz tiveram ao entrar na UTI era desoladora. A retirada das vestes do paciente, juntamente com boa parte da sua pele, revelou um corpo ensangüentado, com vasos e veias à mostra, bastante debilitado, cuja vida se esvaía a cada segundo que passava. Os modernos equipamentos da UTI pouco podiam fazer por aquela pobre alma. Ao perceber a aproximação de Luiz, o corpo em carne viva ainda demonstrou bravos sinais de resistência, levantando o seu braço direito, a única parte que escapara do ataque implacável do fogo. Luiz segurou a mão do moribundo e, em meio a lágrimas e soluços, disse:

- Eu sou o único responsável por você estar assim. Sou eu quem deveria estar em seu lugar. Eu lhe peço que me perdoe por esse grande erro e por tudo que eu lhe fiz de errado durante todo esse tempo.

O pobre paciente tentou abrir um pouco mais os seus olhos, mas as queimaduras das pálpebras só lhe permitiram um pequeno tremor. Sua mão apertou a de Luiz, como que para lhe dizer que estava tudo bem. Luiz a beijou. Ao tentar levantar mais a mão, o corpo fez uma breve inspiração e parou de funcionar, deixando sua mão pender ao lado do leito. Todos os aparelhos que o monitoravam emitiram um som agudo característico da falta dos sinais vitais do paciente.

Um imenso desespero se apoderou de Luiz. Carla sugeriu que lhe dessem um sedativo. A sugestão foi imediatamente acatada e, enquanto Luiz tentava forçar um médico a fazer algo, um outro aplicou-lhe uma injeção com sedativo. O resultado foi bastante rápido.

Aproveitando-se da mudança repentina do estado de ânimo de Luiz, Carla pegou em seu braço e o conduziu para fora da UTI. Abalado pela cena que acabara de presenciar, pelo cansaço acumulado e sob efeito do forte sedativo que lhe fora aplicado, Luiz desmaiou sobre Carla. O enfermeiro ajudou Carla a deitar Luiz em um sofá. Cerca de uma hora depois, o telefone de Carla voltou a tocar. Ela afastou-se da Sala de Espera e foi até Corisco I, onde atendeu o telefone:

- Carla, estou ligando para saber se há alguma novidade. - falou Fernanda.
- A vítima não resistiu aos ferimentos e faleceu.
- Como está o Luiz?
- Ele está desconsolado. Foi necessário aplicar-lhe um sedativo forte para contê-lo quando ocorreu a morte.
- Avisarei os outros e depois tornarei a ligar. - Fernanda despediu-se.

Carla voltou para perto de Luiz que ainda estava adormecido. Ao se sentar ao seu lado, ele despertou:

- Eu jamais me perdoarei por ter tido essa maldita idéia! - Luiz desabafou.
- Essa não é a pessoa que me contratou para um trabalho altamente arriscado, cujo objetivo poderia definir o destino da humanidade. - respondeu Carla.
- Mas a gente nunca considerou que isso poderia chegar a esse ponto.
- Não se torture por este fato. Quando o projeto começou, fomos alertados pelo seu tio que estaríamos lidando com forças muito superiores àquelas com as quais estávamos acostumados.
- Eu não sei! Tudo está muito confuso para mim. Minha vontade é de ficar num canto e deixar o mundo se acabar.
- Luiz, eu sei muito bem o que você está passando, pois perdi meus pais em um assalto quando tinha sete anos de idade e fui criada pela minha avó, que faleceu em meus braços justamente no dia do meu aniversário de dezesseis anos. Precisei de muito tempo para me aprumar de novo!
- A falta que o tio Fábio me fará será enorme. Não sei se eu agüentarei.
- Você é uma pessoa forte. Faça uma homenagem ao seu tio e, em sua memória, não interrompa o trabalho que vocês dois iniciaram. Vamos ver o que poderemos fazer agora. Há uma série de providências que precisaremos tomar!
- Mas eu não tenho a mínima idéia por onde começar.
- Vamos nos informar sobre os procedimentos para a retirada do corpo. Depois deveremos providenciar o funeral. Você também precisará contatar a empresa para comunicar a ocorrência e pedir instruções. Será necessário entrar em contato com o pessoal em Tupã I e com as pessoas que estão com a outra vítima.
- Por falar na outra vítima, onde ela está?
- Eles tiveram um problema e foram para outro hospital. Mas deverão ligar a qualquer momento.

Enquanto tomavam as providências necessárias, o telefone de Carla tocou:

- Carla, nós estamos deixando o hospital agora e deveremos chegar aí em umas quatro horas.
- Ótimo! Venham o mais rápido que puderem. Preciso de vocês para ajudar o Luiz.

Quatro horas depois, Henrique, Fernanda e o outro enfermeiro chegaram ao hospital. Ao se encontrarem com Luiz, cada um dos três lhe deu um forte abraço, apresentando a sua solidariedade em um momento tão difícil. Ao abraçar Fernanda, Luiz desabou:

- Foi uma perda muito grande e que me deixou totalmente desorientado. - disse Luiz, entre lágrimas.
- Ele era uma pessoa muito especial para todos nós. Vamos sentir muito a sua falta. – falou Fernanda.
- Carla me deu muito apoio, mas eu ainda estou completamente desorientado.
- Se dependesse somente de Fábio, o projeto seria tocado adiante. - declarou Fernanda.
- Isso é verdade. A sua forte determinação nunca lhe deixaria se abater por um acidente. Por pior que fosse o estrago, ele diria que eram ossos do ofício. - disse Luiz, entre lágrimas.
- Mesmo sem a participação direta de Fábio, é extremamente importante que nós toquemos o projeto adiante. Assim nós estaremos concluindo algo que vocês dois planejaram por muito tempo e que assumiram o compromisso de realizá-lo.
- Você tem toda razão! - exclamou Luiz - Eu só continuo sem saber por onde começar. Tio Fábio fará muita falta quando precisarmos tomar as decisões.
- O fato dele estar em um hospital a uns 300 km de Tupã I, não nos impedirá de procurá-lo quando precisarmos.
- Eu não entendi o que você acabou de falar. - disse Luiz confuso com as palavras de Fernanda.
- Eu disse que, mesmo internado em um hospital a uns 300 km de Tupã I, Fábio poderá ser consultado sempre que precisarmos. Ele me pediu para lhe avisar que mesmo fora do projeto, em função da sua convalescência, ele faz questão de se manter informado de tudo o que acontecer e que estará sempre à nossa disposição.
- O que você está me dizendo? Como você poderia ter falado com o tio Fábio, se eu presenciei sua morte há poucas horas atrás. - declarou Luiz, agora mais confuso ainda.
- Acho que você se enganou. Você trouxe o Hélio e não o seu tio. Fábio havia trocado de lugar com Hélio, enquanto verificava um equipamento que havia dado sinal de mau funcionamento. Quando ele se abaixou para verificar o que estava acontecendo, o raio transmitido por Corisco II, explodiu na torre de comando, atingindo Hélio em cheio. Fábio só se lembra que a estante de livros caiu sobre ele.
- Minha nossa! - exclamou Luiz, acometido pela súbita surpresa.
- Vamos dar a Hélio um funeral à sua altura. Também deveremos providenciar o seguro de vida para os seus dependentes. Deixe isso comigo! - disse Fernanda.
- Está bem! Como eu faço para ir até o hospital onde está o tio Fábio? - perguntou Luiz, ansioso para rever o seu tio.


Capítulo 13 - Convalescência

Após conversar longamente sobre amenidades com seu sobrinho, Fábio conduziu a conversa para o acidente:

- Tio, foi realmente um acidente muito sério, mas teremos bastante tempo para falarmos sobre isso. Que tal deixarmos esse assunto para depois? - propôs Luiz.
- Tudo bem! Mas como está o Hélio? Seu estado é muito grave? - perguntou Fábio, ainda sem saber o que acontecera.
- Ele foi internado em um hospital bem mais preparado do que este aqui! Mas nós teremos bastante tempo para falarmos sobre isso. Você deve descansar para se recuperar o mais rápido possível, pois eu não pretendo tocar aquele projeto sozinho. - Luiz encerrou a conversa, cobrindo Fábio com um lençol e diminuindo a iluminação do quarto.

Luiz estava bastante aliviado da tensão que enfrentara nas últimas horas e já se sentia em condições de equacionar os dois problemas que tinha em suas mãos: a reconstrução de Tupã I e a retomada dos experimentos.

Era necessário preparar um comunicado sobre os fatos ocorridos para ser divulgado a todos em Tupã I, o mais rápido possível. Uma vez definido o texto do comunicado, Luiz pediu que Henrique o entregasse a Antonio, que deveria convocar uma reunião geral para a sua divulgação. Luiz e Fernanda ficariam mais algum tempo no hospital para o acompanhamento da evolução do estado de saúde de Fábio.

Na manhã seguinte, Luiz e Fernanda chegaram a Tupã I com boas notícias a respeito de Fábio. Ele ficaria internado por pelo menos um mês para garantir a sua convalescência.

Naquela mesma manhã chegaram dois representantes da empresa patrocinadora, que havia sido avisada no dia anterior por Luiz. Os dois representantes se reuniram com Luiz e Antonio para decidirem o futuro do projeto.

- Nosso presidente ficou muito preocupado com os últimos acontecimentos. O professor Hélio era uma pessoa muito querida na empresa e bastante respeitada nos meios científicos. - disse um dos representantes.
- Senhores, eu tenho pleno conhecimento destes fatos. Todos os procedimentos de segurança têm sido seguidos à risca. - afirmou Luiz.
- Convém lembrar que houve uma falha grave de funcionamento que causou a transmissão do raio para a torre de comando em vez de tê-lo enviado para a antena coletora. - disse o outro representante.
- O veículo causador do acidente está guardado para que seja feita uma perícia em seus equipamentos. Cabe ressaltar que cada um dos veículos teve seus equipamentos alinhados antes de ser empregado nos experimentos, eu mesmo tive o cuidado de certificar pessoalmente cada alinhamento. - informou Luiz.
- Como o funcionário mais graduado da empresa neste projeto, tenho acompanhado de perto o cuidado do Sr.Luiz com os aspectos de segurança. Ele nunca negligenciou nenhum procedimento, por mais simples ou óbvio que fosse. Eu sou testemunha disso. - declarou Antonio.
- Contudo, um acidente muito sério ocorreu e, além de uma vida ter sido perdida, um grande prejuízo material foi causado. - declarou um dos representantes.
- Ah! Eu já entendi o discurso de vocês! Mas, se vieram aqui para falar de prejuízos materiais, é melhor encerrarmos essa reunião agora mesmo! - disse Luiz, muito irritado e fazendo menção de se retirar da sala.
- Luiz, eu gostaria que você se sentasse e ouvisse esses senhores. - disse Antonio, em tom conciliador.
- Tudo bem! Peço que me perdoem pela minha pouca paciência, pois ontem eu tive um dia muito atribulado e ainda não consegui colocar meu sono em dia.
- Nós compreendemos perfeitamente! Nossa intenção é fecharmos essa reunião com um relatório que permita a tomada de todas as providências necessárias para a recuperação de Tupã I, o mais rápido possível. Precisaremos também providenciar a substituição de Fábio e de Hélio, para completar a equipe. Para isso, será necessário realizarmos a seleção de mais duas outras pessoas, caso você concorde com essa medida.
- Sim! Em função da situação em que me encontro, eu abro mão de participar dessa seleção. - disse Luiz – Eu indico o Antonio para me representar nesse trabalho.
- Pode deixar comigo! - respondeu Antonio.

Após terem concluído o relatório, a reunião foi encerrada. Antonio e os dois representantes, aproveitando uma trégua dada pela chuva, saíram em direção à empresa.

Durante a semana de espera, Luiz preparou uma programação para todo o pessoal que estava em Tupã I. A recuperação de Tupã I deveria acontecer dentro de três semanas. Com um pouco de sorte, ainda haveria tempo hábil para efetuar os experimentos dentro daquela temporada de raios. Luiz também aproveitou aquela semana para visitar Fábio, que tornou a conversar sobre o acidente:

- Como estão as coisas em Tupã I?
- Fizemos uma reunião com representantes da empresa e deveremos reconstruir a parte avariada em duas semanas. - respondeu Luiz.
- Já identificaram as reais causas do acidente? – questionou Fábio.
- Não! Mas, o que você quis dizer com "reais causas do acidente"? - perguntou Luiz, curioso.
- No dia do acidente, enquanto nos preparávamos, Hélio comentou algo muito semelhante ao que você havia falado comigo na véspera. Acho muito interessante que você converse com ele. - disse Fábio, ainda sem saber da sua morte.
- Está bem, tio. Mas ele ainda está internado e não deve ser importunado. Você poderia me adiantar algo sobre essa suspeita?
- Ele me disse que tinha provas de que o projeto estava sendo alvo de sabotagens. Na hora, eu não dei muita importância mas, durante todo esse tempo de internação aqui, juntei algumas peças e montei um curioso quebra-cabeças.
- Como assim?
- Tudo o que você me disse na véspera do acidente faz sentido! Realmente uma série de fatos estranhos têm ocorrido sem uma explicação aceitável. Acho que é fundamental que você fale com Hélio, tão logo esteja autorizado pelos médicos. Para adiantar o expediente, dê uma boa vasculhada no seu alojamento.
- Mas o que eu devo procurar?
- Se eu bem me lembro, ele havia comentado sobre um fita. Acho que o Hélio não vai se importar com isso, afinal é para uma causa nobre!
- Você tem toda razão, tio! Eu voltarei no próximo dia de visitação. - Luiz se despediu dando-lhe um beijo na testa.

Ao chegar em Tupã I, Luiz foi direto para o alojamento de Hélio. Lá teve uma grande surpresa. A porta estava aberta e todo o seu conteúdo estava embalado em três caixas lacradas. Sem entender o que estava acontecendo, ele foi procurar por Henrique que havia ficado como seu substituto:

- O Geraldo me pediu para juntar as coisas do seu amigo Hélio, para que ele pudesse enviar para a sua família. Com eu não vi mal nenhum nisso e o autorizei a fazê-lo. Há algum problema?
- Sim! - respondeu Luiz muito aborrecido, sem conseguir dar uma explicação aceitável para a sua reação - Quero dizer, você não deveria deixar ninguém ter mexido nas coisas dele sem me consultar, pois lá poderiam existir documentos sigilosos.
- Mas os dois trabalhavam juntos e faziam o mesmo trabalho. Se houvesse algum documento importante, tenho certeza de que o Geraldo lhe entregaria.
- É! Talvez eu esteja me preocupando a toa. Até logo! - Luiz saiu determinado a inspecionar o conteúdo das caixas sem levantar suspeitas.

Naquela madrugada, Luiz pegou uma caneca cheia de café, dirigiu-se para o alojamento de Hélio e virou todo o líquido sobre as caixas. Feito isso, rapidamente passou a abrir as caixas para procurar a fita. Enquanto, inspecionava a última caixa, foi surpreendido por Geraldo:

- O que o senhor está fazendo a essa hora da madrugada nas coisas do meu amigo falecido? - perguntou Geraldo, em um tom pouco amistoso.
- Eu estava passando por aqui, tropecei e virei todo o meu café sobre as caixas. Preocupado com um possível estrago, resolvi abrí-las para retirar o seu conteúdo. Foi realmente um grande azar!
- Pode deixar tudo do jeito que está, que eu embalarei amanhã de manhã. Tenha uma boa noite! - respondeu Geraldo, bastante mal-humorado.
- Boa noite! - foi a resposta desconcertada de Luiz.

Na manhã seguinte, Luiz voltou ao alojamento de Geraldo e ofereceu-se para ajudá-lo a embalar as caixas. Geraldo agradeceu e disse que cuidaria daquilo sozinho. Luiz não tinha mais argumentos e retornou para o seu alojamento. Como ele conseguiria colocar as mãos na tal fita?

Luiz voltou para seu alojamento, deitou-se novamente na cama e lá ficou praguejando a sua má sorte. De repente, olhou para sua mesa e viu o envelope que Hélio havia deixado com ele na manhã do acidente. Ao pegar o envelope, verificou que o mesmo era espesso o bastante para conter uma fita de vídeo. Seguindo um impulso incontido, Luiz abriu o envelope e encontrou uma fita de vídeo, alguns CD-ROM's e uma pasta com algumas páginas de um relatório entitulado "TUPÃ I". Aquele era o material que ele tanto procurava.


Capítulo 14 - Sabotagem

Luiz começou a folhear o relatório. Ao reconhecer algumas palavras-chave, ele concluiu que o relatório estava escrito no mesmo código que utilizava nas correspondências com a empresa. Fazendo uso dos CD-ROM's e do programa de decodificação instalado em seu computador, Luiz conseguiu extrair o seguinte texto:

INTERFERÊNCIAS PROJETO REALIZADAS CONFORME PREVISTO.

AÇÃO PRONTA ATINGIR NÍVEIS CRÍTICOS.

PROSSEGUIMENTO AGUARDA ENVIO DE INSTRUÇÕES.

Uma sensação de revolta tomou conta de Luiz. Aquele texto deixava claro que Hélio era um dos sabotadores, a serviço da própria empresa patrocinadora.

Luiz agora sabia que havia sabotagem e a própria empresa patrocinadora era a responsável. Diante dessa situação, Luiz tomou uma decisão inusitada: todo mundo deveria abandonar Tupã I, o mais rápido possível. Todos deveriam se mudar imediatamente para os alojamentos usados durante a construção. Luiz alegou que assim a reconstrução da torre de comando seria mais rápida. A evacuação do prédio seria feita pelo mesmo transporte que traria o pessoal da reconstrução.

Luiz providenciou o fechamento de todos os setores da Unidade, deixando acessível somente o setor avariado, os alojamentos e a área de alimentação. Feito isso, ele precisava discutir aquele assunto com Fábio o mais breve possível.

Ao avistar Fábio em seu quarto no hospital, Luiz disparou aflito:

- Tio, precisamos tratar de um assunto muito importante!
- Mas o que está lhe atormentando tanto?
- O assunto sobre o qual você me falou ontem, quando eu estive aqui.

Depois de relatar tudo que encontrara nas coisas de Hélio, Luiz apresentou sua interpretação para as provas da sabotagem e pediu conselhos a Fábio.

- Muito estranho! Contudo, acho que você pode estar se precipitando.
- Tio, não há mais dúvidas! A empresa está nos usando como cobaias para justificar a impossibilidade de se explorar outros meios de obtenção de energia.
- Luiz, você parece estar certo, mas não significa que realmente esteja.
- Você poderia ser mais claro?
- Meu caro sobrinho! Por que um sabotador arriscaria sua missão enviando mensagens através da única pessoa no projeto que tem os meios necessários para decifrar o código utilizado? E se ele estivesse investigando a possibilidade de sabotagem e tivesse confiado as provas a você?
- Mas, tio! Veja com seus próprios olhos. Leia a mensagem você mesmo!
- Luiz, imagine que a empresa poderia estar desconfiada da ocorrência de sabotagens e, ao PREVER isso, tivesse solicitado que um de seus funcionários de confiança verificasse essa possibilidade.
- Por que você não vai até a empresa - sugeriu Fábio - e entrega pessoalmente ao Diretor-Presidente a correspondência de Hélio? Diga-lhe que, por estar muito preocupado com a possibilidade de ocorrerem outros acidentes, você está pensando em abandonar o projeto.
- E se eles concordarem?
- Você terá a confirmação de que eles estão sabotando o projeto. Se isso for verdade, será melhor você sair disso o mais rápido possível.
- Mas, e se eles tiverem uma reação diferente?
- Se a empresa for o alvo da sabotagem, eles deverão se abrir com você e lhe contar o que está acontecendo.
- Agora eu entendi. Você é um gênio! - Luiz se despediu, dando um beijo na bochecha de Fábio.

Luiz saiu do hospital e foi direto para Tupã I, procurar por Antonio. Ao chegar no meio da madrugada, Luiz o encontrou fazendo uma inspeção no andamento da obra:

- O Diretor-Presidente virá aqui no décimo-quinto dia. Caso algo dê errado, algumas cabeças irão rolar e a minha deverá ser a primeira. - disse Antonio, demonstrando toda a sua apreensão.
- Não se preocupe! Tenho certeza de que você irá conseguir!
- Obrigado! Mas o que o traz aqui?
- Precisarei me ausentar por uns três ou quatro dias. Durante esse tempo, mantenha o pessoal lá no alojamento e não permita que ninguém, em nenhuma hipótese, venha para Tupã I. Somente poderão ficar aqui as pessoas que vieram com você para as obras de reconstrução.
- Existe algum motivo para todo esse rigor?
- Não! Apenas quero me certificar que você não terá nenhuma interferência em seu trabalho. - respondeu Luiz, tentando dissimular sua preocupação.

Na tarde seguinte, depois de muita insistência com a secretária, ela o encaminhou até o gabinete do Diretor-Presidente que, ao saber da presença de Luiz, cancelou todos os seus compromissos e o recebeu muito bem.

Na imensa sala do executivo, a maquete do projeto Tupã I ocupava uma posição de destaque. Luiz entregou o envelope de Hélio e iniciou o seu discurso:

- Senhor presidente, estou trazendo um envelope que o Hélio, no dia do acidente, pediu-me que lhe encaminhasse. Em virtude do seu falecimento, achei melhor vir lhe entregar pessoalmente a encomenda e também lhe apresentar minha apreensão quanto ao rumo que os experimentos têm tomado. - iniciou Luiz.
- Antes que continue, há algumas coisas que você deve saber. - interrompeu o executivo.
- Sou todo ouvidos!
- Nós, juntamente com as outras três maiores empresas de exploração de petróleo do mundo, estamos em uma eterna cruzada na busca de uma solução para o nosso grande problema: o fim das reservas petrolíferas. Todos nós sabemos que isso é apenas questão de tempo. Tempo que deve ser aproveitado, da melhor forma possível, para encontrarmos outra fonte de energia. Aí entra você!
- Como assim?
- Todas as grandes empresas petrolíferas vêm pesquisando formas alternativas de obtenção de energia para quando as reservas de petróleo se esgotarem. A empresa que tiver mais tempo neste outro ramo, dominará o mercado ou, pelo menos, usufruirá do seu pioneirismo. Nós temos investido maciçamente na busca de alternativas. O seu projeto é uma delas.
- Se eu sou apenas mais um, qual é a diferença?
- Você está pesquisando uma alternativa que ninguém havia considerado antes. Isso abriu uma frente de trabalho que atraiu a atenção das quatro maiores empresas desse ramo. Desde então, vimo-nos engajados numa disputa acirrada pelo pioneirismo: a primeira a conseguir validar o processo, poderá patenteá-lo e, assim, terá uma grande dianteira sobre as demais.
- Mas eu tenho uma tese de mestrado provando cientificamente o funcionamento do método. - ressaltou Luiz.
- Sim! Mas é apenas um estudo científico! A patente deve ser fundamentada no fato de que o método é economicamente viável! Quem provar primeiro essa possibilidade leva o prêmio: exclusividade de uso por uns quinze anos. Devo lhe dizer que todas nós, as quatro maiores, estamos tentando tudo que podemos.
- O senhor está querendo dizer que as outras empresas também estão testando a possibilidade de se obter energia dos raios? - perguntou Luiz surpreso.
- Desde que começou a usar a Internet, para pesquisar sobre raios e possíveis formas de captar e armazenar a sua energia, você tem sido acompanhado pelas principais empresas petrolíferas. Nos últimos anos temos lançado mão de todos os recursos disponíveis, lícitos ou não, para podermos resolver o nosso problema. Acompanhar as pessoas que buscam informações na Internet é apenas uma dessas formas. Por isso, exatamente no dia da defesa da sua tese você recebeu uma proposta nossa. Isso aconteceria mesmo que o seu orientador não tivesse divulgado o seu trabalho pela Internet.
- Mas eu recebi mais de uma proposta! - argumentou Luiz.
- Veja bem, meu rapaz! Estamos em um negócio de grandes fortunas. Se falharmos, perdemos nossos investidores. Se nós perdermos, governantes poderão cair, pois muitos governos são também nossos acionistas. Em função dessa grande responsabilidade, todos nós somos obrigados a usar de artifícios, nem sempre lícitos, para se manter à frente da concorrência. Uma delas foi impedir a chegada dos representantes das outras empresas concorrentes com propostas de trabalho para você. Outro recurso também muito comum entre as empresas é sabotar o projeto das concorrentes. Exatamente como estão fazendo conosco!
- Mas então o senhor já sabia disso? - perguntou Luiz.
- Sim! Eu apenas preciso das provas que você deve ter trazido no envelope enviado pelo falecido Hélio para podermos tomar as providências cabíveis.
- Para ser franco, - disse Luiz - eu dei uma boa olhada no material que eu estou lhe trazendo e posso lhe assegurar que podem ser tiradas conclusões bem diferentes de tudo o que o senhor falou até o momento.
- Você pode ser mais objetivo?
- Ao ler o relatório de Hélio, constatei que havia uma mensagem no mesmo código que fui orientado a usar e obtive essa mensagem. - Luiz mostrou a mensagem que ele havia decifrado.
- Vejo que você nos subestimou. Você usou um código parecido, mas não aquele que o Hélio estava orientado para usar. Vamos para o meu computador!

O Diretor-Presidente usou os CD-ROM's do envelope e acionou seu programa de decodifição, inserindo a senha "HELIUM" e obteve a seguinte mensagem:

Detectadas diversas INTERFERÊNCIAS no PROJETO REALIZADAS por elementos de empresas concorrentes CONFORME havia sido PREVISTO.

Verificado que AÇÃO gradual está PRONTA para ATINGIR elevados NÍVEIS interferência equipamentos CRÍTICOS em breve.

PROSSEGUIMENTO da investigação AGUARDA tomada de providências e ENVIO DE INSTRUÇÕES e equipe de apoio.

- Você pode observar que, existe uma diferença sútil: as suas mensagens são frases com cinco palavras, enquanto o código usado pelo Hélio adotava frases de quinze palavras. - esclareceu o Diretor-Presidente.
- Mas, mesmo assim, a mensagem do Hélio não esclarece nada! - disse Luiz.
- Vamos ver o que contém a fita de vídeo. – respondeu o Diretor-Presidente.
- Lamento lhe informar que a fita só contém filmagens amadorísticas de Hélio com mensagens para sua família.
- Você continua nos subestimando. Hélio era solteiro e não tinha nenhum parente próximo. Para quem ele mandaria mensagens além de mim?
- Agora eu fiquei confuso, pois seu parceiro Geraldo embalou todos os pertences do Hélio para enviar para a família dele.
- Era essa informação que eu estava esperando! Mande-os entrar agora mesmo! - exclamou o executivo, ao se comunicar com sua secretária pelo interfone.

Logo em seguida, dois homens muito bem vestidos entraram no gabinete do Diretor-Presidente, que os apresentou:

- Estes são os agentes federais Antonio Carlos e José Ricardo. A Polícia Federal está nos ajudando na investigação pelo fato de que o nosso governo detém cerca de 45% das ações desta empresa. Os atos de sabotagem em nossos projetos são ações contra a segurança nacional.

A fita apresentou diversas cenas em que Hélio aparecia passeando por uma área gramada, mandando mensagens para seus filhos e para a sua esposa. Depois da mensagem, havia um desenho animado gravado da TV local para os seus filhos. Ao assistir a fita, Luiz exclamou:

- Eu disse que a fita não iria ajudar!
- Um vídeo normal é gravado com trinta quadros de imagem para cada segundo de apresentação. - explicou o executivo - A mensagem foi gravada através de um recurso especial que utiliza apenas um desses trinta quadros em cada segundo de cena. Desse modo, a mensagem não pode ser lida através de um aparelho de vídeo comum. Deixe-me acionar o decodificador para revelar a verdadeira mensagem de Hélio. - declarou o executivo, ativando seu aparelho de vídeo especial.

Subitamente, a imagem mudou e revelou um Hélio bastante sério que apresentava os resultados de suas investigações:

- Desde o início do funcionamento de Tupã I, eu tenho observado as atitudes estranhas do meu parceiro, Geraldo. - a imagem de Hélio iniciava o seu relatório - Ele costuma se levantar durante a noite e se encontrar com mais algumas pessoas que, segundo pude averiguar, são elementos que fazem parte da equipe de manutenção da Unidade.
- Nossa antena de recepção de informações meteorológicas está apontada para um outro satélite que não é o satélite meteorológico nacional. Sugeri à Fernanda que checasse as informações recebidas por outros meios e ela constatou que o satélite estava enviando informações meteorológicas totalmente incorretas. Presumo que isso já possa ser considerado como um ato de interferência. - Hélio usava a palavra interferência em vez de sabotagem.
- Na noite anterior ao primeiro experimento prático, Geraldo passou quase toda a noite fora. Na manhã seguinte, todos os veículos foram encontrados com seus faróis acesos, o que causou a descarga de suas baterias. Esse ato de interferência teria causado um considerável retardo no início dos experimentos, se o engenheiro Henrique não tivesse descoberto a tempo de providenciar a substituição da bateria de um dos veículos. Contudo, nada foi encontrado na fita de vídeo das câmeras de segurança.
- Ao serem iniciados os experimentos, conseguimos receber toda a energia enviada pelo veículo, em uma das vezes, mas curiosamente o sistema de proteção foi indevidamente acionado e toda a energia foi jogada fora. Encontrei alguns vestígios de alterações no programa de controle, inseridos depois da data de inauguração da Unidade.
- Estou pesquisando indícios de interferências nas unidades de direcionamento de energia dos veículos, que poderão desviar toda a energia captada para fora da antena coletora. Se esse "raio da morte" for lançado contra a Unidade, boa parte do prédio poderá ser destruída e pessoas poderão sair feridas. - a gravação foi encerrada com o rosto preocupado de Hélio.
- Eu jamais poderia imaginar isso. - exclamou Luiz.
- Senhores, devemos agir o mais rápido possível. - disse o Diretor-Presidente.
- Conseguimos levantar as fichas de cinco pessoas que estão trabalhando no seu projeto e elas nos revelaram que são elementos de grande periculosidade, quatro deles são procurados pela Interpol por ações subversivas em outros países.
- Mas quem é a quinta pessoa? - perguntou Luiz.
- É o professor Geraldo Campos, que também trabalha há mais de sete anos para uma empresa internacional concorrente. - declarou o agente José Ricardo - Temos provas concretas de que ele participou da sabotagem que resultou no grande acidente ecológico, que deixou esta empresa na berlinda por um bom tempo.
- Mas o que vocês estão esperando para prendê-los? - perguntou Luiz.
- Para que eles sejam presos, sem direito a fiança, é necessário flagrá-los em uma ação de sabotagem. - disse o agente José Ricardo.
- Mas, eu mandei todos para o alojamento provisório, para evitar novas sabotagens. - disse Luiz.
- Então precisaremos fazê-los voltar para Tupã I, o mais breve possível! - disse o Diretor-Presidente - Você agora deve retornar ao projeto e providenciar isso para nós. Aja com a maior naturalidade possível e fique tranqüilo, pois juntamente com a equipe de reconstrução, foram enviados diversos agentes.
- Esses agentes foram instruídos para ficarem de olho nos suspeitos. Um passo em falso e eles os pegarão. - disse o agente Antonio Carlos.

Luiz retornou a Tupã I na manhã seguinte. Lá chegando trocou algumas palavras com Antonio e lhe avisou que havia decidido pelo retorno do pessoal.

Quando a última turma chegou, Luiz informou a todos que, na manhã seguinte, chegaria uma equipe de peritos para inspecionar Corisco II. Por meio de uma senha, Luiz contatou os agentes infiltrados na equipe de reconstrução. Pediu-lhes que ficassem de olho na garagem.

Luiz foi acordado de madrugada por um dos agentes:

- Senhor Luiz, venha comigo! - disse o agente, quase sussurrando.
- Já estou indo. - disse Luiz, fazendo força para afastar o sono.

O agente conduziu Luiz até a garagem, onde os outros agentes mantinham muito bem imobilizados Geraldo e mais outras quatro pessoas.

- Encontramos esses senhores aqui na garagem. Eles arrombaram a porta de acesso e estavam mexendo em alguns equipamentos daquele veículo. - disse um dos agentes apontando para Corisco II - Todos os passos deles aqui dentro foram filmados pelas nossas câmeras de visão noturna e as suas conversas foram gravadas por uma série de microfones espalhados neste recinto.
- Até que enfim! - exclamou Luiz com uma grande expressão de alívio.
- Senhor Luiz, nós sairemos com esses malfeitores ainda nessa madrugada. Como o tempo está firme, poderemos alcançar a estrada em pouco tempo.
- Como os senhores quiserem! - disse Luiz.


Capítulo 15 - Nova experiência

A perícia realizada em Corisco II confirmou a intenção dos sabotadores de atingir as instalações prediais de Tupã I.

A reconstrução de Tupã I foi concluída em menos de treze dias. No dia da nova inauguração, o Diretor-Presidente ressaltou as qualidades de Antonio pelo feito conseguido. Foi um discurso tão emocionado que o levou às lágrimas.

- Aproveite esse momento que ele é todo seu! Mas lembre-se que amanhã cedo voltaremos à velha rotina e que você agora tem novas obrigações. - disse Luiz, lembrando a Antonio que ele seria o substituto de Fábio.

Luiz atendeu ao chamado do Diretor-Presidente, que queria saber dele quais eram as suas expectativas em relação ao retorno aos experimentos.

- Luiz, faça tudo o que for possível para comprovar a viabilidade da idéia, durante essa semana de experimentos. Conto com você! - disse o Diretor-Presidente, despedindo-se de Luiz e dos demais presentes.

Naquela noite, Luiz perdeu boa parte do seu sono pensando em como cumprir a determinação do Diretor-Presidente. Teoricamente, tudo era favorável à obtenção dos resultados almejados. Contudo, só a prática poderia confirmar a teoria. Essa era a razão da insônia de Luiz.

Fábio teve alta mas, devido a uma lesão em seu joelho direito, estava com sua perna engessada e deveria continuar em repouso. Fábio resolveu ficar hospedado em um hotel na cidade durante o período dos experimentos. Caso fosse necessário ouvir a sua opinião, bastaria procurá-lo no hotel.

Na noite do Sábado, Luiz promoveu uma pequena festa para comemorar a prontificação de Tupã I. Ao final da comemoração, Luiz fez o seu discurso:

- Companheiros de trabalho, estamos aqui reunidos para comemorarmos uma pequena vitória: a nossa preparação para a realização de uma nova série de experimentos.
- Temos uma grande responsabilidade e também um grande problema em nossas mãos. A responsabilidade é o compromisso de obtermos um resultado positivo quanto à coleta e armazenamento da energia dos raios, que abrirá novas perspectivas para toda a humanidade. O problema é conseguir esse resultado positivo em um curto espaço de tempo. A temporada de raios terminará dentro de uns dez dias.
- Amigos, tenho a mais absoluta certeza que teremos sucesso! Quero reafirmar a minha confiança em todos vocês e a certeza de que, no final da próxima semana, estaremos celebrando a nossa grande conquista. Nós queremos esse resultado positivo e vamos conseguí-lo! Eu ... - Luiz foi interrompido pelos aplausos de todos, comprovando que ele havia alcançado o seu objetivo.

Quando os presentes começaram a se retirar do refeitório, Luiz pediu a Antonio e a alguns membros da equipe que ficassem para conversar sobre a Segunda-feira.

- Preciso esclarecer algumas coisinhas. - interrompeu Fernanda.
- Pois então fale, Fernanda! - respondeu Luiz.
- Segundo as informações do satélite meteorológico, teremos somente mais uma série de tempestades. A última grande tempestade da temporada, com nuvens bastante carregadas acompanhadas de muita chuva e muito vento. Essa última tempestade deverá durar umas 28 horas. Este será o fechamento da temporada de raios.
- Então teremos que alterar os nossos planos! - disse Luiz - Precisamos nos preparar.
- Esta será a última oportunidade que teremos. - concluiu Antonio.

No final da manhã da Quinta-feira o céu escureceu, anunciando a chegada da última tempestade da temporada. Em duas ou três horas, conforme Fernanda havia previsto, aconteceria uma das maiores tempestades daquela temporada.

Às duas horas da tarde, todos assumiram as suas posições. Luiz já estava a bordo de Corisco III, quando ouviu o alarme:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 9 SOBRE A ÁREA DE COLETA!

Luiz partiu para o ponto de espera e, lá chegando, contactou Antonio:

- Aqui está tudo bem! - disse Luiz.
- Como está o tempo aí?
- Chove muito forte e o vento prejudica um pouco a direção do veículo. Fernanda já foi avisada...
- RAIO A 2 km EM 1-4-5! - A voz de Fernanda interrompeu a conversa dos dois.
- A caminho! - disse Luiz, disparando na direção indicada.

Ao chegar ao local, após 41 segundos, Luiz acionou o botão de disparo. Depois de receber um impacto sobre o veículo bem mais forte que o esperado e ouvir um estrondo também muito mais elevado, deu uma verificada no painel e constatou que, segundo as indicações dos instrumentos, tudo ocorrera da forma esperada. Contou mentalmente e ao chegar em quinze, antes de acionar o sistema de comunicação, verificou que sua mão tremia e que todo o seu corpo estava transpirando muito. Suas mãos não respondiam mais a sua vontade, por mais que Luiz tentasse, ele não conseguia coordenar os seus movimentos. A expectativa pelo resultado lhe causava tremores. Enquanto ele se debatia contra as reações adversas do seu corpo, o sistema de comunicação foi acionado:

- Alô...ZZZZZZZZ Luiz! Responda! Está...ZZZZZZZ.. com você? - a voz de Antonio, em meio a um forte zunido, tirou Luiz daquele estado letárgico.
- Si-sim! Aqui está tudo bem! Mas, e vocês?

Depois de alguns longos segundos de silêncio, a voz de Antonio respondeu:

- Exce..ZZZZZZZ..! Segundo as informações...ZZZZZZZZZZ....receber de Carla e..ZZZZZZZ, eu..ZZZZZZZZ..dizer que ........
- Estou lhe ouvindo com muita dificuldade, sua voz está chegando com muita interferência!
- CONSEZZZZZZ..! - gritou Antonio - CONZZZZZ..MOS!
- A interferência está prejudicando a compreensão de suas palavras!
- C-O-N-S-E-G-U-I-..ZZZZZ..!!! - soletrou Antonio.
- É verdade? Conseguimos mesmo? - Luiz estava incrédulo.
- S-I-M! - respondeu Antonio.
- Estou voltando agora mesmo! - disse Luiz, retornando a Tupã I.

Ao chegar em Tupã I, ainda Luiz foi direto ao Setor de Armazenamento. Lá chegando encontrou um grande clima de festa. Ao vê-lo, Antonio lhe deu um abraço apertado.

Ainda confuso, Luiz comentou sobre o problema no sistema de comunicação. Carla lhe explicou que aquilo era resultado da forte interferência eletromagnética causada pela grande quantidade de energia acumulada. Um forte zunido era claramente ouvido nas proximidades dos dispositivos de armazenamento. Segundo Magno, o novo físico, eles haviam coletado um raio muito potente, cuja energia ocupava cerca de 80% da capacidade total do sistema de armazenamento de Tupã I.

Lembrando das recomendações do Diretor-Presidente, o resultado positivo deveria ser comunicado o mais rápido possível à empresa patrocinadora.

Luiz pediu que Henrique entregasse o relatório. Depois de Henrique sair, rumo à empresa patrocinadora, Luiz convocou todos para informar sobre o resultado alcançado. Dois dias depois, Henrique retornou da empresa, ainda a tempo de participar da comemoração prometida. Ele trouxe uma carta com os parabéns do Diretor-Presidente.

A tão esperada festa foi memorável. Todos se cumprimentaram pelo grande feito. No final da noite, Luiz pediu a atenção de todos para ler a carta enviada pelo Diretor-Presidente. Nela, o executivo ressaltou a grande importância do trabalho desenvolvido por todos que integraram o projeto.

Depois da comemoração do sucesso, era necessário pensar no próximo passo: a transformação de Tupã I na primeira Usina de Energia de Raios da história.


Capítulo 16 - Transformação

Após um mês, o sistema de armazenamento continuava funcionando muito bem. Nesse período, chegaram diversas pessoas e o material necessário à execução das obras de transformação de Tupã I em uma Usina de Energia de uso comercial. Durante os experimentos, uma equipe da empresa patrocinadora havia elaborado um projeto de conversão da Unidade Experimental. A maior modificação idealizada foi a instalação de torres de captação de raios na área de coleta.

As obras de conversão de Tupã I durariam cerca de cinco meses. A empresa patrocinadora pretendia inaugurar sua Usina de Energia cerca de seis meses antes da próxima temporada de raios.

Boa parte do pessoal que trabalhou em Tupã I foi engajada nas obras de conversão da Unidade. Os demais seriam aproveitados no projeto e construção de duas outras Unidades, a serem instaladas em pontos estratégicos do país. Essa nova forma de obtenção de energia seria apresentada para a opinião pública como a verdadeira energia limpa que a empresa, depois de muita pesquisa e testes, conseguira obter como a maior prova de respeito ao meio ambiente e, principalmente, a todos os habitantes do planeta: seus futuros clientes.

Durante todo aquele mês, mesmo sob um intenso ritmo de trabalho, Luiz encontrou tempo para pensar mais em sua vida particular e concluiu que havia um vazio em sua vida. Faltava-lhe uma família, tal como ele se lembrava das histórias contadas por seu pai, sobre os seus primeiros anos de vida. Seu tio Fábio poderia lhe ajudar a organizar os pensamentos.

No primeiro final de semana livre, Luiz foi visitar Fábio. Desde que fora obtido o tão esperado resultado, ele só conseguira fazer duas visitas muito rápidas ao seu tio. Dessa vez ele tinha intenção de passar o Sábado e o Domingo inteiros com Fábio.

- Como está indo a sua perna? - perguntou Luiz.
- Está bem melhor. Deverei tirar o gesso na próxima semana. Depois virão as malditas sessões de fisioterapia, as quais eu pretendo fazer na minha casa.
- Quer dizer que você vai nos abandonar?
- Acho que vocês não precisam mais de mim por aqui! Eu já dei toda a contribuição que podia e está na hora de voltar a cuidar da minha vida.
- Vamos sentir muito a sua falta.
- Ah! Deixe de sentimentalismos! Eu estou fora do projeto há mais de dois meses.
- Sim! Mas sempre que eu precisava, podia vir vê-lo. Se você voltar para casa, será praticamente impossível eu poder vê-lo quando sentir saudades. A situação das obras me obriga a permanecer aqui por mais uns quatro meses.
- Ora Luiz, nós estamos juntos há mais de vinte anos, o que são quatro meses?
- Mas eu vou sentir muito a sua falta. Principalmente dos seus conselhos.
- Mas você poderá me pedir conselhos sempre que quiser, inclusive agora. O que lhe aflige?
- Bom,... - Luiz tentava timidamente procurar as palavras certas - é que,...ultimamente..., mesmo com todo aquele pessoal no projeto,...eu tenho me sentido só. Eu não sei o que está acontecendo comigo, mas eu tenho me sentido assim no último mês.
- Mas isso é muito bom!
- Eu não estou entendendo nada!
- Significa que ainda existe uma esperança para você. - disse Fábio sorrindo.
- Esperança para quê? - perguntou o confuso Luiz.
- Esperança de que dentro dessa cabeça dura ainda exista lugar para outras coisas além daquela idéia fixa de coletar raios.
- Ora tio, essa idéia fixa tem sido compartilhada por nós nos últimos quinze anos e, é bom lembrar, deu certo! O que tem isso a ver com essa grande confusão mental que eu tenho enfrentado ultimamente?
- Bom, Luiz. Eu acho melhor responder essa sua dúvida contando-lhe algo que eu tenho pensado muito durante esse meu período de isolamento. Cheguei a algumas conclusões sobre a nossa vida. - disse Fábio, agora bastante sério.
- Quais?
- Nós somos pessoas privilegiadas! Poucos são aqueles que conseguem ver os seus sonhos realizados. Você teve a felicidade de realizar o grande sonho da sua vida: uma idéia que vem lhe consumindo desde a sua infância. Mas eu acho que isso não é tudo!
- Como assim?
- Eu acho que essa felicidade tem que ser muito bem aproveitada, mas sem encobrir o resto da sua vida.
- O que você quer dizer com isso?
- Eu quero dizer que agora que você realizou o seu grande sonho, não deve se dar por satisfeito e achar que a sua vida acabou. Você deve olhar para os outros aspectos dela. Eu acho que esses pensamentos que têm lhe atormentado ultimamente, são um chamado da Natureza.
- Como assim?
- Você já se deu conta de que viver sozinho é muito ruim? Que nas noites frias de inverno faz muita falta alguém com quem compartilhar o calor de uma lareira ou de um cobertor?
- Como assim?
- Inconscientemente, eu sempre tive vontade de constituir uma família. Ter alguém para dar continuidade aos meus passos. Mas também ter alguém com quem compartilhar os problemas, as derrotas e as vitórias da minha vida. Eu acho que isso, como uma característica da preservação da espécie, é uma necessidade comum a todos nós seres humanos. Mais recentemente, quando reencontrei a Rosa, eu tive todos os meus anseios atendidos.
- E então.... - interrompeu Luiz.
- Então, eu acho que você não precisa chegar aos cinqüenta anos de idade para concluir a mesma coisa. Talvez você não tenha a mesma sorte que eu tive. Você é uma pessoa jovem, bem sucedida e acho que está na hora de você aproveitar esse chamado da Natureza para buscar alguém com quem possa dividir a sua vida.
- Bom,.... na verdade,..... tem uma pessoa que...realmente me faz sentir diferente.
- Ótimo! Essa pessoa é a chave do seu problema! Ela é a sua alma gêmea!
- Mas tio, mesmo sabendo disso, acho que não basta eu chamá-la e lhe dizer tudo isso que nós estamos conversando.
- E por que não?
- Primeiro, eu não vou ter coragem de falar com ela esse tipo de coisa. Segundo, mesmo que eu tenha, acho que ela vai pensar que eu estou maluco.
- Nada disso, meu caro sobrinho! A transparência é o mais importante de tudo! As mulheres adoram as pessoas sinceras! Vá lá e se declare para ela!

Fábio e Luiz, tal como pai e filho, continuaram sua conversa por todo o fim-de-semana. Ao final daquele interessante bate-papo, Luiz se convenceu que deveria diversificar as suas prioridades. Seu tio havia lhe dado algumas boas idéias de como colocar isso em prática.

Luiz chegou a Tupã I de alma lavada. Ele se sentia muito leve, como se tivesse lido o "Grande Livro da Vida" e todos os seus intrigantes mistérios lhe tivessem sido revelados. Ao se deitar, ele traçou uma interessante estratégia para sua mais nova prioridade: a conquista da sua alma gêmea.

Mais um mês se passou e a obra ia sendo realizada dentro do previsto. Durante esse período, Luiz conseguiu abrir um considerável espaço para a sua mais nova prioridade, que ocupava todos os seus finais de semana e as horas vagas do dia. Ele se sentia como um adolescente que, pouco a pouco, descobria os encantos do relacionamento com o sexo oposto. Contudo, com as obrigações que os dois tinham em seus ombros, o profissionalismo e a ética faziam com que ambos fossem bastante discretos no seu relacionamento. A discrição era tal que ninguém em Tupã I poderia supor que havia um “affair” entre os dois.

As obras de conversão já haviam completado quatro meses e meio, quando Antonio levou a boa notícia a Luiz:

- Tenho o imenso prazer de lhe informar que acabamos de fazer a conexão da última seção de cabos entre as torres e Tupã I.
- Quanto tempo a mais será necessário para encerrar a fase de testes?
- Conforme o último cronograma, tudo deverá estar totalmente pronto em dez dias.
- Isso significa que nós concluiremos nosso trabalho com uma antecedência de cinco dias.
- Exatamente! – respondeu Antonio.
- Excelente! Vou comunicar essa situação à empresa. Tenho certeza de que eles vão ficar muito satisfeitos e que marcarão logo a data da inauguração.

Antonio saiu e deixou Luiz imaginando o que aconteceria ao ser encerrado o trabalho em Tupã I. Por um instante, ele fez uma breve retrospectiva de toda a sua vida, especialmente dos dois últimos anos em que esteve trabalhando no projeto. Quantas coisas haviam acontecido durante aquele período, que culminou com o resultado tão esperado por ele. O encontro com sua alma gêmea fora também algo de grande importância para a sua vida. Subitamente, ele foi trazido de volta à realidade com a chegada de Fernanda.

- Acabei de saber que as obras foram concluídas. Precisamos comemorar isso!
- Hã? - Luiz voltou a si - Ah! Bem lembrado! Vou pedir ao pessoal da cozinha para caprichar no jantar de hoje. Embora o trabalho ainda continue, isso não pode passar em branco.
- Você também deveria preparar um pequeno discurso para ressaltar essa conquista. O que você acha?
- Concordo com você! Fatos iguais a esse não acontecem todos os dias.
- Ótimo! Vou voltar para a minha sala. Eu te vejo à noite. - Fernanda saiu, deixando Luiz meio atônito com a súbita mudança de pensamentos. Agora ele tinha um discurso para escrever.

Naquela noite o jantar foi muito especial. Depois da refeição, Luiz chamou a atenção de todos e iniciou o seu discurso:

- Meus amigos! Estou muito feliz em transmitir a todos uma boa notícia: Hoje à tarde, nós completamos a última parte das obras de conversão de Tupã I. Agora falta apenas a fase de testes, prevista para durar cerca de dez dias.
- A partir da entrada em operação comercial desta Unidade e, dentro em breve, de mais duas outras, teremos uma energia limpa e de baixíssimo custo, disponível a praticamente todas as pessoas. Esse será um grande passo para permitir o acesso à energia também pelos menos favorecidos.
- Todos vocês devem se sentir orgulhosos de participarem de tão importante projeto. Para isso, eu proponho a todos um brinde à nossa conquista! - Luiz levantou seu copo e foi prontamente imitado por todos os presentes.
- Dentro de alguns dias será marcada a data de inauguração desta Unidade. Contudo, quero lembrar a todos que teremos mais duas outras para cuidar e que, todos irão, direta ou indiretamente, participar deste trabalho por mais dois anos, pelo menos.

Os dez dias seguintes foram muito duros. Os testes avançavam noite a dentro, para que o prazo dado pudesse ser cumprido. Conforme Luiz havia sido informado, a grande festa de inauguração deveria ocorrer dentro de uma semana. Havia rumores de que até o Presidente da República compareceria ao evento.

Com a diminuição do ritmo do trabalho, Luiz encontrou tempo para fazer planos sobre uma vida conjunta. Ambos iriam continuar trabalhando juntos por um tempo considerável e isso deveria aumentar mais ainda o entrosamento entre eles. Era sua intenção aproveitar o clima festivo da inauguração para tomar uma importante decisão, que seria coroada com um lindo anel de brilhantes. Até lá, ele manteria segredo sobre as suas intenções.

Faltavam apenas dois dias para a grande festa. O Presidente da República havia confirmado a sua presença, o que aumentou mais ainda as preocupações com os detalhes, principalmente com a segurança.

Luiz estava fazendo uma inspeção de rotina pelas instalações de Tupã I, quando encontrou Carla em um corredor.

- Olá, como vai indo o seu dia? - perguntou Carla.
- Tudo bem! Apenas algumas inspeções de rotina para confirmar que está tudo em ordem para o grande dia.
- Puxa vida! Eu mal posso esperar pela inauguração. Algo me diz que será um dia muito especial.
- É verdade! Eu também acho que muita coisa boa deverá ocorrer nesse dia. - disse Luiz, pensando em seus planos particulares.
- Preciso verificar o sistema de comunicações que está sendo instalado para apoiar a segurança da festa. Até mais! - Carla se despediu, saindo apressada.
- Até logo! - Luiz continuou a sua inspeção.

Mais tarde, ao passar pela sala de Fernanda, Luiz lhe perguntou:

- Tudo bem, Fernanda? Como vão as previsões meteorológicas para o grande dia?
- Estou confirmando a ocorrência de chuva durante boa parte do dia.
- Droga! Eu estava torcendo para você estar enganada.
- Fique tranqüilo, pois deverá ser uma chuva muito fraca! Com o galpão que foi montado, essa chuva não irá atrapalhar a festa da inauguração. Tenho certeza que será uma bela solenidade e será um dia muito especial. - disse Fernanda, piscando um olho para Luiz.
- É! Assim eu espero! - disse Luiz, um pouco desanimado ao saber sobre a chuva.
- Ora, Luiz! Não fique desapontado! Tenho certeza que será um dia muito especial, depende apenas de nós.
- É verdade! Você está cheia de razão. Agora eu vou continuar a minha inspeção. Até logo mais! - Luiz saiu, esforçando-se para melhorar o seu ânimo.

Tudo ocorreu dentro do previsto, a inauguração estava marcada para as nove horas da manhã do dia seguinte. A grande maioria traria os seus familiares mais chegados. Luiz era um dos poucos que não tinha a quem convidar, pois Fábio não iria comparecer devido a problemas pessoais. Naquela noite, ao deitar-se, ele pegou a pequena caixa com o anel e o fitou, enquanto imaginava qual seria a reação dela ao recebê-lo. Mentalmente, Luiz ensaiou diversas vezes o que ele falaria para ela na ocasião. Essas palavras deveriam ser muito bem ensaiadas. Luiz acabou adormecendo com o anel em suas mãos.

Luiz fora despertado às 5 horas da manhã, com o grande alvoroço causado pelo pessoal da segurança. Dezenas de agentes, com seus impecáveis ternos pretos, estavam se espalhando por todos os locais por onde o Presidente da República deveria passar. Uma rigorosa inspeção estava sendo realizada. A única coisa que caberia ao pessoal do projeto seria o seu comparecimento ao local da solenidade meia hora antes do horário estabelecido. Os demais encargos correriam por conta do pessoal do Cerimonial e da Polícia Federal. Às oito e meia, ao chegar no local da inauguração, Luiz encontrou Fernanda:

- Oi, Fernanda! Eu gostaria de lhe mostrar uma coisa. - falou Luiz.
- Pois não! O que é? - respondeu Fernanda, curiosa.
- Eu queria que você visse isso. - Luiz abriu a caixa com o anel de brilhantes.
- Mas é lindo! - disse Fernanda, dando um abraço apertado em Luiz - Eu sabia que algo muito especial iria acontecer hoje. Você não imagina como eu estou feliz.
- Senhor Luiz, precisamos conversar sobre alguns procedimentos.
- Claro! Depois nós continuamos nossa conversa... - disse Luiz, olhando para Fernanda.
- Faltam apenas dez minutos para a chegada do Presidente, seria recomendável que o senhor e os demais membros da equipe fossem para perto do palanque.

Em pouco tempo estavam todos reunidos ao lado do palanque. O Diretor-Presidente chegou e ficou ao lado de Luiz. Um minuto depois, às nove horas em ponto, o Presidente da República foi anunciado pelo seu porta-voz. Os primeiros acordes do Hino Nacional foram ouvidos e todos se levantaram. Com a mão direita sobre o peito, todos os presentes cantaram o Hino Nacional. Ao ser encerrado o Hino, o encarregado do cerimonial deu início ao evento:

- Senhoras e senhores, o Diretor-Presidente da Petróleo & Derivados S.A., empresa patrocinadora da primeira Usina de Energia de Raios da história, irá abrir a solenidade.
- Senhor Presidente, senhoras e senhores, - o executivo iniciou seu discurso - é uma grande honra aqui estar para um evento de tão grande magnitude...

O Diretor-Presidente enalteceu os esforços da equipe e o grande empenho em que a sua empresa havia se engajado, na crença de que ali estava a solução para um grande problema da humanidade. A morte de Hélio foi lembrada pelo executivo, que pediu a todos um minuto de silêncio em homenagem a uma pessoa que perdera sua vida pelo projeto.

- Senhoras e senhores, - interrompeu o encarregado do cerimonial - o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, que muito nos honra com sua ilustre presença irá condecorar pessoalmente os membros da equipe.
- Senhoras e senhores, meus compatriotas, - iniciou o Presidente - é com muito orgulho que hoje venho participar de uma inauguração tão importante, não só para o nosso país como para toda a humanidade. Muito me orgulha saber que uma equipe, composta unicamente por nossos conterrâneos e patrocinada por uma empresa cujo acionista principal é o governo do nosso país, alcançou tão elevado patamar tecnológico, que culminou com a descoberta de uma fonte praticamente inesgotável de energia limpa e barata.

Cada um dos membros da equipe foi chamado ao palanque e condecorado com a Ordem do Mérito Nacional, a mais elevada condecoração do país. Luiz foi o último a ser chamado e caberia a ele fazer o discurso de agradecimento.

Embora muito feliz com tudo aquilo, Luiz se sentia entorpecido e, ao contrário do que se esperava, ele estava profundamente calmo. Iniciou o seu discurso de agradecimento, pedindo desculpas pela ausência de seu tio que, devido a impedimentos pessoais, não pudera comparecer a tão importante evento. Um agradecimento especial, feito nominalmente a cada um dos membros da equipe, encerrou o seu discurso, feito de improviso, pois ele acabara por esquecer o papel que havia escrito na véspera.

Logo em seguida, foi descerrada a placa de inauguração da Usina de Energia "Professor Hélio Amaro de Sá". A solenidade foi encerrada com a assinatura de um compromisso de construção de mais duas outras Usinas de Energia de Raios, que seria coordenada por Luiz, a quem coube definir os seus futuros nomes: "Alice Maria Côrtes Silva" e "Flávio Augusto Silva".

Com a saída do Presidente da República, das autoridades e dos repórteres, o clima da festa ficou ainda mais descontraído. Estava previsto um almoço, restrito aos membros da equipe e seus convidados.

Luiz achou que aquela seria a melhor hora para algo que ele havia ensaiado tanto. Discretamente, ele respirou fundo, encheu-se de coragem, pegou a caixinha no bolso de sua calça, abriu-a deixando à mostra o anel de brilhantes e saiu à procura de sua amada. O melhor ainda estava para acontecer, pensou ele...



F I M (Por enquanto...)

Dominando o Raio: Copyright © 2005 Silvino Bastos

(19281 palavras) De momento, não é possível votar neste desafio; é necessário fazer o registo para poder votar quando for possível.
Estatísticas de votação para Dominando o Raio Votos: 2   Classificação média: 4.5
ricardomteixeira
ParticipaçãoEnviado: 12-03-2005 2:37     Título: A LIÇÃO  
Registo: 14 Feb 2005
Mensagens: 33
Participações: 18
Local/Origem:


Enviar email
Visitar a página na web do utilizador
1 - BELFAST - IRLANDA DO NORTE
QUARTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2003:


John Keane, acordou por volta das seis e quarenta e cinco da manhã, a fim de estar às oito horas no emprego... Fazia três anos que estava a trabalhar naquela fábrica de fitas gomadas que ficava a uns vinte e cinco quilómetros de sua casa, e mesmo estando obrigado a acordar àquela hora no caso de querer chegar a tempo ao emprego, ainda lhe custava levantar-se tão cedo! Desde pequeno que era adepto de dormir até tarde... Costumava desculpar-se com o facto de se dizer que os homens de signo Gémeos são dorminhocos, e que sendo ele desse mesmo signo, não fugia à regra.
Nesse dia, ficou com vontade de se deixar dormir mais um pouco, e se chegasse atrasado ao emprego, daria uma desculpa qualquer. Logo se lembrou que já o havia feito no dia anterior, e se o estivesse sempre a fazer, o mais certo seria perder o emprego.
- Depois de ‘perder’ a namorada por ser acusado de ser um ‘deixa andar’, só me faltava perder o emprego por ser acusado de ser um desleixado que se deixa dormir todos os dias... - Comentou, falando com as paredes do quarto pintadas em tom de cinzento, lembrando-se de que fora por falta de iniciativa que Eleanor o havia deixado na semana anterior...
Resolveu então, saltar da cama. Tomou um banho de água fria de modo a despertar, penteou os seus cabelos louros e passou a máquina de barbear pelos três pêlos plantados no queixo... Olhando os seus olhos azuis reflectidos no espelho, riu-se para si mesmo, ao lembrar-se do quanto era gozado pelos seus colegas de liceu que lhe acusavam de ter cara de menina, por causa da barba que nunca se havia feito notar... Excepto aqueles três pêlos que barbeava no momento.
Depois de se vestir, John meteu-se no elevador que o levou do terceiro-andar até ao rés-do-chão do prédio onde morava há seis anos, desde que saíra de casa dos pais em consequência de uma discussão motivada pelas consequentes noites perdidas em discotecas e bares de alterne da capital.
O carro pequeno, azul metalizado e de uma marca italiana, estava estacionado na praceta em frente ao respectivo prédio, e não demorou muito para que John o alcançasse... Meteu a chave na respectiva fechadura da porta do automóvel comprado há menos de um ano e abriu a mesma de maneira a entrar para o interior do carro. Entrou, recostou-se ao banco do condutor, puxou do cinto de segurança, e ao prender o mesmo ao dispositivo colocado à direita do banco aonde se acabara de sentar, ouviu um som agudo que parecia uma espécie de assobio... Levantou a cabeça e olhou para o local de onde vinha o mesmo som. Por cima do rádio instalado no automóvel, havia uma espécie de mini-ecrã de plasma onde costumavam passar em rodapé, informações das diferentes estações de rádio sintonizadas. Era daí que vinha o som agudo ouvido por John... Dois segundos depois deste fixar o respectivo ecrã, apareceu escrita uma mensagem que continha o seguinte texto escrito em inglês:
“BOMBA ACTIVADA”.
No instante seguinte, e no mesmo ecrã de plasma, começou o que parecia ser uma contagem decrescente:
“3”
“2”
“1”
E:
“BOOOOOOOMMMMM!!!”
Em seguida, e perante o olhar extasiado de John sobre o ecrã, apareceu a cara de um bonequinho que parecia idêntico ao boneco de um jogo de computador que John conhecia da sua infância, numa risada histérica e sádica...
Por instantes, John Keane ficou imobilizado, sem qualquer reacção... Apenas mantinha os olhos fixos no ecrã que agora se apagava definitivamente.
Demorou uns dois minutos a recuperar os sentidos que pareciam adormecidos... Depois, com as mãos que tremiam intensamente, retirou o cinto de segurança e saiu do carro com o coração acelerado pelo medo. Não pelo medo do que poderia vir a acontecer, mas pelo medo do que poderia ter acontecido...
Já fora do carro, pegou no seu velhinho telemóvel e ligou para a esquadra da polícia local, solicitando a sua presença no local aonde se encontrava.
A polícia demorou uns quatro minutos a chegar, reforçada com homens que pertenciam à secção de minas e armadilhas. De facto, nestes casos, a polícia local é muito rápida a chegar aos locais dos incidentes, uma vez que o país é propício a atentados terroristas...
- Mister John, afaste-se até estar fora da área delimitada pelas fitas, por favor... - Solicitou um polícia alto, enquanto entregava um saco com os pertences de John, retirados do porta-luvas do automóvel do mesmo.
Depois de vários profissionais terem investigado as ligações feitas no interior do automóvel, chegaram à conclusão de que tudo não havia passado de uma brincadeira de mau gosto.
A polícia cortou as ligações feitas pelos intrusos que pareciam ser profissionais na matéria, e uma mulher polícia presente no local, recomendou a John, que este, mais tarde, fosse até a um mecânico, de modo a verificar que nada tinha ficado afectado no sistema electrónico do automóvel.
Uma hora depois do incidente, estava restabelecida a normalidade da situação.
John mais uma vez, chegou atrasado ao emprego, onde explicou o que se havia passado consigo, para regozijo dos colegas que acharam que aquela fora a melhor desculpa que John Keane alguma vez arranjara para não dizer que tinha adormecido.
Quem também não ficou convencido, foi o patrão, que já se começava a habituar aos constantes atrasos do seu subordinado, e ao mesmo tempo estava a ficar farto desses mesmos atrasos quase diários.
- Mais uma vez, vou deixar passar este atraso em branco, mas se me chegas outra vez atrasado esta semana, juro que te despeço com justa causa.
John acatou o aviso do patrão, e pôs mãos à obra no trabalho que lhe estava destinado.
- Cuidado, que a máquina de fazer rolos pode ter uma bomba!!! - Volta e meia, os colegas de trabalho metiam-se com John, que era o empregado mais novo da fábrica. Todos pareciam ter mais de trinta anos, excepto John, que tinha feito vinte e cinco anos há uma semana atrás...
“Se soubesse, nunca tinha deixado de trabalhar na noite”, pensou John, lembrando-se dos dois anos em que trabalhou num bar de Belfast... Na altura, acordava às horas que queria, tinha tempo para tocar com a banda que tinha criado com uns amigos, e convivia com pessoas da sua geração.
A manhã passou, dentro da habitual monotonia que era o trabalho na fábrica, onde só precisava de verificar que as fitas gomadas não encravavam na máquina de enrolar, e depois de enroladas, arrumá-las nas caixas de madeira que dois dos seus colegas se encarregariam de levar para o armazém que ficava no mesmo edifício.
À hora de almoço, John, não tendo fome, aproveitou para ir arrumar no porta-luvas do carro, os pertences contidos no interior do saco de plástico que o polícia alto lhe havia entregue.
Enquanto arrumava alguns dos documentos presentes no saco, deparou-se com um envelope fechado colocado no meio dos mesmos... O envelope branco tinha escrito por fora, as seguintes palavras:
“URGENTE! ABRA POR FAVOR!”
John receou abrir o dito envelope, mas logo ganhou coragem para o fazer...
No seu interior, estava uma carta sem remetente, que continha a seguinte mensagem:
“...Podias ter morrido hoje!!! Mas não morreste! Durante três segundos, suplicaste a Deus ou ao que quer que seja, que aquilo não fosse uma bomba... Nesse curto espaço de tempo, suplicaste-o com tanta força, que o teu desejo foi-te concedido. Mas agora, responde-te a uma pergunta que tu próprio farás a ti mesmo: SE AQUILO FOSSE MESMO UMA BOMBA E EU TIVESSE MORRIDO HOJE, TERIA APROVEITADO A VIDA DA MELHOR MANEIRA?! Provavelmente, chegarás à conclusão de que não terias feito tudo o que querias fazer, de que não terias vivido a vida como desejarias realmente vivê-la, de que não tinhas sido feliz por achares que tinhas tempo para o ser no futuro... Aproveita por isso, enquanto as bombas que aparecem na tua vida, são somente falsos alarmes! Vive ao máximo, consciente de que o que não fazes hoje, poderás não o poder fazer amanhã... VIVE!!!

Anónimo, ‘Penso, logo faço que tu existas’... ”



2 - LISBOA, PORTUGAL
SEGUNDA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO DE 2003:

Oito da noite!!!
Todos os noticiários nacionais começam com a mesma notícia... Na televisão, o pivô apresenta então a notícia de abertura:
- A madrugada passada ficou marcada para muitos daqueles que ontem passaram a noite ao relento e à chuva... Em diversas zonas do país, o que pareceu ser uma actividade executada por um grupo organizado, colocou cerca de vinte indivíduos do sexo masculino, todos solteiros ou divorciados que moravam sozinhos com os seus animais de estimação, a passarem parte da noite ao relento, debaixo da forte chuva que se fazia sentir... Todos os homens, entre os vinte e dois e os trinta e cinco anos de idade, foram surpreendidos por alguém que nas suas próprias casas, os obrigou a trocarem de lugar com os cães que dormiam nas varandas ou nos quintais sem qualquer protecção da chuva que se fazia cair. Os malfeitores prenderam-nos com algemas, em lugares aonde não se pudessem resguardar da mesma chuva ou fugir para algum lado... Aos poucos, os vizinhos dos diversos indivíduos foram-se apercebendo dos gritos dos homens em desespero! Alguns, apenas foram soltos pela manhã, depois de uma noite de terror... Curiosamente, os malfeitores nada furtaram às vítimas de tamanha barbaridade...
O Doutor Jaime, formado em investigação policial e em psicologia criminal, assistia na televisão e enquanto jantava com a sua esposa, à notícia sobre o caso que ele próprio estava encarregue de investigar. Esta era a segunda vez que o grupo organizado actuava. E depois desta, com certeza viriam mais...
As investigações haviam começado duas semanas antes, aquando o grupo actuara, supostamente, pela primeira vez... Por essa altura, dez mulheres, habitantes de diferentes zonas geográficas do país, foram sujeitas a um rapto colectivo. Os malfeitores deixaram-nas, em plena madrugada, em locais desérticos, com roupas velhas e sem as maquilhagens a que estavam habituadas... Sem dinheiro e sem qualquer valor em suas posses, as mulheres tiveram que esperar pela claridade do dia, para então andarem quilómetros a pé até às terras mais próximas dos locais onde tinham sido largadas, e aonde ao chegarem, apresentaram queixa às polícias locais e solicitaram boleia para casa. Curiosamente, ao chegarem a suas casas, cansadas e envergonhadas, foram surpreendidas com as roupas numa caixa onde também se encontrava uma carta com a seguinte mensagem:
“...Os mendigos com quem gozas - aqueles que outras vezes desprezas como se eles fossem merda - enquanto estás no salão de chá ou no instituto de beleza, passam as noites assim. A diferença é que não podem ir à polícia pela manhã, pedir que lhes levem a casa, porque não têm casa. DESPERTA!!!
Anónimo, ‘Penso, logo faço que tu existas’... ”


O Doutor Jaime, ainda andava às voltas com este primeiro caso, e já tinha aparecido outro, que supostamente tinha sido da autoria do mesmo grupo que raptara as mulheres. Desta vez, as vítimas tinham sido homens que moravam sozinhos com os seus animais de estimação... Curiosamente, também havia uma carta destinada às vítimas, com a seguinte mensagem:
“...O teu cão passa por isto mesmo, durante todo o inverno, enquanto tu estás dentro de casa a gozar do conforto do sofá e a ver televisão. Acredito que o teu cão gostou muito do canal National Geografic da televisão por cabo. AGE EM CONSCIÊNCIA!!!
Anónimo, ‘Penso, logo faço que tu existas’... ”



3 - NO MESMO DIA E À MESMA HORA
EM CASA DO CÉREBRO DO GRUPO ORGANIZADO:

Em sua casa, o Cérebro assistia à notícia de abertura dos telejornais portugueses. Via as vítimas a serem alvos de inquéritos, onde se queixavam das constipações que provavelmente os atacariam, e onde descarregavam as suas iras por palavras revoltosas contra os malfeitores...
- Eles hão-de perceber... - Disse para si mesmo, o Cérebro.
Desligou a televisão suspensa na parede por um suporte próprio para o efeito, sentou-se na cadeira de rodas e andou um pouco até à secretária de madeira no canto do quarto, onde ligou o computador.
Enquanto esperava que o computador executasse as tarefas para iniciar o sistema operativo do mesmo, alguém abriu a porta do quarto.
- Então, que fazes?! Não comeste nada, ainda... - Comentou uma voz feminina.
- Ainda não tenho fome, mas já como qualquer coisa. Vou só concluir um trabalho... - Respondeu.
Novamente sozinho, o Cérebro conectou-se à Internet, onde entrou numa sala de conversação secreta, que era precisamente o ponto de encontro dos membros da ASPC - Aliança de Salvação das Pobres Consciências. A Internet era a poderosa e incontrolável arma utilizada pelo Cérebro... A ASPC tinha uma página na rede, onde eram publicados alguns dos exercícios já desempenhados pela organização. Todos os membros, podiam aceder a essa página através de um código secreto individual, onde por consequência, tinham acesso à sala de conversação secreta.
Operador1035(Por) diz:
- Olá Cérebro, viste as notícias?!
Com a excepção de Cérebro, todos os membros da ASPC usavam o mesmo nickname: Operador. O que variava, era o número que lhes era atribuído pelo Cérebro e o diminutivo do nome do país de origem, que era posto entre parêntesis. Ninguém sabia o nome dos outros membros da aliança. Quem quisesse ser membro da aliança, tinha de responder a um vasto inquérito numa página paralela à página principal da ASPC. O candidato tinha de ter algumas qualidades intelectuais, saber falar e escrever inglês correctamente, uma vez que, embora o Cérebro fosse português, o inglês era a língua oficial da Aliança, e tinha de garantir que era capaz de desempenhar as Lições (era assim que se denominavam as operações) com segurança e sem pôr em risco as verdadeiras intenções do grupo... Se o Cérebro tomasse conhecimento que havia por parte de algum operador recurso a vinganças pessoais, roubos ou outras falhas que pusessem em risco a imagem que a aliança queria transmitir, o mesmo era imediatamente expulso da ASPC, sem perdão possível. As Lições eram planeadas pelo Cérebro, consoante as informações que os operadores lhe davam sobre as vítimas, que eram observadas e investigadas durante dias, semanas ou meses, antes que se passasse à parte da Lição, propriamente dita. Também as cartas deixadas às vítimas das Lições, eram escritas pelo Cérebro. No mínimo, haviam sempre cerca de vinte a trinta operadores envolvidos em cada missão ou Lição, consoante o número de vítimas e a dificuldade das operações.
Cérebro diz:
- Tenho uma Lição para ser executada pelos operadores 3148(Esp) a 3170(Esp)... Já a publiquei na escala de Lições. Não se esqueçam de a consultar todos os dias, e se não puderem fazê-lo, avisem-me para o meu correio electrónico. Alertem-se uns aos outros para estes pequeníssimos pormenores, de modo a que nada falhe.
A aliança havia sido criada há pouco mais de meio ano, mas já tinha 28000 membros/operadores espalhados por toda a Europa, que dava em média, 1000 operadores por país, aumentando este número nos países maiores e diminuindo relativamente aos países geograficamente mais pequenos... Havia mesmo, dois ou três países europeus sem qualquer operador na ASPC. Embora só actuasse na Europa, havia indivíduos de outros países do resto do mundo a descobrirem a aliança e a quererem fazer-se membros, embora fossem rejeitadas as suas candidaturas. Haviam três maneiras de saber da existência da ASPC: através de um amigo ou conhecido que já era membro; ao acaso, numa pesquisa fortuita na Internet; ou por proposta do Cérebro, que através do correio electrónico fazia chegar a sua oferta a tipos que ele próprio analisava e que achava serem indivíduos promissores para o futuro da aliança.


4 - MAIS TARDE, NESSA MESMA NOITE
EM CASA DE RUI MEIRELES:


Eram onze e quarenta e cinco da noite. Depois de uma noite difícil como a anterior, Rui quis deitar-se mais cedo do que habitualmente, uma vez que precisava de descansar da noite à chuva e ao frio. Não fosse a comunicação social a chateá-lo com entrevistas e depoimentos que já não valiam para nada, e já se teria deitado umas horas antes. Logo ele, que costumava deitar-se todos os dias às tantas da madrugada, perdido que ficava em jogos de computador, vício moderno de viver em infinitos mundos paralelos...
Deitou-se e estava quase a adormecer quando ouviu um latir de um cão.
“É o Coxelas”, pensou para si mesmo.
De súbito foi invadido por um impulso que o levou a levantar-se da cama. Abriu a porta do quarto, foi até à porta que dava para o quintal nas traseiras da casa e desprendeu as correntes que agarravam o Coxelas pelo pescoço.
- Anda para dentro, vá... - Ordenou ao cão, que obedeceu de imediato.
“Agora percebo o objectivo dos tipos... Agora compreendo a carta e o facto de não terem roubado nada”, reflectiu ainda, Rui Meireles, uma das vítimas da Lição da madrugada anterior.
O Coxelas estava radiante! Era a segunda noite seguida que lhe deixavam dormir dentro de casa... Hoje, para seu regozijo, ainda tinha a companhia do dono, aquele homem que o havia apanhado na rua em pequeno, curando a sua pata ferida por causa de uma pedra projectada por um carro que passara a alta velocidade lá na rua aonde nascera. O cão infeliz, com o rabo caído e olhos tristes, era agora um cão feliz, com o rabo a abanar e um olhar radiante.
Rui deitou-se na cama, e o Coxelas foi de imediato deitar-se aos seus pés nus, aconchegando-se àquele que era para si, o seu herói... Adormeceram felizes, na companhia um do outro.




5 - QUARTA-FEIRA, 17 DE SETEMBRO DE 2003
6:00
EM CASA DO DOUTOR JAIME:

Seis da manhã... O telefone toca na mesa-de-cabeceira ao lado da cama do Doutor Jaime, que acorda estonteado.
- Estou...
Do outro lado, alguém pedia ao Doutor Jaime que se apresentasse nas instalações da judiciária...
- A esta hora?! - Protestou.
- Quem é?! - Questionou a esposa do investigador, que também havia acordado com o tocar do telefone.
- Está bem, vou já... - O Doutor Jaime respondeu ao tipo que estava do outro lado da linha, e pousou o auscultador do telefone no descanso do mesmo.
- Quem era?! - Questionou mais uma vez, a esposa do perito em investigação criminal.
- Era o meu chefe... Parece que descobriram que os tipos das cartas, também actuam no estrangeiro.
- E era preciso ligarem-te tão cedo?! As poucas horas em que tenho marido é quando estás a dormir ao meu lado, e já isso me querem tirar... Porque não te casas com o teu chefe?! Já para não falar no teu filho, que não o deves ver à uma semana e tão-pouco te ralas com isso...
- Não tenho tempo para as tuas discussões. Antes de entrar para a judiciária queixavas-te de barriga vazia, agora queixas-te de barriga cheia... Não sabes o que queres!!!
- Equilíbrio! Sabes o que significa isso?!
- Olha, queres discutir, discute sozinha...
O psicólogo investigador bateu com a porta do quarto e saiu até à casa-de-banho, onde lavou a cara, se penteou e arranjou a gravata reflectida no espelho iluminado.
Depois de pronto, o Doutor Jaime meteu-se no elevador que o levou do quarto-andar até ao rés-do-chão do prédio onde morava à dezoito anos, desde que casara com Helena.
O carro grande, cinzento metalizado e de uma marca alemã, estava estacionado na praceta em frente ao respectivo prédio, e não demorou muito para que o psicólogo investigador o alcançasse... Meteu a chave na respectiva fechadura da porta do automóvel comprado há cerca de dois anos e meio, e abriu a mesma de maneira a entrar para o interior do carro. Entrou, recostou-se ao banco do condutor, puxou do cinto de segurança de modo a prender o mesmo ao dispositivo colocado à direita do banco do condutor, e levando a chave à ignição, rodou-a no sentido do ponteiro dos relógios... Arrancou daí a pouco, em direcção ás instalações da polícia judiciária em Lisboa...




6 - POUCO DEPOIS
NO GABINETE DO CHEFE RODRIGUES:

- Descobrimos que o teu grupinho já actuou em vários países da Europa... - Explicou o Chefe Rodrigues, enquanto o Doutor Jaime ouvia atento, aquele que tinha sido seu colega de faculdade e que hoje em dia era o seu chefe, e a quem devia o lugar que tinha conseguido nos quadros da polícia judiciária portuguesa.
- E que casos já se conhecem?! - Perguntou o psicólogo investigador encarregue do caso...
- Na semana passada, na Irlanda do Norte, dez tipos foram surpreendidos com o que julgavam ser uma bomba que armadilhava os seus carros... No entanto não passou de um falso alarme com o objectivo de assustar os donos das viaturas, que ao que parece, eram jovens na casa dos vinte aos trinta anos, solteiros e com um passado ligado ao mundo da música... Todos desistiram do sonho por acharem que não o conseguiam conciliar com as suas vidas pessoais e profissionais.
- E houve carta?!
- Houve! Estou à espera de quatro faxes, com as respectivas cartas dos quatro casos que se conhecem no estrangeiro...
- Quatro?! E quando souberam disso?
- Telefonaram-me para casa ontem à noite e estou aqui desde as quatro e meia da manhã... Foi a polícia espanhola que nos comunicou e nos alertou da situação. O último caso, foi mesmo em Espanha, na Catalunha, na manhã do dia de ontem. Por momentos julgou-se que se tratava de um atentado da ETA...
- O que fizeram os gajos, desta vez?! - Questionou o Doutor Jaime, curioso.
- A mesmíssima coisa que fizeram na Irlanda do Norte, mas com objectivos totalmente opostos.
- Como assim?
- Ao que me parece, na Irlanda, foi com a intenção de fazer querer aos donos dos carros em causa que as suas vidas podiam ter acabado de um dia para o outro sem que se tivessem feito as coisas que realmente desejariam fazer, por estarem sempre a adiar os sonhos em prol de coisas menos importantes ou por mera preguiça e desculpas de falta de tempo.
- Uma espécie de ‘não deixes para amanhã o que podes fazer hoje’...
- Exacto!!! Na Catalunha, as vítimas do susto foram senhores com poder no mundo da política e no mundo dos negócios... A chamada de atenção foi para o facto de ninguém ser tão poderoso ao ponto de comprar a própria vida e adiar a morte se ela estiver destinada para o dia de hoje. E com a morte, vai-se todo o poder que se julga ter sobre os outros. Ninguém se deve achar mais importante ou mais poderoso que alguém, porque basta uma pistola carregada na mão desse mesmo alguém, para todo o poder que se julga ter, passar para o outro lado...
- Estou a ver que os tipos são cheios de morais.
- Mas não podem andar aí armados em Deus, a invadir a privacidade alheia e a assustar as pessoas ou pô-las a dormir à chuva no quintal ou a duzentos quilómetros de casa e a dez da povoação mais próxima. - Concluiu o Chefe Rodrigues.
- Mas tem uma certa piada... Tens de admitir!!! - O Doutor Jaime brincava um pouco com a situação insólita...
- Tem piada enquanto não tocar a um de nós a um familiar nosso...
- Falaste em quatro intervenções...
- As outras duas foram em Itália e em França... As velhas histórias do cão em casa e dono na rua e das velhas ricas a passarem a noite a quilómetros de casa, respectivamente...
- Fora de brincadeiras... Dá-me o número dos espanhóis que eu vou pedir ao departamento de informática para investigar na Internet, tudo o que tenha a haver com legiões, movimentos, bandos, organizações, seitas, partidos, relhas, etc... De certeza que é essa a grande arma dos gajos! Se conseguirmos prever o próximo passo dos tipos, conseguimos apanhar alguns e obrigá-los a falar.
- Faz isso que eu vou dando novidades...





7 - BRUXELAS, BÉLGICA
SEXTA, 19 DE SETEMBRO DE 2003:

Michela, era aos trinta e três anos, uma mulher com uma vida comum, igual a tantas outras vidas. Tinha uma casa, dois filhos e um marido que era um homem respeitado entre a comunidade belga.
Michela dançava sozinha a um canto enquanto o marido era chamado ao palco para discursar perante os convidados que estavam ali precisamente por sua causa... Era uma festa de homenagem ao homem que tinha usado parte da sua riqueza, para criar casas de abrigo e apoio a crianças abandonadas. Emanuel era um homem negro, de alta estatura, formado em sociologia e tinha um coração de ouro. Não sabia ao certo quem havia organizado aquela festa em sua homenagem, mas a mesma era representativa do reconhecimento da comunidade belga pelos seus serviços, e ele estava feliz por isso mesmo.
Michela, por seu lado, estava orgulhosa do marido, porque embora soubesse que qualquer pessoa tem um lado mau e um lado bom, poucos eram os que, como Emanuel, tomavam a iniciativa de explorar a parte boa de si próprios. Fazia um mês que pertencia a uma espécie de clube que se intitulava de Aliança de Salvação das Pobres Consciências, e sabia exactamente o que ia acontecer nos momentos seguintes, uma vez que a festa de homenagem ao seu marido tinha sido organizada por esse mesmo clube a que tinha aderido recentemente... Emanuel ia iniciar o seu discurso, quando se ouviu um tiro vindo por entre o público, e que atingiu o peito do marido de Michela... Emanuel sentiu uma dor enorme e andou dois a três metros para trás, com a camisa branca manchada de vermelho. Entre o público, o pânico fez-se notar pelos gritos histéricos das mulheres e os gritos mais contidos dos homens. Entre a confusão, ninguém conseguiu notar de onde veio o tiro, e tão-pouco era possível encontrar um suspeito no meio de tanta gente em alvoroço.
De súbito, dois homens com gorros que lhes cobriam os rostos, com excepção dos olhos, nariz e boca, entraram no palco de pistolas em punho. Um deles levantou Emanuel, que estava sentado no chão agarrado ao peito, e levou-o até perto do outro homem que se dirigiu até ao microfone. Este segundo homem abriu um envelope, de onde tirou uma espécie de carta, e começou a lê-la em voz alta, enquanto o primeiro abria a camisa de Emanuel e mostrava que, o que parecia ter sido um tiro a sério, não passava de tinta espalhada no peito de Emanuel...
- Caros convidados, fala-vos a organização da festa... Em primeiro lugar, queremos pedir desculpa ao Emanuel, que não estava a contar em levar um tiro. Embora seja só tinta o que vêm no peito deste homem, eu sei por experiência própria que isto dói um pouco e deixa mesmo uma pequena nódoa negra. O barulho que ouviram, veio das colunas e não da pistola que foi usada para o efeito, de modo a transmitir alguma credibilidade à encenação que planeámos. Não fosse o facto de nos termos lembrado de homenagear este homem em vida, e o reconhecimento do seu ilustre trabalho só havia sido reconhecido depois deste morrer, como se faz com tantos outros ilustres bem-feitores da nossa sociedade! Mas lembrem-se que é em vida que este homem pode ajudar as pobres crianças abandonadas por esse país fora, e não depois de morrer... Daí, o seu reconhecimento, deve também ser feito em vida! Se aquela bala de há pouco, fosse uma bala a sério, amanhã, muito provavelmente, a não ser que outra bem-dita alma investisse na continuação do trabalho de Emanuel, muitas instituições fechariam por falta de verbas, uma vez que ainda estão no início de um processo de desenvolvimento. Por isso mesmo, vamos reconhecer o trabalho daqueles que lutam por um mundo melhor, enquanto eles estão vivos, porque depois de morrerem podem fazer tanto ou tão pouco como aqueles que de nós nunca tomam iniciativas para explorar o lado bom e humanitário que temos dentro de nós. Vamos reconhecer em vida, aqueles que em vida merecem ser reconhecidos... Boa tarde, meus senhores!!! Continuem a vossa homenagem, porque nós já fizemos a nossa parte...







8 - LISBOA, PORTUGAL
SEGUNDA-FEIRA, 22 DE SETEMBRO DE 2003:

- Ouvi dizer que têm novidades para mim...
O Doutor Jaime acabara de entrar no departamento de informática da judiciária...
- Depois de uma selecção aprofundada que eu próprio fiz, cheguei a estes tipos... O que achas?! O nome é ou não sugestivo? - O perito de investigação informática apresentava os frutos do seu trabalho ao Doutor Jaime.
- Aliança de Salvação das Pobres Consciências!!! E, como acedemos ao conteúdo da página? Precisamos de códigos?!
- Sim... Mas há outra maneira... Inscreves-te na Aliança, numa página própria para o efeito, e passas a poder usufruir livremente de todo o conteúdo da página oficial.
- Foi só o que encontraste?
- Encontrei outras coisas, mas todas me pareceram muito mal organizadas para a tamanha dimensão que isto já tomou...
- De qualquer maneira, quero uma lista de tudo o que seja suspeito, para o caso dessa Aliança se tratar de um falso alarme.
- Toma... Já tinha preparado isso para ti. - Entregando uns papéis para as mãos do Doutor Jaime...
- Eu vejo isto em casa, a ver se consigo passar a ser membro da tal Aliança.
O Doutor Jaime resolveu que havia de concluir a investigação em casa, uma vez que estava concluída a hora de expediente, e ainda tinha de passar pela escola do seu único filho... A directora de turma do jovem, convocara o Doutor Jaime a comparecer na escola com o fim de falar sobre o filho que, ao que parecia, estaria metido em alguns problemas.


O investigador chegou à escola do filho, deviam passar uns dez minutos da hora combinada com a professora.
- Boa tarde, Doutora... Desculpe o atraso! - Cumprimentou.
- Boa tarde, senhor agente...
A professora acompanhou o homem alto de olhos e cabelos negros até ao conselho directivo, onde o director da escola já o esperava...
- Boa tarde, senhor agente. - O director do conselho directivo cumprimentou o psicólogo investigador da mesma maneira que o havia feito a directora de turma do filho.
- Boa tarde, senhor professor.
O director explicou ao Doutor Jaime, as razões que o levaram a convocá-lo até ali. O seu filho não ia às aulas, fazia mais de duas semanas e sem qualquer justificação dada...
- Como pode ser?!
- É como lhe digo... - Reforçou o director, a quem o investigador prometeu tomar medidas.
O Doutor Jaime saiu da escola, com os nervos à flor da pele, concluindo para si mesmo, que mesmo tendo tirado um curso de psicologia, não tinha sabido educar o seu filho de dezasseis anos da melhor maneira...
“Em que falhei?”, perguntou-se a si mesmo, camuflando de imediato e inconscientemente, quaisquer respostas que pudessem surgir...


- Ele não vem jantar e diz que chega tarde... - Esclareceu a esposa do Doutor Jaime, em resposta ao mesmo, por este ter questionado sobre o filho, aquando chegou a casa.
- Esse gajo não pára em casa... Tenho de ter uma conversa com ele. Nem que tenha que esperar por ele até às tantas.
- Mas, o que é que te disseram lá na escola para estares assim?
- Depois explico... Agora, tenho de ir ver uma coisa.


No computador, o Doutor Jaime dactilografou o nome da página de inscrição para a Aliança de Salvação das Pobres Consciências...
“BEM-VINDO” - Apareceu escrito em letras maiúsculas, e em inglês...
“Se estás interessado em inscrever-te na Aliança, lê as condições abaixo editadas, e responde ao inquérito que te será proposto” - Continuou a mensagem...
O Doutor Jaime leu as condições de adesão e concluiu que, realmente, os objectivos da Aliança não andavam longe daquilo que ele já desconfiava e que era, de facto, muito óbvio... Não passavam de uns tipos comandados por alguém que se intitulava de ‘O Cérebro’, que andava armado em Deus, a pregar sustos e a invadir a privacidade alheia de pessoas que ficavam condicionadas no que respeitava à sua liberdade.
“Aceito as condições de adesão acima referidas” - O investigador seleccionou a opção que lhe permitiria aceder ao inquérito destinado aos aspirantes a operadores.
Começou então, a responder às questões que, tal qual toda a página, estavam em Inglês.
“Nacionalidade?”
- Portugal.
“Naturalidade?”
- São Jorge de Arroios, Lisboa.
“País em que habitas?”
- Portugal.
“Como conheceste a Aliança?”
- Através de um amigo que pertence à mesma.
“Que idade tens?”
- Trinta anos. - Mentira na idade, uma vez que tinha quarenta e um anos.
“Habilitações literárias?”
- Licenciado em engenharia electrónica. - Podia ser importante mostrar conhecimentos nesta matéria, embora na realidade, não os tivesse.
“Outras habilitações, tais como cursos profissionais ou de línguas?”
- Curso de inglês e de francês, curso de informática e curso de tiro ao alvo. - Não mentira, desta vez...

“Localidade onde moras?”
- Na Amadora, mais propriamente na Reboleira. - Na verdade, morava em Lisboa, mais propriamente, na Graça.
“Praticas desporto? Qual ou quais?”
- Natação e tiro ao alvo. - Não mentira, mais uma vez...
“Refere características físicas, motoras, intelectuais e psicológicas que te tornem útil para a Aliança”
- Bom atirador, bom nadador, boa condição física, quociente de inteligência acima da média, dador de sangue (se é que isto interessa), bom a resolver enigmas e prático o bastante. - Eram realmente, os seus principais créditos.
“Línguas que falas correctamente?”
- Português, Inglês e Francês.
“Actividade profissional?”
O Doutor bloqueou por momentos, mas logo respondeu:
- Faço vistorias aos materiais relacionados com o meu ramo, numa empresa multinacional sediada em Portugal.
“Responda só Verdadeiro ou Falso:
a) Gosta de animais: Verdadeiro
b) Gosta de justiça: Verdadeiro
c) Gosta de natureza: Verdadeiro
d) Não gosta de animais: Falso
e) Gosta de flores: Verdadeiro
f) Não gosta de natureza: Falso
g) É justo: Verdadeiro
h) É amigo dos animais: Verdadeiro
i) Gosta de pessoas justas: Verdadeiro
j) Não quer saber nada de flores e natureza: Falso
Depois destas questões mais pessoais, embora sem nunca perguntar o nome do candidato a Operador, vieram algumas questões de classificação.
“ De 1 a 10, auto-analise-se quanto às seguintes características:
a) Sentido de humor: 6
b) Condição física: 7
c) Condição psicológica: 9
d) Condição intelectual: 8
e) Espírito de sacrifício: 8
f) Justiça: 8
g) Positivismo: 7
h) Gosto pela natureza: 9
Os testes que vieram a seguir, eram em tudo equivalentes aos testes de quociente de inteligência que já estava habituado a fazer por brincadeira ou passatempo. Não foi por isso, difícil resolver os exercícios em causa.
O tempo foi passando e era já uma da manhã quando o investigador acabou as provas todas... Pelo meio, comeu uma sanduíche que a sua esposa preparou e lhe levou até ao escritório.
“Os resultados ser-lhe-ão revelados amanhã, às dezoito horas. Para o efeito, use o nome a_op7884_por@aspc.com na sala electrónica privada que será propositadamente criada pelo Cérebro, para a revelação dos seus resultados e para uma avaliação pessoal. O nome da sala e como chegar a ela, serão informações que lhe serão dadas para o correio electrónico acima referido, até às dezasseis horas de amanhã.”
O Doutor Jaime leu a mensagem, fez uns apontamentos e por fim, desligou o computador... O sono começava a apoderar-se dos seus sentidos e resolveu que se ia deitar sem esperar para ter a tal conversa com o filho...


9 - DEPARTAMENTO DE INFORMÁTICA
NO DIA SEGUINTE E À HORA COMBINADA COM O CÉREBRO:

O Doutor Jaime seguiu as instruções que o Cérebro lhe havia enviado para o correio electrónico e foi até à sala de conversação electrónica que o mesmo havia criado para aquela avaliação pessoal. Quando lá chegou, já o Cérebro lá se encontrava.
Cérebro - Bem-vindo!
A_op7884_Por - Obrigado...
Cérebro - Deves querer saber se foste aprovado na pré-avaliação.
A_op7884_Por - Pré-avaliação? Pensei que já era uma avaliação a sério... Mas se não te importares, agradeço saber o resultado.
Cérebro - Foste aprovado, mas terás de passar pela segunda avaliação, daí eu chamar pré-avaliação ao que fizeste ontem.
A_op7884_Por - E, como é a segunda avaliação?
Cérebro - Já estás a passar por ela... É o que estamos aqui a fazer.
A_op7884_Por - Estás a inteirar-te da minha personalidade através de uma conversação por computador?!
Cérebro - Posso ser eu a fazer as perguntas?
A_op7884_Por - Claro, desculpa... Por onde queres começar?
Cérebro - Não consegues escrever nada sem pontos de interrogação, pois não?! Mas eu gosto disso...
A_op7884_Por - Ainda bem...
Cérebro - Estou a olhar aqui para a tua ficha, tens aqui umas coisas interessantes. O que faz um tipo de electrónica com um curso de tiro?
A_op7884_Por - É só por desporto... O meu pai era polícia e eu ganhei o gosto pelas armas!
Cérebro - Era?! Já não é?
A_op7884_Por - Morreu, há dois anos...
Cérebro - Lamento... Apreciei o teu quociente de inteligência. 148 é uma marca interessante.
A_op7884_Por - Um cérebro também deve ter um Q.I interessante...
Cérebro - 150. Que tipo de coisas fazes no dia-a-dia? Frequentas clubes desportivos ou de outro tipo?!
A_op7884_Por - Costumo andar por aí... Leio muito, nado bastante e dou uns tiros de vez em quando num clube de tiro em Linda-a-Velha, mais precisamente ao pé do estádio nacional.
Cérebro - O que costumas ler?! Policiais, romances, poesia?
A_op7884_Por - De tudo um pouco.
Cérebro - És um tipo de poucas palavras...
A_op7884_Por - Como sabes que sou um tipo e não uma tipa? Nunca me questionaste sobre o meu sexo...
Cérebro - Há outras maneiras de saber... Mas és bastante observador. Foi uma falha minha no interrogatório... Dás sempre conta das falhas dos outros?
A_op7884_Por - Sou bastante observador e dou conta de algumas coisas...
Cérebro - Então já devias ter reparado que falas de ti no masculino. És bom atirador, és bom observador, etc... A_op7884_Por - Bom observador, o nosso Cérebro...
Cérebro - É preciso algumas qualidades para se ser um Cérebro.
A_op7884_Por - De onde orientas as operações?! Ou as Lições, como tu lhe chamas...
Cérebro - Não cometas esse erro. Podes estar a querer ir com muita sede ao pote!!!
A_op7884_Por - Onde estás a querer chegar?
Cérebro - Sabes melhor do que eu... Mas eu gosto da tua pinta!
A_op7884_Por - Se tu o dizes!!!
Cérebro - O que te alimenta a vontade de seres um operador da Aliança?
A_op7884_Por - Na verdade, gostava mais de ser o mestre ou o Cérebro que um simples operador. Mas contento-me com isso, e vou dar o máximo de mim...
Cérebro - Não respondeste à minha questão...
A_op7884_Por - Alimenta-me a vontade de fazer justiça e de mudar as consciências apodrecidas.
Cérebro - Eu envio-te mais informações para o teu correio electrónico... Gostei de ti mas agora tenho de desligar. Espera por notícias minhas. Esta sala será eliminada a seguir à nossa conversa. Vai olhando o teu correio electrónico todos os dias, entre as dezasseis e as dezoito horas. FUI!!!





10 - VIENA, AUSTRIA
24 DE SETEMBRO DE 2003:

Arnold saiu do consultório do seu psiquiatra, haviam de ser umas quinze horas e trinta minutos... O médico acabara de lhe dar alta psiquiátrica, depois de uma fase má da sua vida, em que por diversas vezes tentou o suicídio, embora sem nunca ter conseguido chegar a vias de facto. Achava que levava uma vida triste, sem qualquer significado, e com muito sofrimento à mistura. Por esse mesmo motivo, volta e meia, dava consigo a tomar caixas inteiras de comprimidos - sorte, que chegava sempre alguém a tempo -, ou a apontar pistolas carregadas à própria cabeça - sorte, que chegava sempre alguém no momento certo -, ou subia às torres mais altas da capital austríaca com o objectivo de voar cá para baixo, num precipício que o levasse directamente ao abismo da morte - sorte, que chegava sempre alguém a tempo -, ou a transformar cordas em forcas caseiras, como tinha feito mais recentemente, quando por sorte, a empregada do hotel aonde estava hospedado, chegou a tempo de evitar que o pior acontecesse... Talvez a empregada do hotel nem desse conta dos planos de Arnold, não tivesse este, passeado a corda grossa para cima e para baixo umas dezenas de vezes, e a comentar consigo mesmo e em voz alta:
- Só me apetece é morrer... Só me apetece é morrer!!!
A empregada achou estranho e resolveu ir até ao quarto do hóspede verificar aquilo que era até então, somente uma suspeita... Deu com o homem a correr para a forca, depois de ter estado a tomar os comprimidos para a asma - não fosse morrer por outro motivo que não o enforcamento -, e a gritar:
- Vou-me matar, por isso não me impeça!!!
E a rapariga desatou aos gritos histéricos, alertando os restantes hóspedes e empregados do hotel, que logo impediram o homem de cometer o suicídio que, com tanto esforço e dedicação, havia preparado... Mais uma vez: Sorte, que chegou alguém a tempo.
A baixa psicológica e psiquiátrica havia agora cessado, e mais uma vez, uma fase má da sua vida estava ultrapassada. Pelo menos, durante dois ou três meses, a sua vida voltaria à normalidade... No emprego, os colegas dar-lhe-iam o habitual desconto do tipo “o gajo é maluco, por isso não ligues”, em casa, todos dariam atenção às suas ideias e ideais - mesmo que não concordassem com alguns dos seus pontos de vista -, até que o Universo à sua volta se esquecesse por fim das suas dificuldades a nível social e as pessoas deixassem de dar atenção às suas birras disparatadas e aos seus pontos de vista pouco interessantes e de um modo geral, vulgares...
Arnold saiu do consultório do seu psiquiatra e dirigia-se até à estação de Taxis no outro lado da rua, de modo a apanhar uma boleia paga até casa dos pais, aonde ainda morava, apesar dos seus trinta e dois anos de idade. A poucos metros de chegar à estação de Taxis, um taxista abordou-o:
- Se quer apanhar um Taxi, entre já no carro, porque a fila na estação é enorme, e não arranjará nenhum carro nem daqui por duas horas.
Arnold, que adorava ter a vida facilitada, não hesitou em entrar para o Taxi do simpático e prestável homem que o havia abordado.
- Muito obrigado pela sua atenção. Não sei como lhe agradecer...
O homem ao volante nada comentou e seguiu viagem por uma das principais avenidas da cidade.
- Como sabe que é por aqui, que eu quero ir?! - Questionou Arnold, admirado pelo motorista não lhe ter questionado sequer, sobre o caminho a tomar...
Mais uma vez, o homem nada respondeu, para preocupação de Arnold.
- Pare o carro, que eu quero sair aqui... - Pediu, de forma exaltada.
No entanto, o motorista seguiu viagem e virou à direita, num caminho que Arnold não conhecia muito bem, apesar de morar na cidade desde os quatro anos de idade.
- Pare, já disse!!! - Gritou...
E o homem parou pouco depois, não para que Arnold saísse do automóvel, mas para que entrassem nele, mais dois tipos, um alto e magro e um baixo e forte, que se sentaram respectivamente ao lado direito e ao lado esquerdo de Arnold.
- O que vem a ser isto?!
Nenhum dos homens abriu a boca para dizer, fosse o que fosse... Sem conversas, levaram-no para uma rua, aonde existia um enorme armazém velho e abandonado, que já havia pertencido a uma conceituada empresa de vestuário austríaca. Os dois homens vendaram os olhos de Arnold e arrastaram-no para fora do carro, que logo arrancou com o seu condutor, para lugar desconhecido...
- Não vejo nada! - Comentou Arnold...
Os dois homens que o levavam pelos braços, não resistiram a uma risada mútua. Como poderia querer ver, com os olhos vendados? Mas quando se tem medo e se está nervoso, diz-se destas coisas que sendo tão óbvias, parecem estúpidas aos ouvidos de quem ouve.
Entretanto, o carro desapareceu no cruzamento ao fundo da rua e os dois homens resolveram que já podiam tirar a venda ao coitado do Arnold... Este já não ia a tempo de recolher a matrícula do automóvel, e tão-pouco o devia ter feito antes de suspeitar de qualquer coisa, porque ninguém é tão receoso ao ponto de tirar matrículas de carros só porque há uma hipótese em um milhão de ser raptado pelos motoristas dos carros em causa.
- Para onde me levam? - Questionou, já com os olhos descobertos.
- Não vês? Para uma garagem... - Respondeu o tipo mais baixo, com um ar irónico.
Entraram no velho armazém e levaram-no para uma pequena sala que em tempos tinha servido de gabinete da direcção da antiga fábrica de vestuário. Sentaram Arnold numa cadeira de madeira já velha, e amarraram-no com uma corda grossa idêntica à que este tinha usado para a sua forca caseira, na sua mais recente tentativa de suicídio.
- Queres morrer? - Perguntou o homem alto e magro com um olhar ameaçador.
- Não!!!
- Mas porquê? Mudaste de ideias?! Até há tão pouco tempo atrás desejavas a morte com tanta ansiedade... - Comentou o outro tipo.
- Mas eu estava doente, agora já estou curado. - Ripostou Arnold.
- Até quando?! Estás curado, como estiveste das últimas vezes em que pouco tempo depois, te tentaste matar? - Voltou a intervir o tipo mais baixo...
- Matemos logo o homem... - Sugeriu o tipo alto e magro, enquanto tirava uma pistola do bolso do casaco de cabedal que trazia sobre as costas.
- Por favor, não quero morrer... - Gritou desesperado, Arnold.
- Mas daqui a uns tempos, hás-de querer, e assim acaba-se já com isto... Adeus sofrimento, adeus vida, adeus pessoas inúteis que nunca te compreendem. - O tipo alto parecia estar a dar a sentença final.
- Por favor, não me façam isso. Eu, na verdade, nunca quis morrer... Se eu quisesse realmente morrer, já o tinha conseguido, faz muito tempo. Foi tudo para ter a atenção e o amor das pessoas que me rodeiam... - Arnold desfazia-se em argumentos, misturados com gritos e lágrimas que lhe nasciam no desespero do momento.
- O que consegues com esse tipo de atitudes não é atenção e amor das pessoas, mas antes, pena e medo de ficar com a pesada herança de culpa por nada terem feito para evitar a tua morte... - Comentou o tipo que avançara com a proposta de acabar com a vida de Arnold.
- Estás livre, desaparece daqui... - Rematou o outro tipo, enquanto desfazia os nós da corda que prendia Arnold à cadeira...
Arnold não sabia ao certo onde estava, mas isso não interessava. O que interessava realmente, era desaparecer dali o mais rapidamente possível, antes que os tipos se arrependessem. Andou até ao fundo do quarteirão, mandou parar um Taxi que seguia em marcha lenta, mas logo se arrependeu e pensou para si mesmo que seria preferível apanhar um autocarro que o deixasse perto de casa dos seus pais. Andou mais dois quarteirões até que encontrou uma paragem aonde passava o autocarro que o levaria até ao destino pretendido. O autocarro veio após uns quinze ou vinte minutos de espera, e Arnold hesitou em apanhá-lo por vir quase vazio... No entanto, ganhou coragem e entrou no autocarro, consciente de que estava a ser compulsivo e vítima de uma doentia mania de perseguição. O percurso do autocarro até à paragem mais próxima da casa dos seus pais fez-se em cerca de meia hora.
Arnold ainda teve que andar cinco minutos a pé, e quando chegou, meteu a chave na fechadura da porta principal, abriu-a, e quando entrou, deparou-se com os seus pais e a sua irmã mais nova, na sala de estar, a verem um vídeo que lhes parecia despertar a atenção... Aproximou-se e reparou que era ele o protagonista da fita a que a sua família assistia. Os tipos tinham filmado a cena do armazém, e tinham conseguido que a fita chegasse a sua casa, primeiro do que ele próprio...



11 - LISBOA, PORTUGAL
SEXTA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 2003:

Sexta-feira! O Doutor Jaime tinha concluído o seu dia de trabalho e acabara de chegar a casa. Ia, mais uma vez, verificar o seu correio electrónico... O Cérebro tinha prometido dar-lhe notícias, mas desde essa última conversa até então, nenhuma mensagem do mesmo havia chegado ao endereço de correio electrónico que a aliança lhe havia atribuído. Podia ser que desta vez tivesse novidades... Ligou o computador, esperou o tempo destinado às tarefas de iniciação do sistema operativo e dos seus componentes, entrou na Internet e inseriu os dados que lhe permitiriam aceder ao seu endereço electrónico... Na página principal do endereço electrónico, apareceu uma mensagem comunicando a existência de uma mensagem nova. Só podia ser da aliança. Mais ninguém conhecia aquele endereço, a não ser o Cérebro da ASPC.
“Tens uma missão experimental, a desempenhar na próxima segunda-feira, pelas onze horas da manhã! A essa hora, precisamente a essa hora, tens de estar na Rua Padre Miguel Teodoro, em Linda-a-Velha. Pouco depois, entre as onze e cinco e as onze e doze, há-de vir o carteiro da zona... Quando o mesmo se preparar para distribuir as cartas pelas caixas de correio correspondentes ao número seis, tu entras no prédio fingindo-te morador do mesmo e perguntas-lhe se ele tem correio para o 3ºDir... Ele vai-te entregar os envelopes correspondentes a essa morada, entre as quais estará um envelope que tem como remetente uma empresa fictícia de nome ‘Artexpo - Exposições de Arte’. Depois do carteiro abandonar o prédio, vais repor todas as outras cartas na caixa de correio correspondente ao 3ºDir, e ficas somente com o envelope que te mencionei. No mesmo, estará uma carta com novas indicações. Boa Lição. P.S: Que aprendas muito com a mesma...”
O Doutor Jaime não teve a certeza de compreender esta última observação... O objectivo não era afinal, fazer alguém aprender com a Lição? Talvez houvesse uma moral para quem executa a tarefa... Talvez fosse essa a explicação de tal observação.
- Jaime, vem ao telefone que o teu filho quer falar contigo... - A esposa do investigador interrompeu o raciocínio do mesmo.
- O que é que ele quer?
- Diz que não vem jantar, mas eu disse-lhe que tinha de falar contigo para ver se deixavas.
- Agora não posso... Diz-lhe que pode ir jantar onde quiser.
A esposa do psicólogo criminal não quis discutir e não fez qualquer comentário. O seu marido assumia uma postura em relação ao filho que em nada lhe agradava... Desde o dia em que tinha sido chamado à escola do filho, o Doutor Jaime ainda não tinha tido a tal conversa que prometera ter com o mesmo, e tão-pouco fazia um esforço para que a mesma pudesse acontecer. Embora o desinteresse do investigador em relação ao filho irritasse profundamente a esposa do mesmo, esta não estava com disposição para entrar nas habituais discussões que nunca levavam a lado nenhum...
- Podes jantar fora de casa hoje, mas vê se começas a comer em casa, pois andas a levar uma vida um bocado fora daquilo que eu considero uma conduta normal. - Autorizou ao filho, a esposa do psicólogo investigador...


12 - RUA PADRE MIGUEL TEODORO,
EM LINDA-A-VELHA
SEGUNDA-FEIRA, 29 DE SETEMBRO DE 2003:

Onze horas da manhã de segunda-feira... Tal como as indicações do Cérebro, o Doutor Jaime encontrava-se na rua onde o carteiro havia de chegar poucos minutos depois. Verificou o número do prédio e esperou que o homem das cartas chegasse...
O carteiro chegou, quando no relógio do Doutor Jaime marcavam onze horas e sete minutos... O investigador aproximou-se de imediato e entrou no prédio, como se de um morador do mesmo se tratasse.
- Bom dia! Há alguma coisa para o terceiro direito?
- Talvez - enquanto vasculhava no meio dos restantes envelopes - Tenho, sim senhor... - Acrescentou o carteiro.
O carteiro entregou dois envelopes ao Doutor Jaime.
- Muito obrigado... - Agradeceu o suposto morador, enquanto verificava os remetentes de ambos os envelopes.
- De nada...
Lá estava o envelope de que o Cérebro lhe falava... O Doutor Jaime estava radiante com o sucesso da operação até ao momento. Executara a primeira parte da mesma tal como lhe havia sido solicitado pelo Cérebro da Aliança. Restava-lhe esperar que o carteiro abandonasse o prédio para que pudesse descobrir qual a segunda parte da operação. Não demorou muito para que o mesmo acontecesse. Era altura de conhecer as novas indicações do Cérebro... Precisava de conquistar a admiração e o respeito do mesmo, uma vez que aspirava conhecê-lo, ou pelo menos, aproximar-se o mais possível do mesmo... Depois, seria uma questão de tempo, deter o homem que tantas dores de cabeça lhe causava. Saiu do prédio, enquanto abria o envelope que continha a carta com as novas indicações do Cérebro. Recostou-se para um canto, onde tirou a carta que ansiava por ler.
“ Bom dia, ex-aspirante a operador:
Ex-aspirante, pois claro... Como é óbvio, não superaste as provas a que foste sujeito. Esta carta, não passa pois, de uma Lição... E qual é a Lição?, perguntas tu. Pois bem, não sei quais as tuas reais intenções em relação à Aliança, mas a Verdade é algo que prezo muito... E foi exactamente essa, a tua falha. E a Lição é exactamente esta que passo a explicar: Da próxima vez que inventares uma personagem para concorrer à Aliança, inteira-te se existe algum tipo de nacionalidade portuguesa, morador na Reboleira, licenciado em engenharia electrónica a trabalhar em vistorias de materiais relacionados com esse campo, com cursos de Inglês, Francês e Informática, com um pai polícia já falecido, e que para além de tudo isto, ainda é dador de sangue e pratica natação. De uma próxima vez que cries uma personagem, tem mais atenção a certos pormenores...
Assinado: O Cérebro, ASPC. ”



O Doutor Jaime não quis acreditar que tinha sido o alvo da Lição em que ele próprio colaborara com tanto entusiasmo. Por momentos, sentiu raiva de si mesmo, e culpa por ter sido tão pouco profissional. Devia ter calculado que o Cérebro da ASPC era alguém com acesso a todo o tipo de informações, e acima de tudo muito profissional nas selecções que fazia dos aspirantes a Operadores. Embora pouco satisfeito consigo mesmo, o Doutor Jaime tinha ainda esperança na resolução do caso. Ia guardar aquela carta e juntá-las às outras, talvez elas o levassem a algum lado...


13 - CHELAS, EM LISBOA
QUINTA-FEIRA, DIA 02 DE OUTUBRO DE 2003:

Luís entrou na rua onde costumava estar o tipo que lhe fornecia o produto... Fumava heroína com mais frequência, fazia menos de um mês, e era a quarta vez que se ia abastecer àquele sítio. Procurava Oscar, o tal tipo que lhe costumava fornecer, e que tinha sido indicado pelos tipos que o incentivaram a entrar naquele mundo como refúgio do aparatoso mundo em que estava habituado a viver... Não viu ninguém, e aproximou-se mais um pouco. Eram vinte horas e aquela era a hora a que costumava ir até àquele sítio, e onde habitualmente encontrava o Oscar. Estava envolvido em dúvidas sobre a certeza de estar ou não no local exacto, quando ouviu o ruído acelerado de um carro que se aproximou... O mesmo carro travou bruscamente, e do seu interior saíram quatro tipos de cabeça coberta e empunhando tacos de madeira. Os mesmos tacos de madeira serviram para sovar Luís, que sem saber porquê, foi vítima da ira dos malfeitores. Luís ficou sem qualquer defesa, e quando já estava estendido no chão, um dos tipos de capuz preto aproximou-se e colocou-lhe qualquer coisa no bolso do casaco.
O carro afastou-se e Luís levou a mão dorida ao bolso do casaco, de modo a investigar o que o tipo lhe tinha colocado no interior do mesmo. Era um papel dobrado em quatro... Sem ter forças para se levantar, Luís desdobrou a folha de papel e leu o que lá estava escrito.
“ Por seres filho de quem és, não és bem-vindo ao mundo em que tentas entrar... Se queres continuar a viver, afasta-te de tudo e de todos os que têm a haver com este mundo! Desta vez, foi uma tareia... Da próxima, não haverá tacos de madeira ao barulho, mas pistolas de munição real. Afasta-te... P.S: Por certo, ainda não precisas de qualquer tratamento mais aprofundado para te veres livre do vício, mas se tiveres algumas dificuldades e achares que precisas de alguma ajuda psiquiátrica, recomendo-te o Doutor Tomás, na Rua Professor Francisco Rios ao nº6, que actua de borla nestes casos. ”
Luís voltou a guardar o papel no bolso, de modo a relê-lo mais tarde com mais atenção, uma vez que não estava ainda em si. Ao fundo, Luís ouviu uma voz de uma mulher que gritava:
- Chamem uma ambulância, que está alguém no chão, encharcado de sangue...
- Não é preciso!!! - Gritou Luís, enquanto recorria às suas últimas forças, de modo a levantar-se e mostrar que estava aparentemente capaz de ir sozinho para onde quer que fosse.
Não queria, de modo algum, que os seus pais o fossem buscar ao hospital...




14 - BELFAST, IRLANDA DO NORTE
SEXTA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2003:

Noite de sexta-feira... John Keane ia ter finalmente, a oportunidade de actuar com a banda da qual era guitarrista. Era uma banda que ele próprio havia criado, fazia mais de três anos e meio. No entanto, a banda recebia poucos convites e com o pouco tempo que os membros do grupo musical dispunham para a mesma, esta acabou por suspender a sua actividade durante algum tempo... Mas, aquela era a noite em que o grupo teria a oportunidade de mostrar todo o seu potencial ao público presente naquele bar da capital. John Keane não sabia ao certo de onde tinha surgido aquele convite, assim quase por magia, precisamente na altura em que a banda tinha voltado ao activo. John achava que todo este processo se devia em muito, aos tipos que haviam criado a ilusão de uma bomba no seu carro... Desde então, as coisas corriam naturalmente bem. Em pouco tempo, recuperara a namorada, fizera as pazes com alguns familiares com quem tinha relações cortadas, largara o velho emprego e voltara a trabalhar na noite, voltara com a sua banda musical ao activo, recebia convites para actuar num dos bares mais conceituados da capital, e ainda tinha tempo para estar a ter aulas de canto e de voz, de modo a poder aventurar-se numa carreira a solo, um dia mais tarde.
- No palco, convosco, os NightGods... - Apresentou o tipo alto e franzino, que era gerente do conceituado bar da cidade de Belfast.
O concerto decorreu então, com o público presente a gostar do que ouvia, e com a banda a terminar a actuação com dois originais que foram muito bem recebidos pelos frequentadores do bar. No final, John Keane resolveu fazer uma homenagem pública a alguém que não conhecia:
- Obrigado a todos por estarem aqui presentes. Isto não tinha sido possível sem a colaboração de alguém que mudou a minha vida e me fez acreditar que, se vale a pena lutar pelos nossos sonhos, é enquanto estamos a vivos, e que estarmos vivos não é uma constante, mas antes um momento que devemos aproveitar e enfrentar com muita coragem e dedicação... A esses que me curaram, o meu eterno obrigado!



15 - LISBOA, PORTUGAL
TERÇA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2003:

À mesa com a esposa e com o filho, o Doutor Jaime era absorvido por pensamentos que lhe liquefaziam a mente... Não conseguia deixar de pensar na Aliança. Sentia que estava envolvido demais, e estava seriamente a pensar em passar a pasta do processo em causa, para outro investigador... Pouco ou nada tinha conseguido descobrir sobre os tipos da ASPC, e informações sobre o Cérebro da Aliança, eram mesmo nulas... Tão-pouco sabia, de que nacionalidade era o Cérebro. Precisava de algum tempo para si e para a sua família que parecia estar a atravessar uma fase menos boa, e o caso das Lições impostas por um clã de gente armada em Deus, estava a roubar-lhe todo o seu tempo e a modificar por completo todas as suas prioridades...
- Ainda não comeste nada! Estás sentado a esta mesa, mas definitivamente, não estás nesta mesa... - Comentou a esposa do Doutor Jaime.
- Estou a pensar em desistir do caso da Aliança... Talvez meta férias por uns tempos. Estou a precisar de me recompor psicologicamente.
- Que caso é esse? - Questionou o filho do investigador.
- Não interessa... É um caso como outro qualquer, mas eu ando cansado e não consigo dar conta do recado. E tu, dás conta dos teus recados?!
- Porquê essa pergunta, com esse ar de juiz?
- Porque quero saber se tens ido às aulas... E o que tens feito nos dias em que mal vens a casa...
- Já falei com o miúdo sobre isso, e não vale a pena bater na mesma tecla. Já está tudo resolvido... - Interveio a mãe do jovem sentado à mesa.
- Muito bem, não falemos disso então... Vou lá dentro reunir a papelada sobre o caso, para passar a pasta ao chefe. Ele sabe a quem há-de entregar o caso...
No escritório, o Doutor Jaime reuniu tudo o que tivesse relacionado com o caso da Aliança de Salvação das Pobres Consciências. Enquanto reunia a papelada referente ao caso, aproveitou para recordar algumas das Lições mais extraordinárias impostas pela ASPC. Desde cães que dormiam em casa no lugar dos donos que dormiam no quintal, passando por senhoras ricas que tiveram de passar uma noite na rua, sem esquecer os carros supostamente armadilhados com bombas fictícias, aos tipos desmascarados que tentavam por todos os meios credibilizar as suas constantes tentativas de suicídio, ou aos sequestros mais fantásticos com os fins mais bizarros, etc, etc, etc... Haviam, entre as muitas Lições já executadas em Portugal e no estrangeiro, algumas que eram realmente dignas de serem recordadas. Embora não hajam sistemas perfeitos, a Aliança ainda não tinha cometido qualquer erro que permitisse uma maior aproximação das entidades investigadoras, e o facto de não se saber o país de onde partiam as ordens, dificultava ainda mais o trabalho do Doutor Jaime. Este calculava que o Cérebro não fosse de nenhum país de língua oficial inglesa, uma vez que, embora claro, o inglês do Cérebro por vezes continha alguns erros de expressões que um especialista consegue detectar. Mas podia ser de qualquer outro país europeu onde a ASPC actuava... E, entre os países europeus, somente haviam quatro ou cinco que não eram alvo das artimanhas da Aliança. Era muito pouco ainda, o que o Doutor Jaime tinha reunido sobre o perfil do Cérebro... Calculava que era do sexo masculino, com uma idade jovem até aos trinta e cinco anos, pelos ideais radicais e métodos e linguagem que usava, mas nunca com menos de vinte e três ou vinte e quatro anos, pelo temperamento adulto que parecia aparentar... Talvez pertencesse a alguma seita religiosa, ou se não era esse o caso, talvez tivesse algum trauma infantil posteriormente desenvolvido na adolescência.



16 - AMSTERDÃO, HOLANDA
SEXTA-FEIRA, 24 DE OUTUBRO DE 2003:

Van der Gullit tomava - como habitualmente - o pequeno-almoço na pastelaria que ficava ao lado de sua casa... Pouco depois, iria para a esquadra aonde era polícia. Tinha sido um dos elementos, entre os polícias que tinham detido uns tipos da Aliança, na noite anterior... Enquanto tomava o pequeno-almoço, folheava as páginas do jornal e reparou que o mesmo já fazia referencia à detenção dos três operadores da Aliança. O jornal referia que um polícia holandês tinha conseguido entrar na Aliança através de uma identidade falsa e depois de se misturar com outros operadores na execução de uma Lição, conseguiu detê-los de modo a tentar saber algo mais sobre outros membros da Aliança com quem já tivessem trabalhado... O jornal referia ainda, que as informações arrancadas aos suspeitos em nada tinham contribuído para a evolução da investigação. O mais que conseguiram, foi que estes denunciassem outros cinco indivíduos com quem já tinham trabalhado, mas dos quais não tinham as informações necessárias para apurar as suas identidades. Os suspeitos aguardariam julgamento na prisão, e seriam ainda, sujeitos a novos interrogatórios.
“Como é que estes tipos dos jornais já sabem de tudo isto? O que é feito do segredo de justiça?”, questionou-se Van der Rud, perplexo com a tamanha perspicácia dos jornalistas, que conseguiam em pouco tempo, saber tanto como as próprias entidades investigadoras.
Mais à frente e no mesmo jornal, o jornalista responsável pela reportagem, recordava algumas das operações já desenvolvidas pelos tipos da ASPC.
“Quase posso fazer o relatório do meu trabalho, com a matéria desta reportagem”, pensou para si, mais uma vez, o polícia holandês...




17 - EM CASA DO DOUTOR JAIME
NO MESMO DIA, À HORA DE ALMOÇO:

Enquanto almoçava, o Doutor Jaime assistia na televisão, à notícia que acabara de chegar a Portugal... Três operadores da ASPC tinham sido detidos na Holanda, por intermédio de uma operação policial que envolveu um falso Operador que afinal era um polícia holandês. Quatro dias antes, no princípio da semana e na Alemanha, também dois tipos haviam sido detidos por um polícia que se fez passar por Operador da Aliança...
- Só eu, é que não consegui enganar o tipo que descobriu logo que a minha personagem não era credível. - Comentou com a esposa, que estava a almoçar, sentada a seu lado.
- Pelos vistos, os Holandeses e os Alemães foram mais cuidadosos a inventar os operadores fictícios... - Respondeu a esposa do investigador que se encontrava de férias desde há dois dias até então...
- Como pude ser tão burro? Claro! Como não pensei nisto antes?! O tipo é português e tem acesso a dados que só alguém que trabalhe dentro do ministério da justiça, na polícia judiciária ou na direcção geral dos registos e do notariado, podem ter... O resto, ele descobre através de telefonemas para instituições, dando os dados da pessoa que quer investigar e descobrindo se essa mesma pessoa mente acerca de alguma actividade que diz que fez ou faz. Mas lá fora, ele não tem acesso a esse tipo de informação e não consegue topar os tipos que lhe querem passar a perna...
- Vais voltar ao caso?!
- Não! Mas vou falar com o investigador que ficou com o caso, para lhe fornecer mais este dado importantíssimo. Tem de ser alguém que tenha acesso a dados secretos.
Mesmo tendo-se afastado oficialmente do caso, a esposa do Doutor Jaime sabia que este não era capaz de deixar de pensar no mesmo como um desafio que tinha de vencer.




18 - NA NOITE DESSE MESMO DIA
EM CASA DO CÉREBRO:

- Desculpa, mas não é por causa de dois ou três tipos que pensam que me vão apanhar, que eu vou desistir disto... É algo em que acredito, e é a primeira vez na minha vida que acredito em algo, e por isso vou continuar a fazê-lo...
Depois de ter dito isto, o Cérebro desligou o telefone e comentou sozinho para com as paredes:
- Deus queira que não seja preciso dar uma Lição a esta gaja...
O Cérebro também estava preocupado com a situação actual da Aliança, mas não pensava em desistir antes de achar que já tinha feito o suficiente... Embora não soubesse bem o que seria para si, o suficiente. É que, sem querer, aquilo estava a tornar-se viciante... E, de cada vez que tomava conhecimento do sucesso de uma Lição, era como se atingisse um orgasmo. Não tinha gostado muito das notícias da última semana, mas como em tudo na vida, há fases boas e fases más... E, esta era somente mais uma fase má da Aliança que havia de ser ultrapassada... Para que não pudesse haver mais nenhum polícia a camuflar-se na Aliança, o Cérebro tinha já arranjado uma solução! Ia fechar as inscrições para Operador da ASPC... Iria trabalhar, somente com os homens que já faziam parte da mesma, e que não eram assim tão poucos como isso. Para o outro problema que se tinha posto durante a mesma semana, iria recorrer aos métodos habituais e que estavam bem explícitos nas regras de inscrição na ASPC... Para os que na França, haviam usado a Aliança para vinganças pessoais, a pena só podia ser uma: a expulsão definitiva da ASPC... Seriam eliminados os seus números de operadores e as suas caixas de correio electrónico! E, talvez fossem ainda, alvos de uma Lição que ainda tinha de ser planeada pelo Cérebro.


19 - LISBOA, PORTUGAL
SEGUNDA-FEIRA, 27 DE OUTUBRO DE 2003:


O Doutor Jaime ouviu soar a campainha e dirigiu-se prontamente até à porta de entrada com o fim de verificar quem poderia ser... Quando abriu a porta, reparou que não estava ninguém à sua espera do outro lado. Mas tinha a certeza de que tinham tocado à campainha... Quando se preparava para fechar a porta, verificou que, aos seus pés estava um envelope sem remetente nem destinatário. Baixou-se para apanhá-lo e ponderou de imediato a hipótese de ser uma carta da Aliança. Mas como teriam chegado até si?! Abriu o envelope, e lá estava uma carta que tinha como remetente, o Cérebro da ASPC... Provavelmente, tinha sido seguido até casa no dia em que foi desmascarado pela Aliança. Só podia ser essa, a explicação... Começou a ler a carta, que estava escrita em português:
“Esta carta que recebes, distancia-se em tudo, do habitual procedimento da ASPC, nomeadamente pelo facto de estar a ser lida antes de seres sujeito à conclusão da Lição... E, a conclusão da Lição será no dia em que sentires que perdeste o jogo. O jogo em que entraste mas que não quiseste acabar... Desististe porque achaste que assim evitavas a derrota, mas não a evitaste. Antes, adiaste o dia em que te apercebes que perdeste... E, esta carta é destinada a esse dia! Até nem ias mal, e já descobriste até a minha nacionalidade! Uma conclusão muito perspicaz, a tua. Na conclusão desta Lição, vais-te aperceber que quando se entra num jogo, só se pode ganhar o mesmo se formos até ao fim com ele! Se desistimos a meio do jogo, o adversário acabará por ganhar, quer isso aconteça mais tarde ou mais cedo! Claro que também corremos o risco de perder, quando vamos até ao fim, mas perdemos com dignidade e com consciência de que nada pudemos fazer para ganhar o jogo, porque o adversário foi realmente mais forte... Mas o caso aqui, é que tu nunca hás-de saber se o teu adversário era mais forte, porque desististe antes de o descobrires, e o pior mal que se acomete no ser humano cairá sobre as tuas costas e será um fardo que carregarás durante toda a tua vida - a culpa!!! Porque pior do que perder, é saber que se podia ter ganho se pelo menos, se tivesse lutado para que isso acontecesse... Da próxima vez que entrares num jogo, não peças a alguém que o acabe por ti! No entanto, tens de saber jogar o jogo e não deixar que ele desequilibre a tua vida pessoal!!!”
- Como pode ele, saber tudo isto?! - Questionou-se o Doutor Jaime, sem saber onde procurar a resposta para tal enigma...



20 - ATENAS, GRÉCIA
QUARTA-FEIRA, 29 DE OUTUBRO DE 2003:

Anna encontrou-se com as outras Operadoras da Aliança, à hora previamente definida pelo Cérebro... As indicações do Cérebro tinham sido bem assimiladas por todas as Operadoras, e Anna estava consciente do que ia fazer. A noite anterior tinha sido talvez, a última noite passada ao lado do, ainda, seu marido... Anna sabia que não devia perguntar nada às restantes Operadores, nem devia tentar saber nada sobre qualquer uma delas, mas não resistiu em perguntar:
- Já alguma de vocês fez um trabalho deste género?!
- Eu nunca fiz isto, embora ache que é bem feito para o gajo... - Respondeu uma das Operadoras.
- Não nos prenunciaremos sobre isto, pois consta que está entre nós, a esposa do tipo. - Comentou outra...
- A coitada vai ter a oportunidade de se vingar... - Disse ainda Anna, disfarçando e dando a entender que não era ela a esposa da próxima vítima da ASPC... De qualquer forma as outras iriam sabê-lo mais tarde ou mais cedo.
Entre as mulheres ali presentes, duas delas não abriram sequer a boca para dizer fosse o que fosse, limitando-se a cumprir à risca, as regras estabelecidas pelo Cérebro.
Chegaram a casa do tipo pouco depois, e estava na hora de saber quem era, entre aquelas mulheres, a que durante anos a fio, tinha sido vítima de constantes maus-tratos por parte do desgraçado a quem todas dariam uma Lição.
- Qual de nós tem a chave desta casa?
- Eu tenho! - Respondeu Anna, olhando os olhos da mulher à sua frente.
- Estamos aqui todas para te vingar... - Respondeu uma outra Operadora.
- A ti e a todas as outras mulheres que tiveram de passar por situações idênticas à tua. - Comentou uma das mulheres que ainda não tinha dito nada até então.
- Eu não estou aqui por vingança pessoal, porque está bem explícito nas regras da Aliança que não é esse o nosso objectivo. Estou aqui para dar uma Lição a alguém que tem de aprender com a mesma. - Afirmou Anna, convencida do que estava a dizer. No entanto acrescentou:
- Mas não voltarei a esta casa, depois desta noite...
Mais ninguém disse nada, conscientes de que já tinham falado demais... Estavam ali para cumprir uma missão! O ainda marido de Anna devia entrar em casa, dez a quinze minutos depois... Iam esperar pacientemente.
Hassan chegou a casa, depois de um dia de trabalho, obviamente cansado de passar o dia a carregar sacos de cimento... No entanto, Hassan estava sempre pronto a gozar dos prazeres do corpo da sua bonita esposa. Aproximou-se desta e num jeito provocador, pediu-lhe:
- Vamos até ao quarto um bocadinho...
- Não me apetece! - Respondeu Anna.
Hassan, que não era homem de ficar satisfeito com respostas negativas, deu um valente estalo na sua esposa e voltou a insistir:
- Vê lá se ainda não te apetece... Se calhar apetece-te e não te lembras. - Acrescentou de forma irónica.
Anna seguiu em passos lentos até ao quarto, onde abriu a porta devagar...
- Anda, despacha-te... - Resmungou Hassan, enquanto empurrava bruscamente a sua esposa.
Anna entrou e Hassan entrou logo atrás... Como o quarto estava escuro devido às persianas fechadas, Hassan acendeu a luz no interruptor que estava situado na parede ao lado direito da porta... Ao acendê-la deparou-se com quatro mulheres sentadas sobre a sua cama.
- O que é isto?! - Perguntou, perplexo...
- Anda cá! Não gostas de gajas? - Interveio uma das mulheres, enquanto lhe apontava uma arma à cara.
- O que vem a ser isto? - Questionou, mais uma vez.
- É a minha festa de despedida... - Respondeu ironicamente, Anna.
Hassan não percebia o que se estava a passar, mas não ia responder à circunstância de ter uma arma apontada à cabeça.
- Eu estou muito cansado do trabalho e não me apetece brincar. - Respondeu apenas, debaixo dos nervos e do medo que se começava a manifestar nos seus gestos...
Uma das mulheres prendia os braços de Hassan atrás das costas, com a ajuda de umas algemas próprias para o efeito.
- Por favor...
- Cala-te!!! - Anna interrompeu o que o marido ia dizer...
Perante uma demonstração de força superior, Hassan era tão cobarde como a sua frágil esposa o tivera sido durante tantos anos, quando este abusava da sua condição física acima da média.
- Deita-te na cama... - Ordenou a mulher da pistola.
Outra mulher foi de imediato prender os pés de Hassan com umas algemas idênticas às que tinham servido para lhe prender as mãos atrás das costas. Anna aproveitou para começar a prender o marido à cama, com a ajuda de três cordas grossas que as Operadoras tinham trazido para o efeito... Por fim, a mulher da pistola largou a mesma em cima da mesinha de cabeceira e tirou do bolso, uma espécie de autocolante que colocou sobre a boca de Hassan.
- Vou furar esse corpinho todo... - Afirmou uma das Operadoras, enquanto reunia uma série de agulhas que trazia dentro do que parecia ser uma caixa de fósforos.
- Deixa-me ser eu a fazer isso... - Solicitou Anna.
Afinal, e ao contrário do que tinha dito meia hora antes, Anna tinha sede de se vingar das tareias a que tinha sido sujeita durante os sete anos de casamento. Pegou nas agulhas, e uma a uma, espetou-as pelo corpo de Hassan, que gritava baixinho, abafado pelo autocolante sobre os lábios... As dores deviam ser insuportáveis, pela maneira como o tipo contorcia o corpo.
- Não és assim tão forte agora, pois não? - Provocou Anna, enquanto a cara de Hassan se encharcava de lágrimas.
- Deixa o resto connosco. Vai reunir as tuas coisas para irmos embora daqui. - Propôs uma das Operadoras.
Anna retirou-se do quarto, onde as mulheres que ficaram, se encarregaram de uns murros, de uns estalos e de uma jarra sobre a cabeça desprotegida de Hassan... Até que por fim, a mulher que tinha trazido a arma, a retirou da mesa-de-cabeceira e apontando-a à cara do homem indefeso à sua frente, questionou:
- Estás a ver a arma que te fez quase mijares-te de medo? É como tu! Parece que mete medo, mas na verdade é só aparência. - Enquanto carregava no gatilho, e do interior do cano da pistola saiu um esguicho de água que ensopou a camisa ensanguentada de Hassan...
Antes de se retirarem do quarto, uma das Operadoras da Aliança, ainda se virou para trás e comentou com o homem humilhado:
- Aguarda pelo recado, que não tarda te chegará às mãos...





21 - LISBOA, PORTUGAL
QUINTA-FEIRA, 30 DE OUTUBRO DE 2003:

- Adeus, Senhor Doutor.
- Adeus... Continuação de um bom dia! - Despediu-se o Doutor Tomás.
O Doutor Tomás, dava, desde que pertencia à Aliança, algumas consultas grátis a jovens que iam recomendados pelo Cérebro. Este seu último paciente estava a tentar manter a distância do mundo das drogas... Não era propriamente dependente, mas precisava de se manter afastado desse mundo destruidor, se não quisesse caminhar para essa condição! Era essa, a função do psiquiatra... Era uma espécie de tratamento de pré-toxicodependência, através de uns medicamentos placebos que supostamente fariam o paciente sentir-lhe melhor, umas conversas de rotina e a confrontação com alguns casos de vidas destruídas por causa do flagelo da droga. Em pouco tempo, este jovem, não só esqueceria a vontade de tomar drogas, bem como, tentaria persuadir alguns outros jovem a não se iniciarem nessa estrada para o abismo. Ao psiquiatra, Doutor Tomás, este jovem de nome Luís, fazia-o lembrar os seus tempos de juventude... Era um rapaz rebelde, com bastante vida, mas pouco consciente das suas acções, tomando algumas opções duvidosas no seu dia-a-dia. Também o médico, tivera na sua juventude, quem o ajudasse a tomar o rumo certo, para fugir às armadilhas próprias da idade. Como tal, resolveu, também ele, ajudar alguns jovens, aceitando o desafio do Cérebro, que não conhecia pessoalmente. Embora psiquiatra, não se atrevera a traçar o perfil psicológico do Cérebro, talvez com medo de descobrir que tinha tomado, mais uma vez, a opção errada ao aderir à Aliança. Preferiu pensar que esta, era uma maneira diferente de ajudar as consciências que todos os dias eram alvo do seu trabalho.


22 - ATENAS, GRÉCIA
NESSA MESMA QUINTA-FEIRA, 30 DE OUTUBRO DE 2003:

- Quer dizer que as senhoras, entre elas a sua esposa, o prenderam à cama e o humilharam? - O subchefe da polícia local interrogava o tipo que tinha sido sujeito a uma Lição por parte da Aliança.
- Foi exactamente como lhe digo... E depois, foi-se embora e ainda não apareceu em casa desde então. - Respondeu o homem, referindo-se à esposa, que era uma das operadoras envolvidas na Lição.
Do lado de fora da sala onde decorria o interrogatório, dois ou três agentes da polícia, assistiam ao interrogatório através de um ecrã que transmitia toda a acção a decorrer dentro dessa mesma sala. Riam-se às gargalhadas, desfruindo daquele momento hilariante, num interrogatório provocante, levado a cabo por parte do subchefe da unidade.
- E, depois de lhe espetarem agulhas no corpo, ainda lhe mostram que a arma que o fez mijar-se de medo, é uma simples bisnaga. Mas isto é, no mínimo, hilariante... - O agente não resistiu à tentação de mandar uma forte gargalhada, mas logo se conteve e continuou na sua intervenção:
» E, para além de tudo isto, o senhor garante-me que tinha uma vida matrimonial dentro dos parâmetros normais, e não compreende por isso, a atitude da sua esposa.
- Exactamente, senhor... - Ripostou.
- Então, o que me diz a esta carta?!
- Que carta é essa? - Questionou o homem que tinha sido sujeito à tortura de cinco mulheres doidivanas.
- É a carta que nos chegou, a dizer onde o encontrar, porque você precisava de ajuda... Sabe que tem um anexo que diz que é para si?!
- Então, dê-mo...
- Em vez disso vou lê-lo em voz alta, para que fique registado. Diz o seguinte: “Para que nunca mais tenhas que sofrer este tipo de humilhação, nunca mais faças a uma mulher, o que fizeste à tua... Não humilhes para que não sejas humilhado, porque o Universo vai passar a teimar em devolver-te tudo aquilo que lhe dás. Estamos de olho em ti! A tua próxima tarefa será assinares os papéis do divórcio e esqueceres tudo o que se passou neste dia. Caso contrário, a ainda tua esposa também não esquecerá as constantes humilhações a que foi sujeita durante o tempo em que esteve contigo, não esquecerá cada uma das nódoas negras saradas na pele mas ainda presentes na alma, não esquecerá cada uma das manhãs em que se justificou falsamente perante os vizinhos ou os colegas, por causa de um olho mal tratado ou um osso quebrado, e sobretudo, não esquecerá que existem meios judiciais para tratar deste tipo de casos. Alguém, em princípio um advogado, há-de entrar em contacto contigo durante os próximos dias... Aguarda por novas indicações!”
- Isso é tudo falso, senhor...
- Não precisa de se justificar, porque não há qualquer queixa contra si, mas no entanto deve pensar duas vezes, se ainda quer manter queixa contra a sua esposa e as outras quatro senhoras não identificadas neste processo.
- Preciso de pensar, pois estou muito confuso com esta história.
- Com certeza... Então vá para casa e volte quando tiver esclarecido as suas ideias! - Propôs o subchefe que sabia que aquele homem não ia voltar...






23 - LISBOA, PORTUGAL
NA NOITE DESSA MESMA QUINTA-FEIRA, DIA 30 DE OUTUBRO DE 2003:

O Doutor Jaime iniciara a sua última refeição do dia, quando alguém tocou à campainha.
- Deve ser para ti... - Dirigindo-se ao filho, que também estava sentado à mesa, desfrutando do jantar preparado pela esposa do psicólogo investigador.
O rapaz levantou-se e dirigiu-se à porta com o afim de verificar quem estava do outro lado. Ao abrir a porta, deparou-se com uma jovem que devia ter mais ou menos a mesma idade que ele, ou seja, uns dezasseis anos, aproximadamente.
- Olá, deves ser o Luís. - Cumprimentou a rapariga, enquanto o investigador parecia confirmar que era apenas uma visita para o filho.
- Sim, sou... Conheço-te?!
- Não. Na verdade, vim falar com o teu pai, o Doutor Jaime.
- Comigo? - Interveio o próprio Doutor Jaime, que ouviu as palavras da jovem.
- Sim, se não se importar... - Ripostou a rapariga.
- Claro! Entre, por favor... Desculpe, estávamos a jantar! Em que posso ser útil? - Enquanto se levantava e limpava o lábios com um guardanapo de pano bordado pela sogra e oferecido no natal passado.
- Sou eu quem pede desculpa por estar a interromper a vossa refeição, mas o assunto é realmente importante... Se não se importa, gostaria de falar a sós consigo. - Solicitou.
- Eu não tenho segredos com a minha família, pode ir directa ao assunto.
- Trata-se de um assunto relacionado com a chamada Aliança de Salvação das Pobres Consciências e eu sentir-me-ia mais à vontade se pudesse falar consigo a sós. - Insistiu a jovem, que para além de ser muito bonita e elegante, parecia ter uma personalidade forte.
- Claro, vamos até ao meu escritório. Peço desculpa por não ter compreendido antes... - Respondeu o investigador.
O Doutor Jaime acompanhou a rapariga até ao seu escritório, aonde ficaram a sós.
- Disse-me que se tratava de um assunto relacionado com a Aliança. Desembuche...
- Eu conheço o Cérebro. - Desembuchou.
- Conhece? Tem a certeza do que está a dizer?
- Claro. Sou namorada dele. - Revelou a moça.
- Mas você parece ser muito nova. Desculpe-me a indiscrição...
- E sou. Mas mesmo assim, sou mais velha do que ele.
- Como?!
- Ele tem somente dezasseis anos. Eu já vou a caminho dos dezoito...
- Perdoe-me, mas custa-me a querer que isso seja verdade...
- Compreendo! Só estou a contar-lhe isto, porque sei que já não está a comandar as investigações deste caso, e que posso chegar a um acordo consigo...
- Que tipo de acordo? Onde está a querer chegar?
- Eu digo-lhe quem é o Cérebro e você promete-me que ele não terá problemas com a justiça...
- Porque me diria quem é o Cérebro, se não quisesse que ele tivesse problemas com a justiça? Qual é o seu objectivo? Foi ele quem a mandou vir negociar comigo? - O psicólogo criminal rematava agora, questões atrás de questões...
- Não! Não foi ele quem me mandou falar consigo, e tão-pouco sabe que eu estou aqui. Provavelmente, ele não vai gostar nada da minha atitude, mas eu acho que é hora de ele parar com estes jogos. O que eu quero de si, é que vá falar com ele e que o ameace com a justiça, para que ele possa parar de uma vez por todas com isto, que já está a ir longe demais... Já conheço casos de pessoas que usam o nome da Aliança para vinganças pessoais, e não era esse o objectivo dele. No entanto, ele é o único que tem poder para quebrar a rede de uma vez por todas, eliminando-a e comunicando a sua extinção aos Operadores, e não arranjo outra forma de o convencer a fazer isso, senão esta.
- Porque havia eu de a ajudar? Mesmo que não me queira dizer quem é esse jovem, não será difícil fazer uma investigação e chegar à conclusão de quem é o seu namorado.
- Porque se, hoje em dia, o Luís não se mete na droga, pode agradecer a esse mesmo jovem de quem fala. - Respondeu a rapariga, elevando um pouco o seu tom de voz.
- O meu filho?!
- Sim, o seu filho... Enquanto você andava preocupado com questões profissionais, o seu filho estava a cair cada vez mais nas teias da droga, e foi o meu namorado que, através dos seus métodos, o convenceu a largar esse mundo de merda aonde já estava enfiado.
- Não pode ser. - Comentou.
- Mas, é a mais pura verdade... - Ripostou a moça, para continuar logo a seguir:
» Mas se não estiver interessado em ajudar quem ajudou os seus, eu deixarei que proceda com essa tal investigação de que fala... Pode ser que passe a dormir melhor por causa disso.
- Vamos lá ter calma... Eu ainda estou um bocado confuso com a sua revelação. Chego à conclusão que tenho sido um péssimo pai, e que foi um miúdo de dezasseis anos, que até há bem pouco tempo eu odiava, que fez o milagre de tirar o meu filho das teias da droga... Esteja descansada que vou fazer o que me pede. Mas tenho uma ideia melhor, do que ir simplesmente falar com ele!
- Que ideia?! - Questionou a rapariga, já bastante mais calma.
- Saberá na altura certa... Não se preocupe, que vai correr tudo bem.
- Mas por favor, prometa-me que nada de mal acontecerá ao meu namorado...
- Prometo... Em breve, tudo voltará à normalidade e ninguém sairá prejudicado. Nem mesmo o seu namorado!
- Obrigado por me ouvir, Doutor. Está aqui um papel com os dados pessoais do André. E desculpe os meus nervos, mas esta situação altera-me... Quanto ao seu filho, tenha paciência com ele! O André disse-me que ele é um óptimo rapaz...
- André é um bom nome para um Cérebro... O meu cunhado também se chama André e é uma pessoa bastante inteligente. Já agora, mais uma questão?
- Força... Ponha a sua questão.
- PORQUÊ?!
- Porque o André, num acidente de viação aos treze anos, perdeu o pai e ficou destinado a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. O André acha que foi no momento em que se viu privado do pai e das actividades que podia executar com as pernas, que atribuiu o verdadeiro valor a ambas as coisas. Revoltado, pôs em causa a maneira como Deus actuava para mostrar isso às pessoas, sem lhes dar uma segunda oportunidade. Resolveu então, ser ele a fazer isso... Na escola, dava Lições aos colegas, que passavam a dar mais valor às coisas de que gostavam depois de perdê-las, reencontrando-as sempre, mais tarde. Entretanto, as Lições passaram a abranger outro tipo de métodos mais alargados, bem como se alargaram a um maior número de pessoas. Mais recentemente, o André passou a usar a Internet como arma, angariando alguns Operadores que executavam as Lições que ele planeava. Ao princípio, a ideia era actuar só em Portugal, mas depois acabou por se alargar ao resto da Europa...
- O André deve ser uma pessoa bastante inteligente, e com muitos conhecimentos de informática e de electrónica, bem como da língua inglesa, pelo que vejo...
- De facto... É um autêntico Cérebro. As notas dele, são talvez, das mais altas de todas as escolas do país. A juntar a isto, o André é um curioso e um génio informático como poucos... Consegue mesmo, ter acesso a informações que todos julgamos serem as mais bem guardadas do mundo, através de um clique no teclado do seu computador pessoal. - Respondeu a jovem...
O Doutor Jaime, esse, ouvia atento todas as revelações da namorada do Cérebro, surpreendido principalmente, com o facto de se tratar de um miúdo com apenas dezasseis anos...




24 - LISBOA, PORTUGAL
SEXTA-FEIRA, 31 DE OUTUBRO DE 2003:

- André, está aqui a Inês! - A mãe do Cérebro interrompeu-o durante uma conversa que este estabelecia na Internet, com um dos muitos Operadores da Aliança.
- Ela que entre... - Solicitou André, enquanto interrompia a conversa e se despedia do Operador com quem estabelecera contacto.
- Olá, amor. Vim buscar-te para irmos dar uma volta... - Comunicou Inês, que namorava com André, fazia para mais de dois anos e meio. Ambos sabiam que não era muito normal nas suas idades, existirem relacionamentos com tão larga duração, mas sentiam-se realmente bem um com o outro, e daí o sucesso do namoro.
- Não estava à espera, mas alinho... Deixa-me só vestir uma camisa lavada.
- Claro! Espero por ti na sala de estar...


Pouco depois, André apresentou-se na sala, locomovendo-se através da cadeira de rodas aonde estava destinado a passar os restantes dias da sua vida.
- Vamos... - Propôs.
- Claro, vamos! Até logo Dona Marta... - Inês despediu-se da mãe do seu namorado.
- Até logo, mãe...
- Até logo, portem-se bem... - Despediu-se a senhora loura, de cabelos encaracolados.
O casal de namorados desceu a rampa ao lado das escadas, que os levava do rés-do-chão do prédio até à porta de saída do mesmo, e que estava ali colocada de propósito por causa da situação de André. Já na rua, foi Inês quem escolheu o rumo a seguir, empurrando a cadeira de André pela berma da estrada até ao jardim que ficava a dois quarteirões da rua aonde este morava.
Ao chegar ao jardim, Inês pediu a André que aguardasse ali, enquanto ia comprar dois gelados ao café que ficava do outro lado da rua.
Enquanto observava Inês a atravessar a rua, André foi surpreendido por um homem que o pareceu reconhecer.
- Olá André... Não te lembras de mim pois não?
A cara do homem não lhe era realmente desconhecida, mas André não soube responder, sem que antes fizesse uma espécie de exercício de memória. Depois de alguns segundos, respondeu num tom de voz surpreso:
- Doutor Jaime?! Como pode ser? Não me diga que foi a Inês?!
- Sou eu mesmo... Pareces surpreendido. A Inês foi descoberta por uns colegas meus e foi obrigada a denunciar-te, bem como a trazer-te até aqui para que pudéssemos fazer a tua detenção sem que a tua mãe fizesse um escândalo! Penso que não te importarás que a tua detenção seja mais discreta, sem que os teus vizinhos se apercebam que têm um criminoso no prédio...
- Mas eu não sou um criminoso! - Justificou-se André, de forma agressiva.
- Segundo a lei, muito do que tu fizeste é considerado crime. Mas terás direito a um advogado, e será em tribunal que se vai chegar à conclusão se és ou não um criminoso. - Explicou o investigador.
- Eu sou menor. Não posso ser preso! - Reclamou ainda...
- Há outras formas legais de te castigar. É a justiça que saberá o que vai fazer com o Cérebro de uma rede criminosa internacional, não eu... Por favor acompanha-me até àquele carro, onde estão mais dois agentes ansiosos de te conhecer. E não tentes fugir, porque não há meio de escapares... Embora não pareça, tenho-te cercado! E depois, nessa cadeira, não irias muito longe, porque os acessos também não são assim tão bons. Afinal, estamos em Portugal...
- Não tentarei fugir. Apanhou-me quando eu menos esperava... Julgava que tivesse desistido de me tentar apanhar!!!
- Foste tu, quem me fez querer que o jogo ainda não tinha acabado... Acreditei nas tuas palavras! Não era esse o teu objectivo. - Provocou o polícia.
- O que me vai acontecer agora? Diga-me sinceramente a sua opinião... - Interveio André, já a caminho do carro que o Doutor Jaime lhe indicara.
- Em breve saberás... - Respondeu apenas, o psicólogo investigador.
Já dentro do carro, e depois de ter entrado com a ajuda do Doutor Jaime, os outros dois homens de que o Doutor Jaime falara, cumprimentaram o jovem.
- Com que então, armado em Deus!!! - Comentou um deles.
- Para Deus, falta-lhe ser um bocado mais gordo para ser mais omnipresente. - Brincou o outro.
O Doutor Jaime, que era quem dirigia o automóvel, seguia calado e sem fazer qualquer comentário...
- Vocês andam sempre à paisana?! - Questionou o rapaz, estranhando que nenhum dos homens se apresentasse fardado na sua detenção.
- E quem disse que nós somos polícias? - Perguntou o homem que brincara com o trocadilho da omnipresença, e que era o mais gordo dos três adultos presentes no carro.
- O Doutor Jaime... Porquê? Não são?!
- O Doutor Jaime é... Nós somos simples cobaias de uma Aliança que diz salvar consciências! - Respondeu o outro tipo com um aspecto magricelas.
- Não te esqueças que eu também sou uma das cobaias, não sou só polícia. Aliás, eu hoje não sou polícia... Sou um simples mortal que se quer vingar de um miúdo atrevido. - Interveio o Doutor Jaime.
- Vingar? Devem estar a brincar comigo... Quero ir para a polícia! Eu confesso tudo o que fiz... - André começava a ficar desesperado com a conversa entre os três tipos presentes no automóvel que o levavam, sabe-se lá para onde...
Os três homens mantinham o diálogo entre eles, desprezando por completo, todas as intervenções do jovem Cérebro da Aliança...
Ao chegarem a um local descampado, pararam o carro e saíram... O tipo mais gordo foi o último dos homens adultos a sair e trazia André agarrado pelos braços.
Ao sair do carro, André deparou-se com uma árvore onde estava uma cadeira amarrada, e aonde o tipo gordo o sentou. De seguida, o Doutor Jaime prendeu o braço esquerdo do jovem à cadeira com a ajuda de umas algemas próprias para o efeito...
- O que me vão fazer? - Insistiu André.
- Depende! Só tínhamos planeado as coisas até aqui. Agora depende do julgamento que cada um de nós fizer, e de certeza que chegaremos a um acordo sensato. - Ripostou o polícia.
- Por mim, encharcava-o de água gelada e deixava-o aqui até alguém o encontrar... Que era para ele aprender o que é passar noites à chuva e ao frio! - Respondeu o tipo mais magro...
- Eu, por mim parava com isto por aqui e entregava-o lá na esquadra, e que façam dele o que quiserem. Já lhe pregámos um susto! Acho que já chega... - Propôs o psicólogo criminal e investigador.
- Vocês são doidos!!! A única solução possível para o desfecho disto é matar o puto! Se não, vejam... Se o deixamos aqui ao frio neste descampado, o mais provável é que só o encontrem na segunda-feira, e com este frio, por essa altura o puto já deve estar morto. Depois, vão investigar as marcas do carro, as impressões digitais e todas essas coisas e mais tarde ou mais cedo hão-de chegar a nós. Se o levarmos à polícia, como ele é menor, o mais provável é que amanhã esteja na rua e volte à actividade como Cérebro da tal Aliança. E, se for preciso, ainda seremos acusados de ter usado da força e de termos humilhado um menor de idade indefeso... Mais uma vez, quem se lixa, somos nós. Soltá-lo, nem pensar numa coisa dessas, porque vai querer vingar-se de nós e vai fazer-nos a vida negra! Por isso, o que eu sugiro é o seguinte... Matamo-lo e levamos o corpo do puto para qualquer lado onde nunca possa ser descoberto... - A proposta do tipo gordo era a mais argumentada, e pelo olhar dos outros dois homens, parecia ser a mais sensata.
No entanto, o Doutor ainda tinha uma dúvida:
- E que sítios sugeres para deixar o corpo do miúdo?
- Tu deves saber melhor do que eu... Afinal, tu é que és o polícia e sabes os sítios onde eles nunca procuram!
- Claro!!! Acabei de ter uma ideia genial...
A expressão do Doutor Jaime, assustou ainda mais André, que pouco antes julgou tratar-se de uma brincadeira, mas que no momento parecia já estar convencido da veracidade das intenções daqueles três homens. No entanto, tinha a boca tapada por um adesivo e nada podia dizer em sua defesa...
- E o que sugerem? Um tiro?! - Perguntou o tipo mais franzino.
- Tenho uma ideia melhor... Vai à bagageira do carro e trás uma mala que lá está, que parece uma espécie de caixa de primeiros-socorros. - Solicitou o Doutor Jaime.
O homem magro assim o fez, e levou até ao psicólogo criminal, uma espécie de mini mala de primeiros socorros que estava na bagageira do automóvel. O Doutor Jaime retirou dessa mesma mala, uma seringa aonde introduziu um líquido que estava num outro frasco, até então selado.
- O que é isso? - Questionou o mesmo tipo que tinha trazido a maleta.
- Uma injecção letal... São uns frascos que roubei numa clínica de cães e gatos. É que tenho uma sobrinha que é veterinária...
- Isso também mata pessoas?
- Claro que mata... Queres ver?
O Doutor Jaime espetou a agulha da injecção no braço de André, enquanto os outros dois homens o agarravam, por causa dos seus movimentos bruscos e descontrolados na tentativa de se soltar.
André, começou por ver as imagens a fugirem-lhe do seu campo ocular, sentindo-se ligeiramente zonzo, até que por fim, perdeu os sentidos na totalidade, deixando cair a cabeça sobre o corpo...





25 - NO QUARTO DE ANDRÉ
NO MESMO DIA, DUAS HORAS MAIS TARDE:

André, ao contrário do que ele próprio esperara, acordou, mais tarde, na sua própria cama.
- Estive a sonhar? - Perguntou às paredes, sem que obtivesse qualquer resposta em troca.
O Cérebro da Aliança de Salvação das Pobres Consciências estava confuso... Afinal, tinha parecido tudo, tão real! Olhou para o lado e reparou na cadeira aonde habitualmente se locomovia, que estava com as rodas enlameadas e sujas de relva.
- Foi real. Aconteceu mesmo... - Concluiu, ao reparar no pormenor das rodas... No entanto, uma dúvida estava a intrigá-lo:
- Então, porque estou aqui agora?
Talvez soubesse a resposta para essa questão! Talvez a intenção dos três homens tivesse sido somente assustá-lo. De uma coisa tinha a plena certeza - estava vivo!!! André puxou da cadeira e subiu para cima desta. Com a ajuda da mesma, deslocou-se até perto do computador, que estava ligado, embora em modo de protecção de ecrã. Basta um clique numa qualquer tecla do computador para o fazer voltar ao seu estado normal e fazê-lo sair do modo de protecção de ecrã... Foi o que fez André, deparando-se com um texto escrito no editor de textos instalado no sistema operativo do seu computador. Parecia ser uma espécie de carta, e o seu conteúdo era o seguinte:
“ Olá, André... Ou Cérebro! Como queiras!!! Escrevo-te esta carta com um fim - falar de justiça e de juízos. Foi Deus quem nos deu livre arbítrio para sermos nós a fazermos os nossos juízos de valor sobre as coisas que fazem parte do nosso mundo! É Deus quem nos dá, todos os dias, a oportunidade de mudarmos a nossa atitude perante essas mesmas coisas... No entanto, optou por não usar a força de modo a obrigar-nos a fazê-lo! Porquê?! Porque para Deus, a liberdade é a única forma de evoluir... Temos de ser nós, seres humanos, e de consciência totalmente livre de pressões, que temos de aprender a tomar as atitudes certas perante aos pertences do nosso mundo. Como consequência de uma qualquer revolta contra esse Deus que te dá liberdade de veres ou não o valor do que te rodeia, resolveste tomar uma atitude de um Deus que mostra, através de violência psicológica ou física (somente em alguns casos), que valor têm as coisas para as pessoas que tu próprio mal conhecias!!! Entretanto, o jogo foi aquecendo, e quiseste-te tornar também, num Deus que castiga os que são injustos com os outros, sem te aperceberes que tu próprio estavas a ser injusto com esses injustos... Primeiro, porque existem formas legais e que foram obtidas pelo consenso de pessoas tão ou mais inteligentes que tu, de fazer os injustos pagarem a sua dívida à sociedade. Não podes, de um dia para o outro, transformar-te num juiz. Porquê?! Porque, imagina que, cada um dos homens que esteve contigo hoje, seria um desses juizes em que te quiseste transformar... Talvez um te quisesse ver sofrer à chuva e ao frio, outro te quisesse ver atrás das grades, e outro te quisesse ver morto! Como vês, três pessoas diferentes, aplicariam três castigos diferentes... Daí existir a Lei e a Justiça dentro de cada sociedade! Para que haja um consenso, e se chegue à forma mais correcta de fazer um injusto tomar consciência das suas atitudes! Cada um de nós tem uma consciência, por direito, livre... Cada um de nós pode fazer juízos mentais sobre determinada coisa ou pessoa. Cada um de nós tem a liberdade de dar ou não valor a determinada coisa ou pessoa... E como tal, será sempre injusto alguém privar-nos desse bem precioso que é a liberdade! Só com liberdade, seremos capazes de evoluir as nossas consciências de uma forma consensual aos olhos de Deus... Tudo o resto, serão formas menos interessantes de evoluir. Que piada tem, eu evoluir pelos juízos que alguém fez por mim, ou pelos juízos forçados que eu fiz de algo, só porque alguém viu por mim o que deveria ter sido eu a ver! Tudo isto me rouba um pouco do que é a minha própria vida... Algo que me é totalmente pessoal e onde ninguém tem o direito de mexer peças por mim! É um jogo meu e não de um tipo como tu, que se julga Deus de todas as vidas que pensa não serem consensuais com os seus juízos de valor. Hoje, cada um dos homens que te sequestrou, resolveu entrar na pele de Operador da tua Aliança e dar-te uma Lição, idêntica às que tu próprio criaste afim de curar outras consciências... Caímos também nós, nessa mesma tentação de sermos Deus. É realmente, uma sensação óptima, mas não voltaremos a fazê-lo pela simples razão de que é injusto para esse Deus que é tão mais superior do que cada um de nós e que tem o dom de nos dar essa liberdade que não aproveitamos e que teimamos em não deixar os outros aproveitar. Preferimos ensinar os outros pelo método menos saudavel, ou seja pelo medo! Traumas, medos inconscientes, pulsões negativas, etc, são as principais consequências desse método! No entanto, cada um dos homens que te sequestrou hoje, resolveu não ser juiz, e optamos por te dar a ti essa liberdade de te redimires dos teus erros! Saberás o que fazer, pois tenho a certeza de que és um miúdo com uma inteligência acima da média. Não será nenhum de nós a dar-te recomendações de como deves actuar! Serás tu, de consciência livre, que irás decidir que futuro dar à Aliança que criaste.

Com os melhores cumprimentos do jogador adversário,
Jaime

P.S: Deixo-te um excerto de uma obra que li recentemente, de um novo autor português:
Óh juiz-pecador, de que me julgas tu afinal?!
Quem és tu para me julgares?!
Atiras tu, a primeira pedra?!
Com certeza, não o deves fazer...
Somente o fazes, se fores hipócrita!
Vives tu dos remorsos dos outros e morres dos teus próprios remorsos...
Sádico que és, plantas nas almas infortunas, a pior das doenças que se acomete no ser humano: a culpa!
Masoquista que és, acomete-se na tua alma esse sentimento triste que espalhas nos outros!!!
Óh juiz-pecador, de que me julgas tu afinal?!
Quem és tu para me julgares?! ”


26 - BELFAST, IRLANDA DO NORTE
TERÇA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2005:

- John, estão aqui uns senhores que querem falar contigo.
A esposa de John Keane gritava da sala de estar, enquanto este se deliciava na leitura de uma reportagem de um dos principais jornais diários da Irlanda do Norte.
- Diz aos senhores para esperarem um momento, que eu vou só acabar de me vestir. - Respondeu John, que se encontrava no quarto da casa recém adquirida pelo casal que também casara muito recentemente.
Enquanto vestia uma camisa lavada, não lhe ocorreu sequer perguntar-se quem seria que o viera visitar àquela hora. Pouco passava da hora do pequeno-almoço, e não costumava receber muitas visitas àquela hora. Mas John Keane, estava totalmente distraído com a notícia que acabara de ler... A primeira intervenção fora do seu país natal, do grupo organizado por si liderado, tivera o sucesso pretendido. Estava radiante! O Clã Purificador de Mentes, como este lhe tinha chamado, era agora um grupo organizado de nível internacional... Até há bem pouco tempo, o mesmo Clã só actuava dentro das fronteiras da Irlanda do Norte, mas agora estava a expandir os seus Avisos ao resto da Europa. John Keane, também já tinha sido vítima de um destes grupos organizados uns dois anos antes... Em homenagem a esse mesmo grupo, que segundo as histórias que se contavam, tinha sido o primeiro de todos, John resolveu que a primeira intervenção do Clã do qual se auto-intitulava o Líder, havia de ser dentro do mesmo género da que tinha servido para acordar a sua consciência... John achava que devia a esse grupo organizado, o facto de se ter tornado num dos maiores sucessos musicais da Irlanda do Norte! Tinha sido esse mesmo grupo que o fizera crer que vale sempre a pena lutar pela concretização dos sonhos e que o fizera ver o verdadeiro valor que tem a vida. Quase dois anos após a reviravolta que esse grupo desencadeara na sua vida, John Keane criara o seu próprio grupo organizado, com o fim de, também ele, curar algumas consciências.
- John, os senhores estão à espera... - Resmungou da sala, a esposa do Líder do Clã Purificador de Mentes, que parecia irada.
- Já vou! - Ripostou John Keane, calmamente.
John dirigiu-se então, até à sala de estar, onde dois homens magros o aguardavam e a sua esposa se lavava em lágrimas.
- O que se passa? - Perguntou John, ao deparar-se com o choro de sua esposa.
- Bom dia, mister John... - Cumprimentou um dos homens, que parecia estar com um ar muito sério.
O outro, apenas estendeu a mão, sem dizer qualquer palavra.
- Bom dia... Que vos trás por cá? O que é que aconteceu...
Um dos homens resolveu então identificar-se perante John, uma vez que só o teria feito ainda, perante a esposa do mesmo:
- Somos da polícia e pretendemos que nos acompanhe até à esquadra... Está lá fora a equipa de detenções, mas julgo que não vai ser necessário a sua actuação.
- Polícia?! O que aconteceu?
- Na esquadra dir-lhe-ão tudo o que se passa... Segundo consta, estará a ser dado como principal suspeito de ser líder de uma rede organizada que actua de forma ilegal no nosso país.
Depois de dito isto pelo polícia que havia solicitado a John que o acompanhasse ao carro, o outro polícia leu os direitos do arguido em voz alta, enquanto lhe colocava umas algemas em ambos os pulsos...


FIM

A LIÇÃO: Copyright © 2005 ricardomteixeira

(17831 palavras) De momento, não é possível votar neste desafio; é necessário fazer o registo para poder votar quando for possível.
Estatísticas de votação para A LIÇÃO Votos: 3   Classificação média: 5



Site: Copyright © 2004, 2005 Escreva.com (Eloisa L. / Dunyazade / JCraveiro)
(Motor: JCraveiro, sobre phpBB. Design: Eloisa L. / JCraveiro, sobre um design de Mike Lothar.)
Os conteúdos são responsabilidade e propriedade dos respectivos autores.